25/11/2015

Quando resolves um problema e, de brinde, ganhas outro

As minhas gatas detestavam-se.
(Não, nenhuma morreu — salvo seja três vezes, minhas meninas —, simplesmente já não se detestam.)
Esperem. Não era assim que devia começar este texto.
A minha casa tem uma porta que a divide, exactamente, ao meio. E é uma porta de vidros — portanto, vê-se tudo de um lado para o outro. 
Os primeiros contactos entre as duas foram péssimos. Uma tinha dois anos e a outra cinco semanas, quando as juntámos. A mais velha agredia a mais nova — que tinha menos de um terço do tamanho dela —, a ponto de termos tido que as separar, tendo cada uma ficado em sua metade da casa. E a porta a fazer de Muro de Berlim, de Apartheid, de barreira transparente, de Cortina de Ferro. Tordesilhas. Acho que já se percebeu a ideia.
A semana passada, a maçaneta da porta partiu-se e, enquanto não foi arranjada, a porta teve mesmo que ficar aberta. As gatas, simples e naturalmente, passaram a circular pela casa toda, basicamente ignorando-se mutuamente, esquecendo a velha inimizade, (eventualmente, construção mental nossa), apesar de (ainda, talvez) não terem desenvolvido uma amizade. Estranham-se, mas não se entranham. Conhecem-se muito bem de vista, mas de mais nenhum sentido, e isso, conforme se sabe, é o equivalente a duas pessoas se poderem considerar conhecidas, mas não amigas.
A mais velha viveu, durante estes últimos anos, do lado onde está a gaiola com os passarinhos. E é inofensiva para eles, desde que, um dia, a fez tombar para o chão e apanhou um susto de tal forma, que nunca mais sequer passou perto da gaiola (e eles sobreviveram à queda). Mas a outra não. E tem rondado a gaiola, fica a mirá-la, o nariz a abrir e a fechar, as orelhas no ar, e aquela posição de salto...
Portanto, as gatas já não se vão assassinar mutuamente, já não vão arrancar os olhos uma à outra à unhada, já não vão devorar-se as jugulares alheias. Mas, agora, tenho que montar guarda à gaiola, porque Dona Mel Maria cogita que Bernardo e Bianca poderão dar uma variante, a não subestimar, à sua ração.
E eu, no meio disto tudo? Ninguém pensa em mim? Acham que é fácil governar esta nação, onde parece que ninguém se entende? O que é que faço? Promovo a amizade entre a gata e os passarinhos, derrubando a barreira que os separa, como aconteceu com o Muro?

É ou não é a existência de barreiras que fomenta os ódios?


14 comentários:

  1. Os gatos são territoriais pah.
    Quando o meu gato ficou internado 2 semanas e voltou para casa, a gata assanhava-se a ele pois não lhe reconhecia o cheiro. Um tempinho depois já o voltou a reconhecer.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E detestam o cheiro dos desinfectantes. Até a pessoas vindas do dentista se assanham.
      Olha, pelo menos, a mais velha deixou de fazer marcações de território.

      Eliminar
  2. OHHHHHHHHHHHHHHH! I tink i taw a puttytat!

    I DID, I DID, I did taw a puttytat!

    :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não sei é se as coisas acabavam assim tão bem para os meus passarinhos...

      :)

      Eliminar
  3. Põe a gaiola mais alta. OU então prende-a bem a uma parede ou mete-lhe uma rede que eles assimnão consegues fazer-lhe nada.

    (Não tens pena dos passarinhos fechados? Eu fiz grandes zaragatas com a minha avó por lhe soltar todos os passarinhos que ela teimava em por na gaiola - e a maioria voltava...)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mais alta do que está, só presa no tecto, mas é uma possibilidade.

      (Tenho. De vez em quando, fecho a porta da cozinha e solto-os. Mas eles já voam muito baixinho, coitadinhos.)

      Eliminar
  4. Acho que preciso duma porta dessas, os meus macacos às vezes parecem gatos. Neste caso, a mais pequena desanca o mais velho. Tens razão quando dizes que as barreiras fomentam o ódio, que tal deixares a porta da gaiola aberta?? ;)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A porta nem sempre é solução, pode ser o problema, como se comprovou no meu caso.
      Coitadinhos :)

      Eliminar
  5. Se calhar está apenas curiosa... Mas, neste caso, a curiosidade pode bem matar o pássaro ;)

    (A mais velha deixou de marcar? Alguma das técnicas funcionou ou ela queria apenas acesso à casa toda?)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois, não posso arriscar :)

      (Sim, até hoje, parou. E estava a marcar diariamente. Ainda usei a da compressa, mas acho que ela queria mesmo era a casa toda de volta)

      Eliminar
  6. Eu ouvi dizer que gato e coelho, têm o mesmo sabor depois do refogado.... :p :p :p

    ResponderEliminar
  7. Querida Linda Blue,
    Não parece ser um caso de ódio. Bem pelo contrário. A falta de barreiras pode ser a solução: acaba-se com o mal pela raiz. Em alternativa, pode ler-lhes o gato malhado e a andorinha sinhá.
    Bom dia,
    Outro Ente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querido Outro Ente,
      Farei o pleno no dia em que, após lhes ler essa fabulosa fábula, possa soltar os passarinhos e haja paz no meu território.
      (Rendida aos Capitães.)
      Um dia feliz,
      Linda Blue.

      Eliminar