03/12/2015

Pensamento escatológico do dia # 14

São imagens que a pessoa enfrenta, ainda antes das 9 da manhã.
Isto foi um cagadócio aventado às malvas. Com amor. 

02/12/2015

Pára-choques

Desesperada por um lugar à sombra, que rapidamente havia de se tornar penumbra, e logo breu, e tendo avistado um buraco que me pareceu quase exactamente aquilo que pretendia, vai de pisca para a esquerda — pois que ficava do lado esquerdo da via, esse mesmo onde dantes era proibido estacionar, mas que a EMEL recriou em espaços úteis e explora até ao tutano — e de iniciar a manobra. Já tinha o boi todo atravessado em diagonal perfeita com a via, fazendo um vértice com o passeio que dava gosto, quando me apercebi da redonda asneira que havia irremediavelmente iniciado — e não mais redonda por força da rectangularidade do espaço que pretendia ocupar, e também da viatura —, e ainda, não só da pequenez do putativo lugar, como também do meu esdrúxulo cálculo, que ainda agora não sei qual era o mais tacanho dos dois. 
Lembrei-me então da verdadeira acepção da dupla palavra pára-choques. 
Encosta ao de trás, encosta ao da frente, toca atrás, toca à frente, bate atrás, bate à frente, e pumba!, boi estacionado. Custou bastante, nomeadamente porque, agora que se chega o frio, a pessoa vai encasacada e com ele todo abotoadinho, depois tem a mania de comprar o S, para fazer que é magra, acaba que se vê nas amarelas para se mexer durante as manobras. Mas ela aconteceu, e ficámos os três carros sem um risco, quanto mais uma mossa. 
É certo, e isso reconheço, que ficámos a uma distância do passeio que dava para aninhar ali outro boi, ou, quem sabe, uma mota de cilindrada boa, o que levou a que ocupámos, um nico a mais do que o necessário, a estrada. Mas a pressa era inimiga da perfeição, naquele momento, pelo que ficou mesmo como estava, durante todo o tempo que durou a minha dolorosa ausência.
Por acaso pensei que, quando voltasse, um dos dois outros já teria saído do lugar onde estava, e que me facilitaria a manobra de saída a mim. Se assim pensei, assim não fizeram eles, pelo que foi praticamente tão extremamente difícil retirá-lo como colocá-lo havia sido. 
Encosta ao de trás, encosta ao da frente, toca atrás, toca à frente, bate atrás, bate à frente, e pumba!, boi batido em retirada.
(Acho que os três carros sem um risco, quanto mais uma mossa.)


01/12/2015

Nem Renoir nem Monet pintaram um quadro tão bonito como o meu # 2

Só ela.

As minhas Mulherzinhas, retratadas por uma delas.
(A mesma que fez o header da Porca.)


Robin

Ela fez voluntariado no Banco Alimentar, distribuindo sacos, à porta do supermercado. Os sacos deixaram de ser de plástico, talvez não por uma questão ecológica, mas sim por uma questão lógica: provavelmente, a muitos serviriam para carregar as suas compras. Tal fenómeno verificou-se nos anos anteriores, já para não contar com os sacos aceites à entrada, e logo abandonados, vazios, nas prateleiras. Mais valia dizerem que não queriam receber e depois dar. A nossa pobreza nunca pode chegar ao extremo de ser envergonhada. E a do espírito até costuma ser orgulhosa, daí que seja incompreensível que se forje uma colaboração que já se sabe que não se vai fazer acontecer. 

Imagem retirada da net
Ainda assim, viu pessoas a sair do supermercado com as suas compras arrumadas nos sacos de papel, vazios de comiseração e solidariedade, cheios de soberba e automimos. Ceias fartas, aquelas.
Também ouviu da boca de quem não aceitou o saco, Vão mas é trabalhar! — exclamado num desabafo de absoluta miséria humana, inaceitável, porém incontestável, porém inqualificável. 
E viu um rapaz, sujo e desgrenhado, de robe preso à cintura, sair do supermercado sem saco do Banco Alimentar na mão (provavelmente, escapou à entrega), mas dois sacos grandes de frutos secos entre as mangas, que passou no cesto de recolha, parou, olhou com os olhos, retirou um terceiro saco de frutos secos do bolso do robe e depositou-o, com a delicadeza e entrega que, com toda a probabilidade, poucas pessoas empregam, no momento em que lhe dão a ele uma moeda [Ah, é para a droga].