23/04/2015

Medo

Tenho medo de te perder.
É o único medo que, verdadeiramente, tenho, propriedade minha, posse que toma posse de mim, e que eu possuo de forma possessiva. 
Nem animais, nem acidentes, nem doenças, nem mesmo da morte, não tenho medo de nada. Até de andar de avião, deixo de ter medo no momento em que me imagino a ter que te ir buscar a algum lado do planeta - pode ser a América - e ser esse ser o único meio que me possa levar até ti.
Tive tanto medo quando estiveste doente. Nunca me lembro de ter tido tanto medo na minha vida. Nem quando ficava às escuras, com a cama cheia de bonecas, e não conseguia perceber onde é que ficava a porta e de que lado estava a parede. Nem quando o telefone tocava, durante o coma do meu pai, nós sem sabermos se era a notícia, que medo, que medo, é mesmo verdade que o coração fica espremido, eu sei, porque eu já tive o meu assim. Nem quando ouvi do médico a frase nódulo às nove horas. Os médicos dizem cada coisa, as nossas mamas são um relógio, tic-tac. Nódulo às nove horas, vamos esperar para ver. Vamos esperar para ver, tu e eu, de mão dada, juntos na agonia da espera, ou eu sozinha? Não tive medo. 
Não tenho medo de morrer - porém, não posso morrer. Semeei muitas raízes que me agarram à Terra, não posso ter a leviandade de me arrancar sem mais nem porquê. Dialoguei com Ele outra vez: Vê lá bem o que é que me arranjas, não te esqueças que estou a cumprir uma obrigação que é tua. Deus não tinha anjos suficientes, e então criou as mães (não sei quem disse isto, mas deve ser verdade). Não sabia a que me agarrar no meio do meu não medo, agarrei-me às minhas asas. 
Mas tive medo quando o médico disse 
O exame que ela fez não foi inocente
As tuas inocentes costas tinham feito um exame. O exame não inocente. Antónimo de inocente, culpado. Perigoso. Mau. O resultado do exame às tuas costas inocentes foi: culpado. Tu sem culpas, tu desculpada, o teu exame culpado. E eu apoderada de medo.  
Ela tem aqui uma massa
disse outro médico, no mesmo dia, a quem levei o teu culpado exame, tolhida de tanto medo, incapaz de fazer outra coisa que não fosse correr portas, bater a todas, até que alguém, atrás de uma delas, me pudesse responder 
Dá cá a cruz
Diz que Deus não nos dá uma cruz mais pesada do que a que nós podemos carregar.
A palavra tumor a sair da boca de um médico, um senhor a dizer um palavrão daqueles.
Tumor. Temor. Terror.
Meti-te debaixo das minhas asas de anjo, parecias um pintainho.
Seis horas nas mãos de um santo milagreiro, de bata vestida e bisturi em punho.
Vi-o ao fundo de um corredor, santo com sorriso de anjo, também ele todo cheio de asas, e, dos lábios, brotou-lhe a palavra
Benigno.
Benedicto, bem aventurado - bendito, que vens em nome do Senhor -, senhor que não diz um palavrão daqueles.
Deixei de ter medo, mesmo quando me dizes que, um dia, vais p'ra América, de avião, e não voltas. Se tiver que te ir buscar, também me meto nessas asas e trago-te debaixo das minhas, pintainho.
Mas continuo a ter medo de te perder. 
Ao menos, que fosses só uma - teria medo de te perder a ti. 
Continuo a ter medo que haja outro médico de cuja boca saia o palavrão terror
Ao menos, que fosses só uma.
Tenho medo de vos perder.


18 comentários:

  1. Anónimo23/4/15

    Lindo texto, e esse medo que nos tira anos de vida em segundos e tantas vezes sentido ao longo da vida, porque ainda que sentido uma ou duas vezes sabe a tantas e marca-nos de forma impiedosa e não nos deixa que o esqueçamos durante o resto da nossa existência ...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há circunstâncias, como esta, em que o medo só tem tendência a aumentar de tamanho, lembrando-nos de que há forças contra as quais nada podemos.
      Obrigada.

