24/09/2024

O vidro desceu, o lodo escorregou, a terra tremeu, a mulher correu e não ganhou nenhuma medalha. Tem sempre que brigar com um espanhol, também

Este ano já fiz muitas férias, mas assim uma semana de cada vez. Será a vantagem de ser dona do meu (extremamente belo e bem feito, obrigada mãe, obrigada pai, aquilo na Av. Roma correu bem) (eu fui concebida na Av. Roma, n.º 40) nariz: ganha-se malíssimo, quase não dá para os alfinetes (cinco euros uma caixinha com uns vinte), mas faço a mala e ponho-me na alheta (destino de sonho) em menos de um fósforo. 

Fiz Marbella, fiz o Açor, fiz Islantilla e ainda vou estender as peles para o Algarve para a semana. Entretanto, ainda tenho um casamento lá onde a nação foi fundada. Ninguém merece, fazer no mesmo dia como passageira uma viagem de quatrocentos quilómetros e depois pegar na roda, já como condutora, e marchar para o sul, mais uns trezentos. Mas tudo pelo bem de mim. Mas alguém ainda casa? Não percebo a cena destes dois. No casamento dos pais do noivo, apanhei uma caganeira intoxicação alimentar que me meteu na cama por uma semana em plena época de exames, só a gregoriar, parecia o canto gregoriano, mas em bolçado. 

Islantilla foi giro. Não houve nada que não nos tivesse acontecido. No final da viagem, um dos vidros de trás do carro abriu e já não fechou. Eu fui, durante quinze quilómetros, a rebentar os tímpanos e a agarrar o cabelo, parecia que íamos num cabriolet. Não houve truque nem traque que movesse a m. do vidro. Ainda meti a manita naquele buraco de onde ele sai, mas só consegui fazer entrar até ao início dos dedos e não o alcancei nem com as unhas. Desistimos e fomos para a praia, deixando o carro num parque exterior. À noite, deu-me uma epifania e resolvi que devíamos tentar uma última vez algo que já havíamos tentado: motor ligado e carregar no botão da própria porta. Muito impante e cheia de mim, disse a cônjuge: "Liga o motor". E assim o vidro subiu. Senti por instantes que faço falta neste mundo. 

No dia seguinte, de novo na praia, entrámos no mar e começámos imediatamente a escorregar, como se tivéssemos uma pista de gelo debaixo dos pés, o que nos pareceu impossível. Agarrámos os ombros um do outro e começámos a rodar e a gritar: "Agarra-te!", "Agarra-me!", "Não te deixes cair, senão eu também caio!", até que, depois de uma figura viralizável em qualquer rede, saímos dali, mas cônjuge batera com o pé numa pedra (ainda bem que não caímos, caso contrário era com a minha cabeça que a pedra vinha ter) e sangrava. Dirigiu-se ao Salvador, que era um petiz para aí com dezoito anos e que, muito divertido, lhe contou que, só naquela manhã, já tinha feito seis pensos. Parece que em Espanha não há bandeirolas para delimitar zonas perigosas, põem uma criança a colar pensos nas pessoas crescidas e já está. 

Entrementes, a Terra tremeu. Era de noite, a pessoa soube imediatamente o que estava a dar-se. Disse a cônjuge, que dormia placidamente e que duvidou da minha palavra até que lhe perguntei por que raios tremia a cama, "Ah, pois é". [Suspiro profundo.]

Fomos três vezes ao ginásio e nenhuma ao spa. O máximo que corri foram dois quilómetros e não sei como não saí dali em ombros, dado que exerci um esforço demasiado tremendo. 

Para não variar, briguei com um espanhol, que, ao contrário do outro (que tinha toda a razão), tinha metade da razão. Mas nem vou contar, que isto já vai longo e eu quero almoçar. 




