10/04/2015

I.P.O., 3 da tarde *

Está um sol estonteante cá fora. As escolas de férias, o trânsito manso, não há gritos nem movimentos apressados em toda a rua. Mesmo ao pé do sol, encho, pela última vez, os pulmões, tal e qual fizeram os internados, no dia em que foram admitidos naquele grupo de eleitos. 
Ali dentro o ar é irrespirável, porque não se respira. Entramos e pára tudo. Param as vozes, já paradas, param os olhos parados a olhar para nós, mudos, perguntando-nos, quase aos gritos, se não podemos, porque não queremos, levar a vida e o sol lá para dentro. Impossível fazê-lo, dizem os nossos corpos parados, em resposta surda às perguntas absurdas que nos fazem. Num lugar que não respira e que tem umas janelas tão opacas, não há sol que entre algum dia, nem sequer alguma noite. Mesmo os que não estão, estão doentes. Adoecemos também, à medida que avançamos. Está gente à porta de cada enfermaria. As famílias dos enclausurados precisam de ver se é possível ver para lá da tristeza, opaca, como as janelas que não deixam entrar o sol, que impede a visão de todas as coisas, cegando, com uma espessa cortina de água. 
A nossa passagem é a réstia de esperança ou suspeita de que existe um mundo inteiro lá fora, a aguardar os vivos. Querem indagar-nos se ele os espera, intacto, ou se vai anoitecer-se para sempre antes que eles voltem, todos estilhaçados. 

Vêm ver a Lídia? 
Não, Ana Isabel. 

Morre ali, asfixiada, a nossa lufada de ar fresco, que nem chegou a ser. 
Ana Isabel. À briga com a doença, deitada, amarela, em lençóis brancos sob os olhos azuis, afundados em cinzento. A ordem das cores é arbitrária, porque toda a ordem está pervertida.

Sei como entrei, nunca sei como vou sair. 
Sais de pé. 

A mãe evoca-me Nossa Senhora. Não sei por que é que me ocorrem imagens bíblicas de cada vez que estou numa aflição. Avé Maria, cheia de graça - Bendito é o fruto do vosso ventre, Ana Isabel. Nossa Senhora do Amparo, por pouco tempo - os sinais dizem-lhe que, em breve, vestirá o manto de Nossa Senhora das Dores. O sofrimento e a dor trocaram-lhe a ordem à ordem natural das coisas, tal como aconteceu com as cores da cara e da cama da filha. Projecta a própria morte, antecipa o desnascimento, opera o parto inverso, mais doloroso na carne e nos ossos do que aquele que lhe trouxe a Anita, há quarenta e cinco anos. Desta vez, não terá parteira ao lado, e adivinha um parto a ferros, a ferro e fogo, impiedoso. Amparo no regaço, amparo no calvário, Nossa Senhora do Amparo até às Dores. A Anita está quase a desnascer.

Calma, ela vai sair-se desta. 
Não sei, desta vez não sei. 
Vai, de certeza. Palavra de bruxa. 

Falo de bruxas a uma santa, feita proscrita. Os braços baixados, o descrédito na minha certeza sem certezas nenhumas, perdidas no terror de assistir a este quando a família baixa os braços. A mãe de braços baixados. Quando isto acontece, é sinal que toda a esperança, que é a última, já morreu. 

Saio dali, vejo o sol, escondido, envergonhado, cobarde, mudo, atrás de nuvens opacas como as janelas do hospital, muito menos estonteante, mas vou mais tonta. Tenho o sol, sou quase dona dele, só tenho que levantar os braços ao céu. Rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. À mãe.

* Março de 2009, in memoriam de Ana Isabel Dinis, colega e amiga.

8 comentários:

  1. Cara Linda,
    Não fosse este o blogue de uma senhora e comentaria com uma asneira. Assim, fica a ideia. É que, depois de ler o seu sentido texto, a reação é um feio palavrão.
    Colo.
    Outro Ente.

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    1. Caro Outro Ente,
      Posso apenas fazer uma ideia de qual o palavrão que lhe ocorreu. E como o compreendo. Em circunstâncias como aquelas, faço, mentalmente, orações blasfémicas, rezando e proferindo palavrões, num rosário que, não fora ele trágico, seria até bastante cómico.
      Grata, sinceramente.
      Linda Porca.

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  2. Já a mim, nos dias q correm, só me sai um "doença filha da pu**"
    Vivo de perto o drama de um homem de 60 anos e o de uma criança de 5. Em ambos os casos, ninguém merece esta merda. Nem eles, nem os filhos, nem os pais...ninguém.

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    1. Ninguém, mesmo.
      E, nas crianças, ainda consegue ser mais cruel - por todos os motivos, mas também pelo facto de fazerem renovação celular muito mais rapidamente do que um adulto, pelo que renovam todas as células, as más incluídas :/

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    2. Pois...Tb já dei por mim a pensar nisso das células. Mas é ter fé, sp! E sim, nas crianças...fod*** não é mm justo.

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    3. Sim, a mensagem até deveria ser outra, que é a da esperança.
      Nas crianças, é demasiado cruel, não só porque interrompe vidinhas tão curtas, como as sujeita a um sofrimento físico que elas não têm capacidade mental para perceber. É inadjectivável.

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  3. LP, dez de abril de há muito tempo; as mesmas cores, o mesmo cinzento, outro hospital apenas. o preto é igual. cobre-me há demasiado tempo. e não sai!
    beijinho maior .

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    1. Mia, o negrume nunca nos deixa, por mais que o sol brilhe. E as datas são terríveis. Criamos um hábito de convivência pacífica...
      Beijinho com abraço.

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