      Eliminar
  2. Muitos parabéns, LP!
    Tão bonito,tão simples,tão sincero...tanto amor !
    É horrível , sentir esse medo e essa impotência .E essa espera.
    Tb já aconteceu com o meu filho mais novo.Deve ter sido tudo muito parecido.
    Olha,não passamos de simples formiguinhas e nesses momentos de desespero, paramos...e valorizamos as coisas realmente importantes desta vida.
    Como eu te compreendo !
    Felizmente já está tudo resolvido.
    Muito bem resolvido !
    Agora percebi a nossa conversa no post de ontém ( serviço público / privado ).
    Duplos parabéns,LP!
    Beijo,
    José



    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não temos outra alternativa senão enfrentar, ainda para mais com a consciência de que aquele é, com toda a certeza, o maior medo que enfrentamos na vida.
      Obrigada.
      Beijo

      Eliminar
  3. LP, isso não é medo, não é terror, isso é um estado de alma impossível de verbalizar, pois o nó que nos ata as palavras e nos cega perante a evidencia do que pode acontecer, não tem som. É um grito mudo!
    Fico feliz pelo resultado final.
    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois não, Mia, nunca como nessas horas a expressão "não há palavras para exprimir o que sinto" se aplica tão bem. Se é medo, não é o mesmo medo das outras coisas. Somos nós virados do avesso, a mostrar a carne viva.
      Por mais que tente, não encontro nada que exprima aquilo.
      Está impecável, a vida continuou, basquete incluído :)
      Obrigada.
      Beijinho para ti também

      Eliminar
  4. Daqueles medos pelo qual nenhuma mãe devia passar, muito menos uma criança !
    Infelizmente a vida tem a mania de ser dura e por vezes cruel connosco
    Ao ler o texto viram me as lagrimas aos olhos, senti um no na garganta ... não consigo sequer imaginar o terror pelo qual passas te, o sentimento de o mundo se desmonorar a tua volta, ficares sem chão ...
    Ainda bem que tudo passou e a tua menina esta bem e feliz

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ela sentiu menos do que eu, na altura (tinha 11 anos). tinha dores, não tinha terrores. Se fosse hoje (16), seria ainda mais dramático, porque perceberia.
      As mães ficam sem chão e flutuam, por força das tais asas.
      Agora sim, acabou o pesadelo. Só ficou o meu medo.

      Eliminar
  5. Há um aperto no coração, a garganta que parece não ser capaz de emitir um som, a cabeça a mil... O amor a invadir-nos da cabeça aos pés, a par com o medo.
    (maravilhosa entrega, LP)

    Beijos. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ficamos dominadas pela angústia, num transe de sofrimento insuportável.
      E é uma rede que apanha uma família inteira, o pânico atinge tudo e todos.
      (Foi operada no dia em que o irmão mais novo fez 10 anos, que abdicou desse aniversário em prol da agenda do médico)

      Obrigada, Maria Eu :)
      Beijos.

      Eliminar
  6. Solicitação :

    Nós habituais frequentadores do blog L P, solicitamos para amanhã , 24-04-2015 ,um post à L P !
    Do tipo..." partimos o tarolo a rir " !
    Pode ser ?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nem de propósito, está prontinho! :)
      Só não o publico agora porque é gigante (mais ainda) e, por hoje, já chega de letras.
      :)

      Eliminar
  7. Com um texto tão bonito e sentido é difícil acrescentar mais palavras. Ser mãe é carregar esse medo para sempre. ´
    "Tumor. Temor. Terror."
    Somos meros peões indefesos, presos nas teias do azar ou da sorte.
    Beijos LP :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Somos, sim. Resta-nos andar de olho aberto, atentos aos sinais, evitando, a todo o custo cortar-lhes as asas por conta das nossas ansiedades - tudo ao mesmo tempo, não é fácil...
      Obrigada, Imprópria, sempre própria :)
      Beijos.

      Eliminar
  8. Tocou-me tanto. Obrigada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu é que agradeço, Mãe Patinha (que nome tão delicioso, e tão propositado para comentar este post :)).

      Eliminar
  9. Sem palavras. Bonito e tão verdadeiro.
    Beijinhos

    ResponderEliminar