11/11/2015

A insustentável leveza de ser*

eu.

Ultimamente, pergunto-me demasiadas vezes o que será que será no dia em que me esqueça de mim, de vez, outra vez, mais ainda, e, num momento quase imediato, me esqueça de me ser. Quando todas as minhas falhas submersas emergirem do mar das minhas contradições. Quando olhar e olharem para mim e já não estar eu, mas esta outra que aqui anda, desfeita da luz que se fundiu naquele dia que não tem lugar no calendário. Quando tiver varrido da memória a tormenta, e depois a bonança, e nem dos funerais ser capaz de me lembrar, quanto mais dos nascimentos. Sabes, esqueci-me de um funeral ontem. Ou seria hoje? Não devia ser importante, ninguém vai sentir que eu não estou lá. Mesmo que eu fosse. 
Mesmo que eu fosse.

Tell me honestly, will you still love me the same?**

* título adaptado da obra de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.
** frase adaptada da música de R. City, Locked Away (Tell me honestly, would you still love me the same?)



10/11/2015

Do ponto de vista puramente político,

não posso deixar de pensar, cada vez que olho para a Mariana Mortágua, se ela não será a actriz Cristina Oliveira, clonada de fresco. E estou sempre a vê-la numa novela chamada Palavras Cruzadas.



Manhã sangrenta

Um tudo-nada influenciada pela Me — sou uma fácil, imaginem se ela tivesse mandado os parvinhos e malucos dos comentadores dos outros blogues cagar à mata —, e um quase-tudo por este sms, 


fui dar 470 mililitros de meu precioso e raro sangue, que, contrariamente ao que tudo indica, é vermelho. 
Eu acho que ia nervosa. Atormenta-me a perspectiva de chumbar na hemoglobina e ter que me sujeitar à dieta da beterraba até todas as minhas secreções e excrementos (como se eu fizesse uma coisa dessas) saírem rosa-cerise. Quando recebi o consentimento da médica para dar, pareceu-me aquilo uma sentença absolutória, um alvará, uma guia de marcha, uma carta de alforria, um aval, um indulto presidencial, ou um perdão papal. Fiquei tão contente que saí pelo corredor a ensaiar uns discretos passinhos de dança, mas uma coisa muito Singing in the rain, nada de varão nem table, ou seja, nada que despoletasse a situação que ocorreu logo de seguida, que foi o técnico de recolha, certamente convencido que daria um bom par para o meu sapateado, ter-me agarrado no braço e não mais o ter largado. Espetou-lhe o agulhão, sanguessugou-mo até ao limite do possível, e iniciou uma daquelas conversas do género — disse-me que hoje é o dia da bolota. Eu ainda ripostei que os porcos é que gostam disso, mas ele falou-me das outras bolotas, olha o drÓgado. A máquina chiava exactamente como um porco, em sinal de que se estava a engasgar com o meu fluido, pelo que ele me deu uma bola de esponja rija para a mão, para que a apertasse. Esse foi o momento mais erótico da minha dádiva de hoje. Ora, eu tinha na outra o telemóvel, para vos ir respondendo na medida de todos os meus impossíveis, porque eu sou isto: dou-me. Mas também sou um nico descoordenada, e não há nada que possa resolver este bocado de mim. E foi giro ter apertado o telemóvel, enquanto olhava para a bolinha, a ver se ela me mandava alguma mensagem.
Bom. 
O técnico já me tinha metido o adesivo e ainda estava a carregar-me na veia, como se eu não tivesse a outra manita para o fazer (ou terá achado que eu ia trocar as mãos outra vez?). Houve mesmo necessidade de lhe pedir que me deslargasse o braço, tamanha era a persistência e aparente infinitude com que o fazia. Mas agora reconheço que me soltei da mão dele cedo demais, porque fiquei tonta. Algum predicado o homem devia ter que eu não soube reconhecer.
À saída (que também é a entrada), vi este cartaz. Não consegui perceber qual é o Dia Mundial do Dador. Tenho que ir ver à netty.

Não percebo nada de poesia
Quanto a vocês, embora não sejam parvinhos e malucos dos comentadores dos outros blogues, e parafraseando a Me, Opa, ide masé dar sangue!

1.º post nataleiro 2015

Aos quinze anos, a coisa funciona assim. Têm-se uns rasgos. Tendo também irmãs, elas chamam-lhes (ternamente?) "ataques de Miss Universo".
- Já sei o que é que quero pedir para o Natal, este ano. — disse ele. 
A pessoa, atenta, porém expectante — nunca se sabe o que pode de lá vir e, à cautela, o melhor é ir buscar a máscara anti-bomba e o martelo pilão para partir o porco —, pergunta, já com voz de falsete, à nora (e à sogra, à cunhada, a todas as afins possíveis do catálogo):
- O que é, filho?
- Este ano, quero paz para o mundo.
[Ah, ok, eu também já tive quinze anos. É verdade, era isso, era não ter borbulhas em dia de festa e que eleaquele... — gostasse de mim.]
A pessoa, imbuída de um bocadinho do espírito, lembra-se, então, de proferir um desejo também, já agora:
- Eu também já sei o que é que quero para o Natal, este ano: que tu conserves esse teu desejo e não me peças mais nada. 
Vá, a minha história agora acabava e até estava perfeitinha. Tinha alguma piada, ao nível das anedotas das Selecções do RD, mas era a possível, drivados da hora descafeinada a que a relato. Só que a vida real é muito mais crua e dura, como aquelas carnes corridas em arena da praça. E diz-me ele assim para mim, naturalmente reconsiderado que estava do seu "ataque de miss":
- Também quero uns óculos especiais para jogar Playstation, para não me doerem os olhos. 
[E um pau de marmeleiro no Papá Natal que te traga isso, e depois é vê-lo sair de pernas entre o rabo, os pés lá dentro e tudo, uma coisa assim muito gráfica, para iniciar as hostes nataleiras. — foi o que a pessoa humana pensou, porque o Pai Natal me acirra o instinto. Mas agora já passou. Daqui a menos de um mês há mais.]