11/03/2015

A quarta boneca

Eu já nasci pré-mamã. 
Nasci grávida, eu.
Eram muitas bonecas, toda a gente me oferecia bonecas. Também me ofereceram uma casinha de bonecas, com mobília e bonecas pequeninas, mas não era assim que eu queria brincar - a pô-las a cozinhar, ou sentadas na sala a ver televisão, ou a receber as amigas à porta. Eu queria pegar ao colo, dar beijinhos, dar de comer, dar banho, pôr a dormir, aconchegar os lençóis. 
Tinha tantas bonecas que me davam tanto trabalho. Andavam sempre limpinhas, penteadas, alimentadas (fazia-lhes papa de farinha e água, horrível, mas elas gostavam. Pelo menos, nunca perderam o sorriso), vestidas de lavado e calçadas com sapatinhos que não lhes apertavam os pés. Também as levava à praia, mas rapidamente aprendi que não podia deixá-las ao sol porque, ao contrário de mim, que logo acastanhava, elas perdiam a cor para sempre. Nem podia levá-las ao mar, porque as pernas delas, ao contrário das minhas, que enrijeciam, ficavam bambas. Estranhas filhas tinha eu, que não saíam em nada a mim. 
À noite, esgotadas as caminhas de bonecas e um pequeno sofá no meu quarto, deitava as que já não cabiam numas ou noutro na cama comigo, umas aos pés, outras de um lado, outras do outro, e era assim que fingia que dormia, mal me podendo virar sem dar com a cara no braço rijo de uma delas, e também porque fazia vigílias, noites preocupadas com a febre de uma ou de outra. As minhas bonecas também adoeciam, e era preciso estar alerta de noite, não fosse alguma precisar de beber um bocadinho de água, ou tomar uma aspirina, feita da cápsula dos pioneses. 
Depois cresceu-me o corpo e fiquei com um tamanho que nunca mais ninguém me ofereceu bonecas. Se as quisesse, teria que as mandar vir.
Fiz a minha encomenda e, ao fim de quatro anos, tinha três bonecas a sério, para alimentar, dar banho, vestir, pentear e pôr sapatinhos que não lhes apertassem os pés. Voltei a ter os mesmos trabalhos, noites de vigília aquando da febre, não fosse alguma delas chorar e precisar de remédio, já não as cápsulas dos pioneses - a medicina, entretanto, evoluiu -, mas ben-u-ron xarope. Até que encomendei a quarta boneca, ciente de que fechava o ciclo. Povoava, assim, a minha casa, qual colonizadora de fêmeas, edificadora de matriarcado. Não sei se me enganei na encomenda, ou se houve alguma troca pelo caminho, mas o que é certo é que recebi um boneco na volta do correio, que adorei tanto e tão profundamente, que nunca me passou pela cabeça reclamar com o expedidor e exigir a devolução. 
Mas, algures e em algum tempo, estava registada a encomenda, e eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, a minha quarta boneca chegaria, sob uma forma qualquer. Tenho-a agora, guardada numa caixinha, para não se partir - que tão frágil é -, cabelinhos brancos, pernas de porcelana. Mas outro dia tinha os pezinhos magoados, de uns sapatinhos pequeninos como os pezinhos dela, que lhe roíam a parte de cima. E isso não podia ser, porque eu não durmo com essa preocupação - egoísta que sou, preocupo-me também com o meu (não) sono - e fui-lhe lá levar uns sapatinhos confortáveis e também um chocolate, Deixo-lhe aqui um chocolate porque hoje é Dia da Mulher, mas agora tenho que ir ver o mar, e saí quase a correr, deveria ter deixado a minha boneca a pensar Que estranha que esta me saiu, diz cada coisa. E só não deixei porque sou também a boneca da minha boneca, e sabemos ambas, no coração, je t'aime, moi aussi, je t'aime, la mer, ma mère, mar e mãe, homófonas lá noutra língua que nos entendemos uma à outra tão bem.

26 comentários:

  1. Tão linda história Linda Porca, comovente!

    Beijinhos e um bom dia para ti:)

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    1. Obrigada, Coisas boas :)

      Um bom dia também. Beijinhos :)

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  2. Linda Porca. Linda Filha. Linda Mãe. Linda.
    Beijinho para todas elas *

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    1. :)
      Lindo comentário, Sci.
      Beijinhos para ti :*

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  3. A minha primeira boneca chegou quando eu tinha 7 anos.


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    1. Mas não foi a única e a que tens, daquelas mesmo a sério, não será a última.

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  4. É só piropos, LP. Estão a habituar-te mal, é o que é.
    Aqui para nós ... parou-se-te a boneca? :-)

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    1. Ou sou eu que os mereço, já pensaste nessa possibilidade?
      É que nem vejo, nesta caixa de comentários, só piropos, mas ok.
      Não se me parou a boneca. O que é que tu leste?

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  5. Isso de nascer grávida deve ter dado trabalho à tua mãe :-P

    Beijos

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    1. Matrioskas :P

      Beijos

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    2. Estava a tentar imaginar um parto assim mas é demasiado complexo :-P

      Beijos

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    3. Desenroscas as bonecas pela cintura :P

      Beijos

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  6. Palavras recheadas de carinho, é o que aqui está bem explícito. E gosto muito, porque são muito sentidas! Depois, em jeito de informação, tive bonecos a que nunca liguei; a minha deu-os quando nos mudámos quando o meu pai morreu, e só aos dezoito anos é que voltei a ter uma boneca, pois segundo parece, até parecia mal, não ter nada nesse segmento sendo mulher! Já nem sei dela. Serei anormal?

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    1. Não, Mia, a anormal, aqui, sou eu :)
      Essa medalha pertence-me. Não conheço mais ninguém que tenha dedicado tantas horas a tratar das bonecas.
      Pobrezinhas, faziam anos várias vezes por ano, só para lhes poder fazer uma festa. Passaram o diabo nas minhas mãos, por excesso de desvelo :)

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  7. Deixas-me sem palavras...

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  8. Portanto se entendi bem, três bonecas e um boneco filhos e a mãe e fiquei a admirar-te mais, por seres filha, mãe e ainda arranjares tempo para escreveres assim.
    um beijinho
    Gábi

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    1. Boa matemática, Redonda :)
      Obrigada!
      Um beijinho também para ti, e um dia feliz.

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  9. Que Bonito Linda Porca. Também encomendei bonecas mas enganaram-se na encomenda. Vieram dois bonecos. Resta- me aquela para quem eu sou a boneca :)

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    1. É um correio muito aleatório, mas que terá uma qualquer razão de se enganar tantas vezes, nós é que desconhecemos qual é...
      Trata-a bem, ela adora-te :)

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  10. :)

    (Não me saiu mais nada)

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  11. Que Linda que tu és. Obrigada. Beijinho, beijinho.

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    1. Ora, de quê, querida? :)
      Beijinho, 2, 3, mil :*

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  12. Um texto com pinguinhos de infância e muita ternura. Soube bem lê-lo!

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    1. Há momentos, ao longo da vida, em que nos parece que nunca saímos da infância.
      Obrigada :)

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