20/05/2026

Drama Fiction

António, ando há que tempos à tua procura e não estás em lado nenhum, parece que sumiste do radar como a mosca que nos atormenta o juízo nas tardes de Verão, às voltas, às voltas, nós na sombra, só à espera que ela pouse para lhe darmos uma jornalada, não é nada, isso era a minha avó, coitada, sofria das pernas e dizia estes bichos consomem-me, vê tu bem que desde muito miúda percebi que era uma consumição de espírito, não me parecia nada que as moscas fossem comer as pernas a abarrotar linfa da minha avó, coitada. A mim suspeita-me é que tu te transfiguraste numa delas, fazes voos rasantes pela casa, vejo-te passar sem te ver, de uma parede à outra, zim, zim, desde aquele dia em que me disseste, ao fim de rogos e súplicas gastos pelo tempo envolvi-me com outra mulher, como se fosses claras em castelo a envolverem-se numa massa para bolo, por mais anos que viva, nunca me vou esquecer, parece que ainda te estou a ver, a boca muito seca, os lábios a colarem-se um ao outro, mais dois segundos de pausa e desidratavas em pó pelo chão, mais valia ter esperado, mas tive tanta pena de mim que, em vez de te esticar o braço com o dedo apontado na direcção da porta, ordenando-te "Rua!", como fez a tua amiga na crónica em que descreveste que as mulheres têm fios desligados, em vez disso, caí-te nos braços num pranto sem fim, não me digas isso, não me digas isso, só a ver se negavas, apaziguavas, destorcias as mentiras com mais mentiras, no entanto não, chorei, contei eu, cinco horas seguidas, fora as outras intermitentes, ainda bem que os meus pais não viveram para assistir àquilo, morriam outra vez, de vergonha de ti e compaixão de mim, tu nem um copo de água, um lencinho, uma mão na minha, um abraço daqueles sem vontade, nada — outro dia vi uma rapariguinha na rua a chorar e dirigi-me a ela, precisas de ajuda, querida? —, só sobranceria, só amor-próprio e por essa massa pegajosa com que te envolveste, no dia seguinte estava doente, nas quatro semanas que se seguiram estive doente, era a garganta, os olhos em pneus, eram dores por todo o lado, doíam-me músculos novos, nunca imaginei tê-los, parece que ainda estou doente, principalmente quando estou com pessoas, tenho a sensação de que mudei de planeta, todas esquisitas a falarem, eu esquisita a não ouvir, a esquecer o que disseram, a não entender, e lá andas tu de vez em quando zim, zim, já abri as janelas todas e vou comprar um jornal, caso se dê o caso de não encontrares a saída a bem.