Descreve o teu estado de espírito ou de alma ou de fantasma, tanto faz

Ando um bocado embezerrada comigo mesma: outro dia, porque o telefonito me alertou de estar enfartado, resolvi dar-lhe espaço, como em qualquer relação saudável, e comecei pelos emails. Cliquei aleatoriamente num daqueles que toda a gente recebe, talvez Perfumes e Companhia ou outra vaidosice qualquer, onde nunca entro, dizia lá duzentos e eu vai de apagar tudo. E assim fiz com todos os que eram Temu e outras chinesices, aquilo foi apagar até me doerem os dedos, e depois, não contente com o feito, ainda fui à caixa dos apagados — que eu acho que ocupa imenso espaço, quanto mais não seja sideral — e apaguei como uma bombeira desvairada. Pum. Foi quando percebi que tinha apagado os mails dos últimos dois anos. Todos, de todas as contas: desta, do profissional, do hobby e a do de pessoa normal. O que mais me custa? A troca de mails com as minhas bloggers mais queridas, de que nem cinzas restaram, ao menos para que tentasse reconstruir este passado que, apesar de constituir os anos mais aflitos da minha vida, foi e está a ser também uma fase muito feliz. Não sou bipolar, meu povo, sou apenas a pessoa mais normal que conheço (no que a minha terapeuta concorda, portanto tenho declaração carimbada). Ter terapeuta não faz de mim anormal, simplesmente preciso, como uma perna partida precisa de ortopedista. E eu fiquei um bocado confusa quando soube que estava a correr para as portas da morte, com pensamentos do género e por esta ordem: "Ainda bem que não foi com nenhum deles"; "Que maçada, nunca poderei dar medula à minha irmã, se ela precisar"; "Que aborrecimento, nunca mais poderei dar sangue". Sou um poço, um vulcão, uma cratera de abnegação. 



07/09/2024

Ela já não fala tanto (e que Deus a conserve assim, como um pickle, muitos anos e bons)

Não sei por que diachos fui embora deste modesto espacinho e não voltei mais cedo, mas acredito piamente que hoje para aqui ando, cheia de entusiasmo a bater as teclas do meu ruidoso teclado, e sou bem fulana para me evadir e só voltar daqui a dois meses, quando tiver assunto. Não que hoje o tenha, mas preciso prementemente de registar aqui dois ou três factos da minha existência. 

Há aqui um que vai, com certeza, deslocar-me placidamente para a categoria das elitistas classistas, mas, já em minha defesa antes que venha de lá a primeira pedra, tenho a dizer que eu sou a entidade empregadora nesta relação. 

A que falava muito calou-se para sempre, isto há coisa de cerca de um mês e meio, daí que já não espere que a voz lhe regresse. Deu-se que esteve de férias duas semanas e, no dia anterior a proceder a sua rentrée, à noitinha, então não é que me manda uma mensagem a dizer-se doente há muitos dias e que não poderia trabalhar nos dias seguintes? Saltou-me logo a mola, que está sempre mal apertada, e respondi-lhe que estava farta das semanas inteiras de férias que a pessoa fazia, com prejuízo do meu trabalho, do meu descanso e, sem querer pôr um peso pesado na argumentação — que não pus —, já para não falar na minha saúde. Madame Dona Senhora ainda me devia, e deve, dois dias de trabalho, que me pediu para tratar de uns assuntos, que eu lhe concedi imediatamente sem questões (não fosse ela desatar a língua e eu, sim, ter que meter baixa enquanto entidade patronal, pois, como se sabe, ela seca-me até eu ficar em modo esqueleto), ela a insistir para tratar de uns assuntos e eu calada que nem um rato, já me cheirava a gato por todos os lados ["Queres ver que esta me vai pôr a trabalhar de graça para ela, para além de lhe fornecer duas abébias seguidas?"], nunca soube que raios de assuntos queria tratar ela, pois normalmente são rixas de bairro e eu já dei para esse peditório. Aproveitei e consultei o mapa de férias dela, ilegalíssimo porque eu não sou tida nem achada na escolha dos dias, e descobri para lá uma semana em Novembro, inteirinha, em que me iria faltar porque faz anos nessa sexta-feira. ["Ai, que maçada, tenho ao meu serviço há vinte e sete anos a rainha de Inglaterra e só hoje é que descubro? Naturalmente que Sua Majestade Venerandíssima precisa de uma semana para comemorar os seus cinquenta anos!"] Bumba, foi a talhe de foice, cortei a segunda e a terça dessa semana, para que me devolvesse então os dois dias que usou para tratar de assuntos.

Então não querem saber que Votre Majestée anda amuada comigo desde aí? E como é que eu sei? Fácil: entra de manhã, zurra "Bom dia", não responde a nada do que lhe digo, às minhas perguntas vai um "sim" ou um "não", no máximo, e suspira. E tosse. Constantemente. Quando não é uma, é outra. Mas eu tusso mais alto, literalmente: efeito secundário de uma droga com que me drogo. Mas ninguém a bate a suspirar. "Ai" quando eu passo, "haaai" quando pousa roupa passada em cima das camas (tem que se inclinar, compreendo que é chato), "haah" quando tira um tacho do armário, toda uma série de espasmos que já ponderei seguir-lhe os passos, para ver se comigo também resulta assim. 

