09/04/2015

Era uma vez uns bichos-da-seda

Por falar em encasulamento, lembrei-me das duas vezes que criei bichos-da-seda, e de como, apesar de distarem trinta anos uma da outra, foi possível a segunda correr sinceramente pior do que a primeira. Ou seja, não é a experiência de vida e a maior ponderação que nos levam a fazer, necessariamente, as escolhas mais correctas.

Tive bichos-da-seda quando era miúda, como toda a gente teve. A dificuldade que era arranjar as folhas das amoreiras em Lisboa, única coisa que eles comem, era a mesmíssima que é hoje, o que me leva a concluir que a edilidade não plantou nenhuma amoreira nas últimas décadas. Que amores.
Achava eu que se distinguiam os machos das fêmeas consoante tinham ou não o corpo riscado, mas sei lá se é verdade. Essa distinção não faz sentido nenhum num animal que passa a fase de larva (macho) e borboleta (fêmea) numa só vida. E não é o único, há muitos invertebrados que também são assim, designadamente os que acabam em borboleta. Sei é que eles ficaram muito grandes, e só comiam e faziam cocó todo o dia. Depois fizeram casulos brancos e de dois tons de amarelo. Um miúdo da minha escola disse que tinha um azul em casa, mas ninguém acreditou nele, até que ele o levou e, como não podíamos falar agora, calámo-nos todos para sempre. 
(Esse miúdo foi o mesmo que uma vez disse que havia de se tornar médico, e havia de tirar a especialidade de neurocirurgia. Ora, ele tinha nove anos e ninguém o podia tomar a sério. O pai dele, médico, tinha morrido enquanto operava um doente, por lhe faltar por perto um colega de neurocirurgia. Mas, assim como quando disse que tinha um casulo azul, o miúdo estava a dizer a verdade, e tornou-se um neurocirurgião daqueles mesmo a sério, quando cresceu. E, mais uma vez, calámo-nos todos para sempre)

Bom, eu já vi um casulo azul, não sei se as pessoas têm noção da importância desta informação. Quando as borboletas saíram dos casulos, não foi fácil perceber onde é que se tinha metido o bicho que para lá tinha entrado. A parva só põe ovos e dá às asas, como se fosse começar a voar, só que não voa. Avança uns centímetros e vai pôr mais ovos um pouco adiante. Nem sequer come. No fim daquela tarefa, morre. Cai para o lado, de asas abertas. A natureza tem desígnios tão idiotas, em alguns casos.

Um dia, achei por bem voltar a ter bichos-da-seda. Os trinta anos que separam a minha primeira geração de bichos-da-seda da segunda, podem não me ter trazido ensinamentos bastantes, mas também revelaram que o animal não evoluiu um único micro-segundo, darwinamente falando. Só o que faz é comer e borrar-se. Come cada vez mais e cada vez mais depressa. Atinge um tamanho absolutamente impensável, irrealista e ridículo. Em duas semanas quadruplica o comprimento e alarga três vezes. É demais.

Um dia, achei que os bichos estavam fartos de comer sempre a mesma coisa. Alguém me disse que eles também apreciam folha de alface. Eu via-os a comerem folhas de amoreiras com tanto afinco, ora digam-me lá: o que é que uma fazedora de raciocínios, extremamente arrojados, conclui? Que quem gosta do legume, gosta da fruta. Vai de pôr aquelas amoras muito verdes, com ar de sobremesa, dentro da caixa. Eles atiraram-se a elas como cães a ossos. No entanto, passadas umas horas, começaram a ficar, digamos, estáticos. Pararam de comer e, praticamente, de se mexer. Também adquiriram prisão de ventre. E bolsavam verde.

Foram três dias seguidos de agonia e vomitório verde-alface, e concomitante greve de fome (os mal agradecidos). Emagreceram. Ou melhor, encolheram, endureceram e ficaram da cor das amoras que eu lhes tinha dado a comer. Pensei que iam morrer. Meio desorientada e bastante culpada, andei à procura de uma amoreira para os abandonar. Estava no Alentejo, onde havia sobreiros e oliveiras em barda, mas nem uma amora à vista, quanto mais uma amoreira inteira. Trouxe-os de volta para Lisboa, certa de que teriam cá lugar as exéquias. No entanto, e de repente, após a desinteria, os bichos começaram a fazer casulo, todos ao mesmo tempo. Sinistros. Não sei porquê, acho que aqueles ficaram com medo de mim. Fui apanhar um já a meio do cortinado da cozinha, penso que a tentar fugir de casa. Agarrei-o e meti-o de novo na caixa, mas pus-lhe tampa, para que mais nenhum tentasse proeza igual. Fui lá espreitar umas horas depois, levantei a tampa com jeitinho, mas arranquei uma parte de um casulo, que estava a ser feito na ligação da tampa com a caixa. O bicho ficou um bocado desnorteado. Foi meter-se dentro do casulo de outro, que já ia a meio, e fecharam-no juntos, muito gays. 

Pensei que, pelo menos daquela geração que estivera aos meus cuidados, nunca sairiam borboletas. Mas enganei-me e saíram, inclusivamente do casulo gay. Puseram triliões de ovos e morreram, como seria de esperar. Finalmente, alguma coisa de normal aconteceu com as borboletas daqueles meus bichos: morreram.

No entanto, o que se passou a seguir veio a revelar o quão acertada é a minha máxima nunca fujas ao teu destino: aqueles bichos não estavam fadados para viver. Deixei a caixa, com os ovos, em cima da máquina secadora da roupa. A minha secadora aquece qualquer coisa e abana muito. Tudo se passou num Inverno muito chuvoso e rigoroso. A tremideira da máquina, associada ao calorzinho, fizeram o mesmo que faz qualquer chocadeira. E, em vez de os bichos nascerem na Primavera, eclodiram todos os ovos em Janeiro. Perto de casa, há um largo com muitas amoreiras, que, malogradamente, se encontravam extrema e totalmente nuas.

Dei-lhes, em suma, portanto, e em conclusão, folhas de alface. E acabou-se a história, no exacto momento em que alguma coisa de normal aconteceu com aqueles meus bichos.

2 comentários:

  1. Olá L. P.
    Bichos da seda azuis ?
    Eu ilustre criador em criança e ajudante dos meus filhos...nunca... vi !
    Azuis ?
    Não há mãozinha de
    http://imagem.clica.cc/900/900/imagens-939-produtos-884/0-939-20140313142821.jpg?fzoom=true

    Esta agora !

    José

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    Respostas
    1. Olá, José
      Não, o que era azul, era o casulo. Um azul clarinho, mas que se distinguia perfeitamente do branco.
      Se fosse hoje, tinha sido logo fotografado, mas, naquele tempo, era diferente.
      Mas eu sei bem o que vi :)
      LP

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