13/12/2016

(e)ternos

Lembro-me deles muitas vezes. Acredito naquele amor para lá da doença, para lá da demência, para além da decadência física. Mas queria acreditar ainda mais, por me sobrar a resistência da dúvida a partir de um momento preciso. 
Cada vez que lá vou — vá em que dia da semana for —, ele está lá, ao lado dela, ou então a carregá-la para dentro do carro. E depois leva-a dali, por umas horas, talvez um dia inteiro.
Ela é das pessoas mais novas daquele lugar, metade dos fios de cabelo ainda castanhos, a outra metade por conta de ralações lá dela. A cabeça pendurada sobre o peito, o olhar paralisado num ponto opaco, sem vislumbre de réstia de coisa nenhuma. E a cadeira de rodas.
Sabemos como nascemos, não sabemos como morremos. — Ouvi eu uma vez, para não mais esquecer. Ela é a prova provada em como um dia, que não há-de ter tido nada de belo, a linha pode quebrar-se, mas a vida continua. Pelo menos, a dos outros.
Quando se senta ao pé dela, também ele paralisa o olhar num ponto opaco, sem vislumbre de réstia de coisa nenhuma. E ali ficam, ele à espera dela, já não do regresso, mas de todas as vezes que ela não mais que murmura um sim ou um não, ela que ele lhe repita as perguntas a que ela não responde.
Quando lhe pega para a levar, peso morto num esforço sem forças, há-de lembrar-se de todas as vezes que a levantou nos braços enquanto jovens e saudáveis, enquanto a vida não os levou para longe dessa vida. Há-de ser para lá que a leva, onde voltam a ser saudáveis e jovens, quem sabe belos. — Onde se mantêm, eternamente, eternos. 


4 comentários:

  1. Devíamos desligar automaticamente quando a doença nos limitasse a esse ponto... :(

    Beijo, Lindinha :)

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    1. Concordo, Maria. Muito.

      Beijos :)

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  2. "Sabemos como nascemos, não sabemos como morremos." raramente nos lembramos disso!
    boa tarde Linda Blue

    :)

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    1. Para mim, é quase um lema.
      Boa tarde, Moonchild :)

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