Não é com vinagre que se apanham moscas, lá dizia o dono da "Dum-dum". E eu sou uma mosca. Chorem-me, expliquem-me o que lhes vai na dorida alma, solucem-me, funguem-se-me dos narizes, escrevam-me uma carta que me faça largar uma lágrima e cinco gargalhadas, que me levam até ao raio que já me partiu. Agora bezerras? Amuanços? Nem noto. Ando numa alegria que a endoidece. Trabalho mais e melhor, saio de casa sem alguém me perseguir até ao elevador com seus assuntos de m., já não tenho que saber quantos filhos tem cada irmã das dela e saber os nomes e datas de nascimento deles de cor (nunca consegui decorar, sei que há um Daniel e uma Daniela, mas depois é todo um sortido de Igores que uma pessoa rebolava os olhos e arredondava a saia de cada vez que ela se especava porque eu desacertava as Soraias com os Telmos). 

Chiu. O silêncio é de ouro. 


23/07/2024

Fui a um Açor

Não posso afirmar que fui aos Açores, porque aterrei numa ilha só, a Terceira, cujo nome revela inequivocamente que os nossos navegantes já sabiam contar até três. Com aquele pavor que me assiste quando a ideia é voar, pedi socorro a uma das médicas que me atura e ela recomendou dois xanaxes quando fosse para o aeroporto e outros dois quando fosse para o avião. Assim fiz, e não posso dizer que tenha corrido mal, pelo menos não tive que sacar do saco de papel para hiperventilar lá para dentro. O comissário explicou as regras de segurança caso aquilo caísse aterrasse mal, braços para os lados, braços para trás, braços para a frente, toda uma dança que me deu vontade de lhe ensinar uns passitos básicos de latinas, mas os xanaxes mantiveram-me colada à cadeira, que parecia que tinha utilizado Araldite na raba. De qualquer modo, tinha à frente as instruções do que deveria fazer caso o engenho desse em capotar, e não tinham nada a ver com o que ele estava a dizer: havia uma rampa insuflável a sair da porta e a acabar não sei aonde (no mar?), para uma pessoa se atirar, descalça, qual aquaparque. Não percebi por que é que não é obrigatório irmos todos de fato de banho por baixo das vestes, pois pode ser muito útil. Soube também que, à altitude a que uma pessoa chega dentro daquilo, se atingem temperaturas negativas ao nível do Ártico, o que me levou a lamentar mentalmente que não existisse, na composição do kit de segurança, um para-quedas, um blusão quentinho e umas luvas grossas. Era o mínimo, embora saiba que chegaria cá abaixo com a boca cheia de cieiro até ao nariz. 

Aquilo levantou logo voo, não fez como antigamente, que dava uma voltinha pelas pistas todas e depois começava a acelerar e zás. Agora levantam logo, não dão oportunidade a uma pessoa enervada de se preparar. Voou sem grandes tremuras, e as que sofreu foram avisadas pelo comandante. Por acaso, estive para lá ir protestar que o achava demasiado distraído com mensagens de voz para a cabine, em vez de tomar atenção à "estrada". Mas quem sou eu? O homem mandava-nos manter os cintos apertados, e eu, que levava uma roupa sem cinto nenhum, presumi que era aquela coisa com uma fivela indecifrável que, para apertar, tive que pedir ajuda. 

A Terceira é linda de morrer, mas eu estou viva. Não se vê uma beata no chão, um cocó de cão, um papelinho, uma folha de plátano (deve ser porque não há plátanos). Tem praias de querer ficar a morar ali para sempre, água parada, quentinha como no banho (duche de Verão, mais propriamente), zero porcarias, até me dei à maluqueira de nadar até às bóias. Depois voltei.

Vi a gruta e o algar, desci cento e setenta e tal degraus (o meu TOC põe-me a contar estas m. que não interessam nada) e a seguir tive que os subir. No último, a vontade era deitar-me no chão e fazer a minha sesta, mas aquilo era bastante húmido. 

Toda a paisagem é de cortar a respiração, mas aguentei firme e nunca me faltou o ar. Estava na terra onde existem mais vacas do que pessoas. E ainda vi crias de veado (que podiam ser vacas mascaradas), que sei perfeitamente que nenhum era o Bambi porque ele era filho único.


Ah, e acreditem ou não, abracei o fundador da nação. 

Quando voltei, consultei a médica dos xanaxes, contei como foi, disse que tinha conversado toda a viagem, e ela, estupefacta, perguntou se, com aquela dosagem (0,5 mg x 4 = 2 g) eu não tinha dormido nada. Que não, que nem uma pinga de sono. Engelhou-se toda e disse: "Para a próxima, toma seis". Ainda passo por mentirosa, já agora.