Estava ontem a passear pela blogobola, passei por um blog que também sigo (mas não persigo, como a nenhum) e mergulhei de cabeça — salvo seja — [não abram o link se não estiverem preparados, meus maricas] nestas fotografias tiradas em pré, durante, e imediatamente pós parto.
E insurgi-me.
Vêem-se mulheres a dar à luz dentro de água, no carro, nas escadas, de gatas, de cócoras, a fazer o arado e o pino [isto já não, mas eu tinha que exagerar], vêem-se as cabeças das crianças a saírem dos sítios mais incríveis de suas mães [tipo esse], vêem-se pais com a mão na barriga, a mão nas costas, a mão por todos os lados (ele há homens com várias mãos), vêem-se crianças pequenas a assistir ao parto (o que é uma péssima ideia, principalmente se der merda), vêem-se outras mulheres, manifestamente não parteiras, a colaborar no evento (a curiosa, a mãe da mãe, a companheira da mãe). São 59 fotografias, mais ou menos bem conseguidas, mais ou menos comoventes, mais ou menos mais-ou-menos e também mais e menos. De todas, apenas uma é uma fotografia de um parto por cesariana.
Desculpem. Eu só queria perceber se o nascimento por cesariana não é um nascimento digno de registo e depois destaque. Se é preciso sofrer, respirar, hiperventilar e a seguir parir para se dar o processo completo de se pôr uma pessoa no mundo. Eu pus quatro, todas por cesariana. (Por isso é que não pus cinco ou seis, e não se tratou nunca de uma questão religiosa ou financeira, mas apenas um assunto de amor.) Não tive direito a contracções, a dores pré, a corpo suado, a cabelo empapado. Não houve pai na sala de cirurgia, por opção dele, mas também fui bem compensada por uma enorme equipa. (Nós, cesariadas, temos direito a quatro médicos — cirurgião, segundo cirurgião, anestesista e neonatologista — e duas enfermeiras — parteira e pediátrica. É muita gente.) Mas tive direito às mesmas (ou melhores) dores logo a seguir. E, sobretudo, tive aquele mesmo momento mágico, em que o relógio efectivamente pára, e todos os presentes fazem um silêncio berçal, até que alguém pergunta as horas, para registar. Tive direito à pele com pele, ao cheiro animal, às lágrimas roucas, aos risos de alívio e amor eterno.
Quatro pessoas. Respect, hã?
