18/07/2023

zzzzzzzz

Tenho sono. Durmo como uma criança toda a noite, mas basta que me forneçam algo de muito aborrecido ou interessante, que preciso de dormir como se tivesse muita vontade de fazer chichi. É que nem sou esquisita, não necessito de um colchão galáctico nem de almofada ergonómica, nem de silêncio, nem de luz rebatida. Até um chão de pedra fria me serve. Quero dormir.

Claro que ando a pastilhar como gente grande. Só para a tola, tenho duas terapeutas. Ontem estive com as duas, a primeira reprovou simpaticamente uma atitude/ decisão minha e só não me mandou lá voltar para a semana porque vai de férias. A segunda aplaudiu a mesmíssima reacção que tive e mandou-me lá voltar daqui a dois meses. Desconheço os critérios. Procurei fazer a mesma cara, usar o mesmo timbre, a luz que me iluminava era praticamente a mesma. No entanto, as sentenças de uma e da outra foram diametralmente opostas. Bem me queria parecer que um dia ia pirar de vez, só nunca pensei que fosse tão jovem (chiu, já disse) nem por este motivo. (Até parece que há uma lista taxativa de razões. Se é para emaluqueceres, emaluqueces e prontos.)

Hoje sou acompanhante de cirurgiado. Pedi para ficar à espera no quarto, mas negaram-me a excelente ideia. Ao invés, vou ficar sentada numa poltrona de dois lugares semi-(des)confortável, mas não quero abandoná-la, não vá alguém tomar-ma: tenho uma ficha mesmo ao lado para carregar o telemóvel — cuja bateria consumo como tremoços, à custa de um jogo — e também a casa-de-banho. De toda a maneira, nem que se me arrebente a bexiga, não tenciono arredar daqui. Dói-me um bocado o final das costas, mas vou aguentar. Tenho um espírito de sacrifício inigualável, creio mesmo que só não serei canonizada porque já matei um gato e um melro com o carro, inadvertidamente. 

Quem olhar para mim neste momento, nunca dirá que aqui se encontra uma aflitinha por satisfazer quase todas as necessidades fisiológicas: vestidinho que cai sempre bem (também não engordei nada, apesar da criminosa doçaria que tenho consumido. Ou os nossos espelhos mentem-nos, “És tu, minha rainha”), sandalinha de salto alto, que me põe vertiginosamente (porque tenho vertigens) alta e me faz esquecer que, afinal, não tenho 1,68 metros, mas sim 1,65. Não encolhi, acontece que aí pelos vinte anos bati a pestana ao funcionário do centro de identificação, “Não me desconte os saltos” e ele ofereceu-me três centímetros, para além dos ditos, e aos seguintes foi só dizer: “Ponha lá a mesma altura, eu não mirrei entretanto”. Eis a verdade.

Parece-me que vou deitar-me na poltrona, como aqueles passageiros das low cost e dos aeroportos com vendavais.


01/07/2023

Nunca subestimes

Atrás de mim, um estrondo metálico, que me fez virar, constatando que um rapazinho tinha batido com a bicicleta no passeio, embora ainda estivesse em pé quando o vi. Começou a gritar uns gritos de dor lancinante, mas dizia-me a subestima que era “mais um puto do bairro que se estoirou de bicicleta”. Porém, o tom, o volume e, sobretudo, a aflição dos gritos, fizeram-me questionar “E se…?”, e despertar em mim a tal bombeira, que tudo acode, que prefere arriscar perder um minuto a roer-se de remorsos para o resto da vida. Os carros passavam por ele, abrandavam e seguiam, eu estava a uns trinta metros e corri para ele, vi-o pálido como uma mortalha, verifiquei que não tinha nada fracturado, umas feridas sem importância no joelho e na mão, agarrei-lhe os dois pés, “Tu estás a desmaiar, dá-me os teus pés”, ele já calado a fazer que sim com a cabeça. Entretanto, chegou gente que palpitou bastante e a mim fez-se-me aquela luz “Mas eu conheço-te!”, pedi aos opinativos que não o deixassem mexer dali, corri outra vez, mas desta na direcção da casa dele, chamei os pais pelo interfone e depois, quando voltei, já alguém da pequena multidão chamara o INEM. 

Lembro-me da carinha dele, a entrar na ambulância, um breve sorriso a piscar-me os dois olhos. Foram dez semanas mais um dia, de melhora, piora, cirurgias, tratamentos, esperanças, desânimo: pâncreas esmagado, hemorragias várias, líquido num pulmão. Na queda, bateu de frente e depois caiu em cima do topo de um dos pinos de ferro que separam a ciclovia do passeio.

