Fomos os dois à rua, num instantinho daqueles só nossos, em que o mundo desaparece e fica só o céu que estava, com a luz que nos batia em cheio, apesar de a tarde já ir alta. Hoje doía-me um abraço que sonhei sem ter recebido, e então os olhos dele, que rasgam, imensos, de uma ponta à outra da cara, deram-mo quando lhe perguntei,
Olha lá, tu não achas que se vê que nós somos mãe e filho? Achas que parecemos namorados?,
e me respondeu,
Tu só dizes disparates.
(Até nisso parece o meu pai — Dizes tantos disparates, rapariga —, enquanto mergulhava os olhos do amor nos meus, todo a rir.)
Henriquinho.
Cortou o cabelo curtinho, a pente dois, e eu quis zangar-me, mas não tive forças, porque é preciso ter-se uma energia especial para contrariar o instinto de o encher de beijos. E eu não tenho.
O carro tinha ficado suficientemente longe para termos tido que fazer um pequeno percurso a pé. Como sempre, eu ia de saltos. Mesmo assim, ele é agora mais alto do que eu, apesar de eu ser maior. Tinha refreado o impulso de lhe dar o braço, como faço quando me quero meter com ele, mas ele deu-me aquele abraço com os olhos, e toda a minha boa vontade social se esvaiu num suspiro de alegria.
Tu só dizes disparates.
O meu nariz no cabelo dele — tão curto, a picar-me —, a inspirá-lo,
Foi com esta pérola da poesia contemporânea, livre do agrilhoamento da rima, da métrica e da fita métrica, que concorri ao palmarés da melhor poetisa da blogobola. Há em mim uma Espanca (ai, bruta), uma Natália, uma Maria Amália (nisto, já eu rimo, sou tão irreverente).
Estou, oficialmente, em campanha. Entrei no vale tudo, até tirar olhos (tipo globos oculares). Eu quero ganhar o prémio que a grande mestra reservou, seja lá ele qual for. (Por que é que algo me diz que me vou arrepender tanto destas singelas palavras?)
E com esta vos deixo, embora não possa prometer que por muito tempo. Linkei apenas umas referências, para vos facilitar a percepção, em plenitude, da profundidade da minha ode. De resto, foi isto:
Ó pá.
Uma poesia sobre as estações do ano, quais Vivaldi? Logo a mim, que não tenho queda nem inclinação para a poesia, vai tudo a trambolhão. Nem tenho veia, que mais parece uma variz. Nem jeito, que só trejeito, pareço uma flausina.
Eu gosto é do Verão, de passear de calças na mão (ai é de prancha? Olha, mas agora fica. É mais consentâneo com a conjuntura actual).
E os passarinhos fazem os ninhos na Primavera. E os pólenes, que nos fazem os ninhos atrás das orelhas, e no meio dos pêlos das fossas ao nível nasal.
Falta-me falar do Outono, essa estação-apeadeiro da vida que é a última (alguém já ouviu falar do Inverno da vida? Não, pois não? É porque não há), caem as folhas e estreiam-se as A 4, tanta árvore abatida, tanta pomba assassinada.
Às onze semanas de vida, ainda não sossegou. Vive connosco há seis. Quarenta e dois dias, e a farra continua.
Em vinte e quatro horas,
1. Ainda mal o dia raiara, atirou-se para dentro de uma sanita — quero dizer, atirou-se mesmo, nem sequer se apoiou no rebordo, simplesmente disparou lá para dentro —, e ficou, a quatro patas, todas abertas, assim como uma raia, se as raias tivessem patas, o bandulho mergulhado nas águas sanitárias, não fétidas porque, naquele preciso momento, estava a louça impregnada de detergente, precisamente;
2. Mais pela tardinha, e porque devia estar aborrecida da vida sem esbórnia que lhe é proporcionada, achou que fazer da sala uma arena era a melhor opção para combater o tédio. Julgo que pretendeu recriar uma cena tauromáquica, ou, de forma cristã e literalmente original, um circo romano. Talvez por semelhança cromática, ou vá-se lá perceber por que outro motivo, entendeu que a Mia fazia tranquilamente o papel de toura e ela própria — por que não? —, de forcada. E deu-se a pega de caras. Eu vi (e quase ouvi aquela melodia
) quando a pequena gata entrou porta dentro, ladeou a grande (era o quê? Uma pega de cernelha?), depois rodeou-a (era o quê? A decidir-se pelo papel do rabejador?), e, finalmente, foi-se a ela a todo o gás, frente-a-frente, consumando, desta forma, a pega de caras. Ooooooolé!
É claro que a outra lhe deu um sopapo, só com uma pata, com aquela sobranceria de que só um gato é capaz. E ela ficou deitada, de lado, o rabo num pompom, a rosnar (imagine-se um forcado, acabadinho de levar sopa de corno, encolhido nas areias da arena — pois é, palavras irmãs — assim estava ela);
3. Mais à noitinha, ouço o grito (pensava eu que) inconfundível de um gato a ser pisado. Fui ver. E não era o ovário. A tipa tinha-se enfiado numa prateleira, onde em tempos coube, e não conseguia desenfiar-se.
