03/02/2017

Eu tenho problemas com médicos # 22

Cada vez que, como hoje, tenho os olhos raiados de vermelho, lembro-me das palavras do oftalmologista, quando lhe perguntei a razão para o fenómeno, e ele me respondeu que sim, que se trata de um fenómeno, mas alérgico. Perguntei-lhe, então, Alergia a quê?, e mereci apenas a seguinte resposta:


Cada vez que, como hoje, tenho os olhos raiados de vermelho, e alguém me pergunta a que se deve o fenómeno, respondo, exactamente, que se trata de um fenómeno, mas alérgico. Quando vem a pergunta seguinte — que vem sempre —, Alergia a quê?, respondo apenas o que sei:

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02/02/2017

Na blogosfera como na vida


Entrei na 5.ª dimensão e saí no 5.º andar

Parque de estacionamento do Edifício Castil.
Digamos que entrei e desci uma rampa. Lá em baixo, dizia completo, logo depois livre e eu avancei, fermosa e sigura. Pensei que tinha chegado ao piso -1, mas apercebi-me que tinha antes entrado numa mina, tipo da Panasqueira, escura, fria e crua. (Não que alguma vez lá tenha estado, mas há coisas que uma pessoa intui, mesmo sem aquela da experimentação.) Os corredores eram estreitos e em curva. Segui as setas em busca de um lugar vago, mas os únicos eram destinados a tudo menos a mim. Como em todas as catacumbas e pesadelos, havia dois homenzinhos a limpar carros com um trapo, e um deles gritou-me: "Lává o cárrinho, sinhóra?". Eu fugi, lá aplicar sufixos diminutivos à mãezinha. Dei mais uma volta àquilo, ainda esperançada, por ver passar pessoas com a chave na mão, mas agora, a esta distância, tudo me leva a crer que se tratava antes da chave de alguma passagem secreta, pois as pessoas desapareciam e nenhuma delas tirou o carro enquanto ali andei às apalpadelas. Consequentemente, não encontrei qualquer lugar onde coubesse o verdadeiro autotanque que é o meu boi, e vai de descer para o piso seguinte. A rampa para o fazer parecia uma descida da montanha russa: com uns 30º de inclinação (não sei ao certo, que não fui buscar o transferidor, mas era muito e deu-me vertigens), a direito (sim, dá para acelerar, levantar voo e ir estoirar contra a parede, nas calmas), tendo, de um lado, parede, e, do outro, grade de varanda. Desci assim devagarinho, pé ante pé, ai-ai-ai-que-eu-caio, e é quando me apercebo que atingi o piso 3. Não li mal, não era -3, era o 3, sendo que, pelos vistos, eu tinha vindo do 4, que também não era -4. Que giro, um prédio de pernas para o ar. Ou de cabeça para baixo. No piso 3 repetiu-se a cena da procura em vão por buraco, com a única nuance de ali não haver homenzinhos a gritar comigo. Tomei a resolução de descer para o seguinte, fosse lá qual fosse o número do patamar da mina. Sai-me, então, outra rampa daquelas, que desci com a mesma desconfiança e tenebrosidade da anterior. Lá em baixo, a iniciar a subida, deparo-me com outro carro, faço mil sinais ao condutor de que se encontra em contramão, mas ele ignora-me. Tal não me causa qualquer espanto, tendo em conta que se trata do Dr. Emmett Brown, ou de um clone dele. Antes que o carro dele disparasse em flamas em direcção ao futuro, manobrei avidamente de forma a deixá-lo exercer a sua prioridade de quem sobe, e fui estacionar arrumar o carro, com vista a facilitar a manobra ao outro condutor* no lugar destinado a deficientes, que foi muito bem rasgado ali assim naquele sítio: ao fundo da rampa, em paralelo com ela, o que significa que uma pessoa com mobilidade reduzida ainda tem que manobrar mais do que outra sem a mesma redução. Foi nesse piso, que afinal era o 2 (e, insisto, não o -2) que consegui um inacreditável lugar, que me obrigou a potrilhas várias para conseguir sair do carro. E era o lugar 136. Faz todo o sentido. Piso 2, lugar 136.


Depois meti-me no elevador e saí para a rua. Que fica no piso 5.
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* texto corrigido, com vista a, desta vez, facilitar a compreensão do mesmo.


01/02/2017

fita branca

Entra-me no silêncio do quarto e aninha-se no meu descanso, toda ela.
(Lembro-me da revolução que operou dentro da minha barriga, das cambalhotas e espreguiçadelas que já adivinhavam grande atleta.)
O cabelo, lindo e brilhante, cada vez mais liso.
(E tinha uma cabeleira encaracolada que era uma festa de alegria e movimento, quando começaram as cambalhotas cá fora.)
O perfil que a desenha perfeita.
(A primeira vez que lhe vi o perfil, tinha quatro meses de gestação, e pensei perfeita.)
Diz-me que vai comprar as fitas de finalista. 
(Não percebo como é que ontem estava cá dentro e hoje já compra fitas de finalista.)
Esclarece-me que as brancas são para as pessoas mais importantes.
Tu vais ter uma branca.
E eu surpresa, lisonjeada, agradecida (também à vida).
Também vou comprar uma branca para os pais da Carolina. 
Cai-me aquilo como um mergulho inesperado em águas fundas e escuras e geladas, logo feitas lago translúcido.
A Carolina? Referes-te à Carolina?
A Carolina morreu no final do primeiro ano do curso. Filha única, deixou pais órfãos, pais únicos. 
Sim, mãe, ela também acabava o curso este ano e os pais não têm nenhuma fita branca para assinar.

[Perfeita.]