Fui vê-lo no dia seguinte a ter chegado a casa. Menos doze quilos, aos quinze anos representa vinte por cento do peso total. Demos um abraço muito demorado, ralhei-lhe baixinho ao ouvido “Que susto, meu menino, nunca mais nos faças isto. E agora alimenta-te para ficares fortezinho”, enquanto lhe acariciava o cabelo e lhe dava um beijo no que sobrou da bochecha. Ele tinha na cara aquele mesmo sorriso de quando entrou na ambulância, serei para sempre a primeira pessoa que o acudiu na enorme dor. Só porque não subestimei.


21/06/2023

Quem não sabe o que dizer | Quem devia ficar calado

Caminhava eu a passos estreitos pela ladeira, rodeada de arbustos e flores exageradamente aromáticas — madressilvas, lavanda —, quando ela se cruza no meu caminho e me prega o susto do dia: conheço-a há décadas, mas não me lembro do nome dela. Já era, ao tempo do início da primária da minha primogénita, e ainda é, auxiliar. Agora tem um nome mais pomposo, tipo hospedeira de solo infantil, ou técnica superior de pim-pam-pum, mas não me lembro de qual é. Acho-a sempre igual, só muda a cor do pêlo — cabelos, sobrancelhas e pestanas branco-branco, aquele da neve e da cal. Abre-me os braços, muito espalhafatosa — sempre me deu a ideia de que ia desatar a cantar o fado a todo o momento, aquela inclinação da cabecita para trás enquanto fala dois tons acima do necessário, é algo sugestiva —, prega-me dois beijos, pergunta pelos meus e queixa-se que não me vê há muito tempo. Digo-lhe porquê sem entrar em pormenores sórdidos — o de ter arranjado caminhos alternativos no bairro para que ninguém me visse, por exemplo —, e então ela sai-se com esta:

- A [Linda Blue], sempre aquela fortaleza, um dia foi-se abaixo. — E nisto, aquele gesto polegar-indicador, que percorre da cabeça à pança.

Devo ter ficado tão atónita, que ela repetiu, agora com mais ênfase:

- A [Linda Blue], sempre aquela fortaleza, um dia foi-se abaixo. — Juro que a vi empunhar um par de bandarilhas, que me enterrou no cachaço e até gritou “Olé!”, a bater os pezinhos no chão.

Lá acabei de subir a ladeira, sangrando do pescoço e rindo não sei de quem, se dela, se de mim, que nunca na minha vida fui uma fortaleza, nem nunca me fui abaixo. Acontece que adoeci. Sei que vou deparar-me com estas pessoas para o resto da vida. Quando menos esperar. Quando estiver, como estou, cada vez mais forte. Não tenho vergonha de dizer que à custa de muita terapia.

Balas perdidas? Apanho-as com a palma da mão. Não me atingem a cabeça, enterro-as com um pé.



13/06/2023

Ricardo

Uma febre que não cedia há oito dias, acompanhada de outros prazeres semelhantes, levou-me ao hospital, consulta de urgência de oncologia. Fui atendida por uma médica que era de uma exímia antipatia, tendo começado a esgrimir argumentos de que eu deveria ter aposta a máscara, uma vez que tinha uma infecção respiratória — que ela deve ter cheirado no ar, pois não era isso que me levava ali —, ao que respondi: “Não tenho dores no peito, dificuldade em respirar, tosse, ranho e espirros”. Mas a teimosa insistiu que eu não podia andar a atravessar um corredor cheio de doentes a fazer quimioterapia sem a máscara — ela pode, porque o diploma lhe conferiu uma assépsia jamais discutível — e, assim, a consulta decorreu entre uma pessoa que claramente devia dedicar-se à silvicultura e um pato de bico verde.
Havia um grande alarido no corredor, que se estendia às salas de espera e à sala de tratamentos, cujo denominador comum era “Ricardo”. Eu já vira, de costas, numa cadeira de rodas, menos cabelo ainda, alguém que me pareceu ser o meu menino aflito daquela vez, a quem menti com os olhos, dizendo-lhe que todos saímos disto. Andava uma rapariga a correr de um lado para o outro, agora é preciso um papel, agora o carimbo é lá ao fundo, e ela incansável, “Eu sou a irmã do Ricardo”. Desta vez, o corpo da mãe ia numa derrota, a cabeça caída para um lado, os dois braços a crescerem até ao chão. Pareceu-me que, mais uns dias, e aqueles dois braços se abririam em cruz e assim ficariam para sempre.
A meio da consulta, uma enfermeira foi lembrar a médica que me atendia de que o Ricardo estava lá fora à espera de vez. Pedrada da bruta, mas extremamente esclarecedora: “Pois, trazem-nos dos paliativos…”
Saí do gabinete e encarei imediatamente com o Ricardo. Os olhos dele, desta vez, não pousaram nos meus: cravaram-se. Os meus dizendo “Menti-te. Fossem quais fossem os meus motivos, menti-te”. Ouvi-lhe um ronco, os olhos: “Mentiste. Já não vou ver-te com o cabelo comprido”.