09/03/2015

Olha, e se pagassem? Ou isto é só ir ao cu?

Puxa.
Pedem-me os trabalhos. Eu, por razões óbvias - estar ocupada, sentir-me útil, gostar de ajudar o próximo... haverá mais alguma? -, aceito.
Impõem-me um prazo. Espartano, como sempre, mas, ainda assim, um deadline. Daqueles que ou fazes ou morres. Não há negociação possível naqueles prazos. Não há mais um dia, só menos um dia. Chego a ter horas para a entrega dos trabalhos - segunda-feira, até à hora do almoço. O que significa um fim-de-semana no pandeco, porque segunda-feira é assim colada ao domingo, vá-se lá perceber isto. Hora de almoço, que bom. Dá para perguntar a que horas é que almoçam? Se for preciso, eu almoço às 4 da tarde. Ah, OK, vocês é sempre à uma. Ólraite, na segunda, até às 13, segue o bom e o bonito, mal assim acabe de estampar novas olheiras na minha cara. 
A estes, não peço valor de adjudicação. Conheço pessoalmente um deles, bem o suficiente para saber que pagam na mesma, mal o suficiente para cobrar a tempo e horas. Não são as relações pessoais, misturadas com as profissionais, que estragam tudo. Sou eu que estrago tudo, por ser assim tão porreirona. As gajas porreiras são mais ou menos como os gajos porreiros. Em Sodoma, são logo os primeiros. Genitais, rimei. Sou amada sem saber.
Estou farta de ser bem educada. Vou escrever no livro de reclamações da minha mãe. 
Ai não tem? Escrevo num post it e colo no monitor: "Pára de ser bem educada, genitais!". Pobre de mim, que nem aquele palavrão dos coisos consigo dizer sem enrolar a língua toda em alhos. Detestável senhorinha, quando é preciso arregaçar mangas e fazer-me à vida, seja lá o que isso for.
Entrego o trabalho no dia e na hora não combinados - impostos.
Impostos, salvo seja, que só de pensar que 25 % ficam logo lá, apetece-me logo carregar na conta. Ai, não, espera: faço isso, e os 25 % mantêm-se, mas aumentados. Confuso? Oh.
No mesmo dia, no mesmíssimo momento, envio a conta final.
Ou a machadada final?
O golpe fatal?
Instinto fatal.
É isso. E fico sentada, como a outra, só que em moreno, a cruzar e descruzar as pernas, à espera que me paguem. 
Estou a falar de trabalho.
Passa um mês e interpelo - Ei, já me dói o cu (de estar sentada), não querem fazer a vossa parte, que é...?
Que não, que não pode ser já, que só pagam a 30/45 dias (sic), que eu é que estou mal informada das condições deles.
Hã?
Ah, é isso. Eu é que percebi mal. Nem este é o 11.º trabalho - décimo-primeiro - que faço para aqueles merceeiros. Não são esses gajos que têm pagamentos a 30 dias? Então, lá está: estive a lidar com o povo do cash and carry até agora, e não tinha percebido. 
Agora vou ao sapateiro mandar pôr umas capas nuns saltos. A ver se ele me faz primeiro o trabalho, e só pago no fim. Nessa altura, digo-lhe:
- Olhe, você é que está mal informado dos meus prazos de pagamento, que são a 30/45 dias. Os meus clientes também é quando me pagam, pelo que não tenho dinheiro, até lá, para lhe pagar a si. Sugestões para se entreter, enquanto espera? Olhe, chuche no dedo.
Eu, por mim, como sou uma diva e estupidamente bem educada, cá continuo sentada, a cruzar e a descruzar as pernas, como a outra. Só não tenho o picador de gelo, de resto somos quase iguais.

14 comentários:

  1. E tenho muita pena, que tenho, de vos ver sempre a correr atrás do ordenado... lá em casa é o mesmo.
    Caramba, há uns que pagam a 90 dias pah! 90 dias?????
    Até se me entermela a língua.

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    1. Ao fim de 90 dias, era menina para já ter definhado de larica, mas nem ter perdido a pose, e dizer ao povo que se tratava de elegância natural.
      De toda a maneira, já sou um osso. E isto é só cães.

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  2. Se não assinas contrato escrito com eles, estás a arranjar lenha para te queimares.

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    1. Temos aquele contrato mais moderno, todo verde, sabes?
      Nem preciso de mais lenha, estou em plena fogueira, que já arde alto.

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  3. É tramado. A malta faz o trabalho na hora e, como pagamento imediato, recebe um 'aguenta aí que a gente tem critérios'.
    Dá vontade de soltar o mau feitio e dizer: 'fuck you man, what's up? give me the money, right now'. Em inglês que é fino e os gajos ficam (ou não) impressionados.
    LP, tenho para mim que quem exige assume a responsabilidade adequada. Ouandamos todos a brincar uns com os outros?
    Olha, imitando uma jovem que conheço, genitais pá!

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    1. É isso. Havíamos de trazer a pistolinha na liga, ou a faca na liga, ou sei lá o quê na liga.
      Sim. Andamos todos a brincar uns com os outros. Uns mais do que outros, porque são os donos do recreio.
      Essa "jovem" é que a sabe toda ;)
      (mas suspeita-me que não é uma das donas do recreio)

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    2. Não será, a jovem, a dona do recreio. Antes, uma frequentadora do mesmo e, por isso, sujeita à pontaria de quem manda.

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    3. E manda demais.
      E manda porcarias também...

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  4. Já nem sei se isso se chama falta de respeito, de lógica ou pão nosso de cada dia. Um emprego já é por si difícil, parece que há algum gostinho em complicar a vida a quem trabalha a sério...juro...há coisas que me queimam o fusível. É tão triste hoje olhar para trás e sentir-me melhor por ter saído do meu próprio pais...é ridículo. Boa sorte!

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    1. Digo-te que, se não tivesse tantas amarras aqui, neste momento, dava o salto hoje mesmo. Até do sol e do céu me despedia.
      Obrigada!

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  5. Estou disponível para andar à porrada. Não sei se tenho jeito, porque nunca experimentei, mas já vi muitos filmes com tareia e acho que consigo uns hematomas. E arranhões profundos.

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    1. Boa. Eu também aprendo truques no cinema. Se der para o torto, acho que faço uma boa fuga em frente, sem me estatelar pelo caminho :)

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  6. Olha, esquece o que disse. Eu até a partir ovos sou uma desgraça, quanto mais a bater em alguém...
    Uma situação dessas só me provoca náuseas. É revoltante!

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    1. Além do que não deveríamos conseguir grandes resultados, mas obrigada pela intenção, na mesma.
      O pior de tudo ainda é aquela sensaçãozinha de que esperneias muito e perdes o cliente, sabes?

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