25/10/2016

É tão pouco blogger da minha parte # 10

ou
Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua?

Olhem, não sei.
Fui a um restaurante do bom e do melhor. Boa comida, sala esplendorosa, um requinte pegado, uma coisa esmagadora.
Eu não consigo ser chique.
Sei aquelas regrinhas todas, como sentar, em que talher pegar, até sei enrolar o taglettini no garfo, usando a colher na mão esquerda. Aliás, não troco a ordem aos talheres. Foram muitos anos de "Senta-te direita", "Não fales com a boca cheia", "Não brinques com a comida", "Acaba o que tens no prato", "Limpa a boca com o guardanapo", "Não cantes à mesa", "Cala-te e come", "Cala-te", "Come", para agora me enganar em algum dos procedimentos socialmente aceites. 
(Estou mesmo convencida que todos seríamos uns primitivos, a comer com as mãos, se não tivessem inventado as mães, e por mim falo.)
Tenho a descontra de pedir uma cerveja preta num restaurante so chic, tudo me corre às mil maravilhas, não me engasgo vez nenhuma, não me salta um perdigoto, nem um naco, nem um nico de bolo alimentar, não se me prende um legume a um dente da frente, não tropeço nos mil degrauzinhos que a sala tem, dispersos aqui e ali (isto só cá para nós, que ninguém nos lê, aquela cena da Jennifer Lawrence nunca se me encaixou como acidente) (mas eu tenho um bocado a mania da teoria da conspiração) (já sei que não é comparável, mas caneco, cada um tem o Oscar que merece. Este era o meu), 


aguento uns sapatos de salto quase agulha, daqueles que só são confortáveis na sapataria que os pariu, que é a p. para onde deviam voltar, mas






meti-me num vestido que encolheu subitamente no Verão passado.
Esteve tanto calor, que aquilo há-de ter encolhido dentro do armário.
(Nota mental: mandar instalar um bom ar refrigerado no meu roupeiro.)
Um bocado desesperada, porque o adoro — adoro-o, é o meu vestido mais bonito. Até me apetece fazer-lhe uma poesia. Umas rimas, prontos —, vesti-o e apertei-o atrás, fecho eclair acima, sem ter pedido ajuda a ninguém, pois que sou maleável, pois que tenho elasticidade, pois que tanto alongamento para quê, pois que sou uma mulher independen...
Bom, lá fui.
Atravessei a sala a sentir um fresco ao nível costal e uns olhares penetrantes cravejados no meu cachaço. 
Fiz tudo como manda o figurino, comi e bebi com parcimónia, seja lá isso o que for. 
Até que senti uma ventosidade provinda sabe-se lá se não do ar condicionado, que me fez suspeitar





que não tinha acabado de me vestir. 
A idade é um posto, chiu. Limitei-me a virar-me de costas e a pedir-lhe: 
- Importas-te de me subir o fecho do vestido? Estive até agora com ele aberto até meio das costas.


2 comentários:

  1. um vestido assim, tão lindo, tão afável. digno de uma estima inestimável, sujeitar uma pessoa desse gabarito, a uma corrente de ar assassina? não é um vestido, é um "conan, o bárbaro", um salieri invejoso do corpo que o arrasta pelos olhares de desdém de todas aquelas mais possuídas de gramagem abdominal, é um garret mcnamara que obriga a suster a respiração, é um, é um, eu sei lá o que é. talvez se visse o vestido ao vivo, ou fotografado, tivesse a tarefa ao nível do insulto comparativo, facilitada.
    boa noite, Linda Blue.

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    1. É belíssimo, Mia. Não há descrição que faça justiça. Mas é facto que encolheu. Não encontro outra explicação para me estar tão justo. É conseguir desencolhê-lo e fica aqui prometida a prometida foto.
      Beijinhos e uma noite feliz

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