05/02/2017

Fui ao cinema e vi dois filmes na mesma sala # 2

Elementos secretos
O título diz zero acerca do filme. Parece coisa de polícia (por associação de ideias com "Ficheiros secretos"), ou tudo menos o que verdadeiramente é: o melhor filme (excluindo os de animação infantil, incomparáveis com cinema para pessoas crescidas) que vi nas últimas décadas, que até já são algumas. O título original, Hidden Figures, faz-lhe melhor justiça, embora não possa ser traduzido à letra: figuras escondidas, nem tanto, Pessoas Invisíveis seria o título certo. Se este filme não ganhar os Oscars todos (guarda-roupa incluído!), eu própria me encarregarei pessoalmente de despedir a Academia em peso. É tão, mas tão bom, aborda tantos temas que me tocam tão profundamente, que posso revê-lo metida numa tina de gelo em pleno Inverno, que me aquecerá o coração na mesma. São duas horas e sete minutos de vale a pena, sem bocejos. (Aquelas três. E o Kevin Costner.) (Vá, agora calo-me, porque a partir de agora já é spoiler.)



Mas, antes do filme
Uma daquelas pastilhas rijas e dispensáveis, um filmeco de publicidade que se conta nestes quatro actos:
1 - A menina, com cerca de 12 anos, acorda num quarto branco, lindo e luminoso, onde apenas consta um colchão no chão. É o pai, simpático e carinhoso, que a vai acordar, dizendo, "Querida, o pequeno-almoço está pronto", ao que a bruta petiza responde, ainda a esfregar os olhos e sem se levantar da cama, "Pai, já tinhas uma mesa, não?". E o parvo querido come e cala;
(Violência doméstica, meus caros, pode ser praticada pelos filhos em relação aos pais, e tem uma vertente psicológica nunca subestimável.)
2 - A malcriada chega à mesa de pequeno-almoço que o palerma lhe preparou e exclama: "Torradas? Ó pai, mas a mãe faz-me sempre panquecas!". E o tonto faz um sorriso triste, em vez de lhe retribuir a patada com outra patada;
(Violência gera violência, ah pois é. Mas uma resposta assertiva no momento exacto trava muita mais violência do que se possa imaginar.)
3 - O bom do parvo está a fazer panquecas com material Pingo Doce;
(Pode ser um síndrome de Estocolmo, aquele de que sofre o senhor.)
4 - O bondoso vai novamente acordar a cavala, anunciando que já pode acordar, e que tem ali as panquecas à espera. Ela acerca-se da mesa, começa a comer uma panqueca em silêncio (ao menos não fala de boca cheia...), diante do olhar comovido e expectante do homenzinho, que, não aguentando mais a ansiedade, pergunta: "O que é que foi? Não estão boas, as panquecas?".
(Nesta altura, a assistência e eu contamos com algo do género, à laia de resposta: "Não, gosto mais das da mãe. Faz-me torresmos.")
Mas diz a arrependida, cabisbaixa: "Ó pai, tenho uma coisa para te confessar". 
(E nós Ai meu Deus, é agora que levas uma chapada, desembucha lá isso.)
"É que a mãe nunca me fez panquecas".
(E a nossa ambivalência a chiar Ai as cabras, tal mãe tal filha, pobre homem.)
"Eu sabia, filha", diz-lhe assim o ternurento, com uma festinha na tola. 
E a conclusão Pingo Doce: "Pingo Doce, a fazer das mesas portuguesas mesas mais felizes", ou qualquer regurgitação do género. 
~
Apneia, senhores, apneia, era o que se sentia na sala inteira quando acabou este filminho de terror.
Tanto que me fica por dizer.
Tanta pomba assassinada.

8 comentários:

  1. Linda,
    O filme não vi .
    Isto...https://youtu.be/_Yp-W-TgChM
    Só à chapada !!!!
    Na filha ,no pai , na mãe e no Jerónimo Martins !!!

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    1. É este mesmo!
      (Bem, a minha memória não está tão má quanto a faço.)

      (Não há uma tesoura para desbastar aquela franja, anyway?)

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  2. Também fui ao cinema no sábado e também vi o filme do Pingo Doce e honestamente pensei que, ou eu sou muito desprovida de sensibilidade ou aquilo era completamente estúpido.

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    1. Qual é a mensagem daquilo, mesmo? (Todas as que me pareceu poderem ser, eram só absurdas.)

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  3. introdução, desenvolvimento e conclusão, brilhantes. post magnífico. acho que me despeço do domingo, com mais vontade ainda de ver o filme (já tinha, fiquei mais motivada) e agora vou ver o anúncio. não conheço.
    beijinhos e obrigada.

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    1. Obrigada, Mia. Generosidade tua. Na verdade, a maledicência é uma inspiração. Devo ter sido uma Brízida Vaz noutra encarnação.
      Boa noite e beijinhos :)

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  4. Está na minha lista, o filme! O dos números, claro!

    Beijocas, Lindona :)

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    1. É excelente, Maria. De como a sobredotação pode ser uma coisa muito boa.

      Beijocas :)

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