06/03/2017

Da minha incapacidade para estar em velórios

Por contingências que a vida tece, e a morte também, pois que dizem que essa faz parte da outra, mas eu só acho que se estão nos antípodas reciprocamente, calhou-me em má sorte a presença em dois velórios no espaço de uma semana. Há muito que assumi que não sei estar em velórios: nunca vou tranquila embora séria, não sei o que me espera e isso inquieta-me, não sei dizer aquelas coisas "meus pêsames", "força", "agora tens que...", "faz parte da vida", ou ficar a ouvir o relato de "como é que foi", como se como é que foi explicasse aqueles dois segundos sucessivos em que a pessoa passou de viva para morta. Levo comigo o receio de ter um desaire dos meus, de me esquecer de onde estou e desatar a rir por qualquer razão, ou de encontrar uma cena que me desmanche toda, para o bem e para o mal. Creio que estou tão concentrada por não querer chorar que instintivamente procuro qualquer coisa que me alegre, ou, pelo menos, que me arranque daquela tristeza que é o ambiente de um velório, mesmo que ele seja de uma pessoa com duzentos anos. 
Foi assim que assisti ao diálogo entre uma senhora de muita idade e uma menina de vinte e um anos, com cara de quinze, magrinha, voz de criança:
- Filha, em que ano estás?
- Eu estou no quarto ano... 
O espanto, o movimento na cadeira, toda a linguagem corporal da senhora que, sendo professora, e apesar da avançada idade, está actualizada nas designações dos anos de escolaridade, e, por isso, não pode ter confundido quarto ano com o antigo quarto ano dos liceus. Sabe perfeitamente que quarto ano é a antiga quarta classe, e daí a sua incredulidade: 
- No quarto ano, filha? — Olhando e remirando a miúda. Por mais infantis que fossem os seus traços, vendo-lhe um tamanho de mulher, embora pequena, tentava perceber como é que alguém tão grande podia estar no quarto ano. — No quarto ano?
- De Medicina... — Esclareceu ela.
E eu para ali fiquei, agora sim, concentrada, os dedos a segurar a parte superior do nariz, lacrimejando discretamente. 

2 comentários:

  1. é difícil, sim. o último foi há 10 dias, e não sei como encarreirei conversa.
    beijinho, Linda.
    boa semana.

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    1. Ainda te ganho, Mia: o último há 8, ou penúltimo há 13...
      Beijinhos para ti.
      (Haja saúde.)
      Boa semana também.

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