21/04/2015

Eu tenho problemas com médicos # 14

Farta dos meus ouvidos tapados, a ponto de me tornar o novo Van Gogh, mas em bi, lá fui ao Hospital da Luz, apesar de me saber ali persona non grata, desde a aventura sangrenta com a minha suposta infecção urinária. Como ia mascarada de drama e tragédia (negro total e um lenço a fingir que é de seda, em tigresse), pouco ou nenhum risco corria de ser reconhecida como a tonta da órina. 
Ao balcão, recebe-me a funcionária de verde, recolhe os meus dados, avisa-me que estão com duas horas de tempo de espera para os casos menos urgentes, pondero simular um desmaio, uma convulsão, um ataque de Tourette, um síndrome sarnoso, até que gemo o que sempre gemo: Eu vou ser considerada urgente, estou malíssimo. A imperturbável contra-ataca que São 98 euros e esse foi o momento em que eu não desmaiei, não tive uma convulsão, etecetera, mas portei-me como uma senhora: recolhi os cartões e anunciei Antes surda toda a vida do que pobre por um dia. E vai de rodar os calcanhares high heels, que a minha vida não é só fintar a gatunagem.
Cheguei ao carro, sentei-me, chorei desalmadamente e limpei-me.
Aquele parque também tem uma história dramática, que, de cada vez que lá deixo o carro, me apetece chorar. Foi hoje. Que alívio.
Segui para o centro médico da área da minha residência, onde fui atendida por um clínico geral quase idoso, que ouviu a verdade nua e crua da minha boca. Apesar disso, deixou escapar sem um sorriso - hoje era só sorumbáticos no meu caminho - as minhas melhores piadas da tarde: Tenho um galinheiro dentro do peito (para explicar a pieira que ouço quando respiro) e Já não tenho mais coisas tristes para lhe contar (quando acabei o relato das minhas desgraças). Disse-me que pertencia a uma associação de carácter religioso e falou-me de adultério. A minha vida é bordada a ouro. Auscultou-me, basicamente confirmou o meu primeiro autodiagnóstico (alergia), e, quando me perguntou a profissão, deu-me um miminho (eu cá gostei, chiu): Eu também tenho uma [profissão de LP] assim, magrinha como a [título académico de LP]. A minha mulher, quando a viu, até me disse: "Se eu não soubesse que é a nossa [profissão de LP], não te deixava andar com aquela Barbie na rua". Tivesse eu audição, e teria começado a ouvir Hi, Barbie!, Hi Ken!, Do you wanna go for a ride?
Mandou-me tomar anti-histamínico. O dealer.
Os anti-histamínicos, a mim, dão-me sono. Eu sei que dão a toda a gente. Mas não. Não é a mesma coisa, creiam-me. Capaz de chegar a babar-me em público e tudo.
Nos próximos dias, escreve-vos uma agarrada. Para variar desta lucidez toda, que até enerva.

19 comentários:

  1. Respostas
    1. Já não sou picha mole, Ovelhinha?

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    2. nunca foste picha mole, era tudo mentira!

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    3. Até já me tinham caído os tim-tins ao chão, com o susto!

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  2. ..." Cheguei ao carro, sentei-me, chorei desalmadamente e limpei-me."...:) :) :)

    A estimada L.P. não apresenta pendurezas !
    É sim - magrinha e a maior !

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    1. :) Sou uma trágica.

      Não serei propriamente magrinha, só beneficio grandemente da média nacional :)

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  3. ... " Eu também tenho uma empregada doméstica assim, magrinha como a cozinheira. A minha mulher, quando a viu, até me disse: "Se eu não soubesse que é a nossa cozinheira, não te deixava andar com aquela Barbie na rua"... :) :)

    http://camilanacozinha.files.wordpress.com/2012/04/cozinheira.jpg

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    1. Eu bem me queria parecer que devia ter revelado logo a minha profissão, em vez dos parêntesis rectos :)

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    2. Não reveles nada,L P !
      Eu gosto de ser provocador !
      E tu "ralada " com palhaços ( moi) ,estou a imaginar-te !


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    3. Claro que não revelo, para quê? Uma coisa que já toda a gente sabe :)

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    4. Rendo-me !!!!
      Completamente rendido !!!
      Dás de avanço !!!!
      Com /sem antiestamínico ! ;)

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  4. que história maravilhosa, vá, não quero ser mal interpretada. está bem contada, pronto! quanto aos antiestamínico, eu não gosto de os tomar porque indiciam alergias, mas como dão sono, adoro-os, porque sofro do mal de insónias e assim, até acabo por dormir melhor! eu sei que sou anormal!!!

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    1. Eu também durmo pouco, e acho sempre que podia dormir mais, mas os antiestamínicos, a mim, põem-me grogue todo o dia. Ter que tomar, durante uma semana, vai ser o "céu" :)

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  5. Isso dos 98 euros, n terá sido da surdez (má audição)??? :)

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    1. Ou era ela que era uma grande brincalhona. Deve divertir-se que nem uma perdida no local de trabalho :)
      (Para a minha série "Só a mim não me saem empregos assim")

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  6. L.P.,
    Sem seguro de saúde ou ADSE ,toca a pagar esses 98 euros.
    É tudo a gamar.
    E quem tem ADSE,paga pouco, mas depois há transferência do Estado para o privado .
    É este o nosso "fado ".

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    1. Eu tenho um seguro que me paga metade dos 98 euros. Mas também conheço a realidade dos médicos, mesmo dos que trabalham ali, e sei que, dos meus 98 euros, 5 tostões vão para o médico, e o resto para uma instituição que eu não posso nem quero sustentar.
      Estou careca de ir à Luz, e nunca me tinham pedido aquela obscenidade. Nem a explicação de que incluía exames e análises que, eventualmente, fossem necessários, me convenceu. Eu só queria que um médico visse os meus ouvidos e garganta, não precisava que me inventassem rx ao tórax e análises ao sangue e urina para me receitarem uma berdroega qualquer, que qualquer médico saberia receitar sem nenhum desses exames.

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  7. Igual na CUF.
    Eu tenho ADSE,consulta de especialidade mais barata do que cons. clínica geral no centro de saúde.
    Há ainda a grande "vantagem " de ser chateado ( cuf ) com toneladas de exames prescritos (sempre ) ,pelos quais acabo por pagar pouco,mas que no futuro iremos todos pagar .
    Casos de maior gravidade tratados no privado ? Não ! Só partos e"pensos rápidos"...operações sérias, tudo o que chateia e não dá lucro rápido - Público !
    É fácil apresentar bons resultados e apregoarem uma melhor gestão.

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    1. Não será bem assim. Uma das minhas filhas foi operada no Hospital da Luz, há 4 anos, e foi uma operação de 6 horas, francamente séria.
      Depende para o que se vai. É óbvio que uma emergência emergente (politraumarizados, grandes queimados, etc.) não vai para a Luz nem a CUF, nem para os Lusíadas.

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