Também tem coisas muito ternurentas, escatologicamente falando. Não sei se por claustrofobia, ou por exibicionismo, não conseguiu adaptar-se à porta da caixa de areia, pelo que a retirámos. Assim, só não faz as suas necessidades a céu aberto porque a caixa ainda tem tampa, e nós ainda não vivemos ao ar livre. No entanto, trata-se de uma criança. E também de um gato: quando defeca, escava, escava, escava, com uma intensidade tal que, um destes dias, vai parar ao andar de baixo (e lá se me vão os chocolates e o champanhe no Ano Novo que o vizinho oferece). Escava, sobretudo, no canto errado, deixando as caganitas à superfície (fica giro, parecem os relvados de Lisboa, mas com areia. Ou a praia da Cruz Quebrada). Naquelas mesmas 24 horas, Dona Molly conseguiu o pleno, no momento em que fez saltar um cagalhoto porta fora, e depois andou a brincar com ele, qual bolinha, até ser apanhada, vá que não com a boca na botija, mas seguramente com o cocozinho a rolar sob as patitas.
Hoje tenho que criar blogoinimigos. Ando cansada de ser tão consensual. Tão com sensual.
A mim faz-me espécie esta casta à parte que é o pessoal que possui Smarts, aquela viatura. Vá que já não são só conduzidos por homens obesos, porque houve aí uma época em que parecia que só eles eram capazes de levar a bom porto semelhantes camiões. Assim como o meu carro é, obviamente, carro de gaja boa — é que basta lá entrar, que se fica logo A boa da estrada, nem é preciso ser-se mesmo-mesmo-boa —, o Smart era o carro do gajo gordo, uma espécie de enlatado de gordo. Mesmo que o Smart-condutor não fosse gordo, uma pessoa — designadamente, eu — via passar um Smart, e já fazia aquela ligação mental, Olha, lá vai um gordo. Homem que entrasse num Smart, engordava exponencialmente no momento em que fechava a porta daquilo.
E digo aquilo, porque o Smart não é bem um carro. Quem de nós — a não ser que tenha mesmo um Smart — num estacionamento, nunca se dirigiu a um lugar que parece vago, e Ah, afinal não!, porque está lá, enterrado nos fundilhos do buraco, uma porra de um Smart? E o que é que diz? Ah, afinal não, está lá um Smart! —, ou não é? A ver se diz a mesma coisa quando está lá um Audi ou um Mercedes Benz, benza-o Deus. Não, diz Ah [a interjeição faz parte, não há volta a dar-lhe], afinal está ocupado...
Pronto, então.
As coisas mudaram. O Smart, agora, é o carro do chico-esperto, passe a redundância. É aquela geringonça que cabe em todos os lados, de todas as maneiras, e que afirma, com sua esdrúxula forma de estacionar, Olhem para mim, sou tão maneirinho, tenho tanta arrumação. E é assim que os condutores daquela coisa, recorrentemente, a estacionam em clara (mesmo sendo de noite), gritante (até lhes ouço os brados) e punibilíssima contravenção: em perpendicular ao passeio.
Condutores daquilo, lede o artigo 48.º do Código da Estrada comigo, que sou tão assim que até vos sublinho e coloco a vermelho e grosso a parte que vos interessa.
Artigo 48.º Como devem efetuar-se
1 - Considera-se paragem a imobilização de um veículo pelo tempo estritamente necessário para a entrada ou saída de passageiros ou para breves operações de carga ou descarga, desde que o condutor esteja pronto a retomar a marcha e o faça sempre que estiver a impedir ou a dificultar a passagem de outros veículos. 2 - Considera-se estacionamento a imobilização de um veículo que não constitua paragem e que não seja motivada por circunstâncias próprias da circulação. 3 - Fora das localidades, a paragem e o estacionamento devem fazer-se fora das faixas de rodagem ou, sendo isso impossível e apenas no caso de paragem, o mais próximo possível do respetivo limite direito, paralelamente a este e no sentido da marcha. 4 - Dentro das localidades, a paragem e o estacionamento devem fazer-se nos locais especialmente destinados a esse efeito e pela forma indicada ou na faixa de rodagem, o mais próximo possível do respetivo limite direito, paralelamente a este e no sentido da marcha. 5 - Ao estacionar o veículo, o condutor deve deixar os intervalos indispensáveis à saída de outros veículos, à ocupação dos espaços vagos e ao fácil acesso aos prédios, bem como tomar as precauções indispensáveis para evitar que aquele se ponha em movimento. 6 - Quem infringir o disposto nos n.os 4 e 5 é sancionado com coima de (euro) 30 a (euro) 150.
Haveis dado com alguma excepção a esta regra, que diga "exceptuando os veículos de marca Smart, podendo estes estacionar perpendicularmente", ou "exceptuando os veículos de marca Smart, podendo estes estacionar como muito bem lhes der no coiso"? Eu não dei com nenhuma.
Por último, mas nunca em último, porque não me calarei jamais, agora temos este parque infantil em algumas superfícies, para que os Smartezinhos possam brincar todos juntos, e seus donos trocarem impressões à propos, quando os levam à trela. Pelo menos, esta medida evita que haja um Smart a cada triângulo desaproveitado dos riscos dos parques — vão todos lá para o cantinho deles, como as motas. E, aí, podem estacionar paralela ou perpendicularmente, que isso se torna tão indiferente como meter um cubo dentro de um buraco quadrado — tanto faz se vai com uma face para cima ou com qualquer das outras, que entra sempre.