07/03/2017

Parir é dor, criar é amor;

A César o que é de César

- Ditados # 19 e # 20

Estava ontem a passear pela blogobola, passei por um blog que também sigo (mas não persigo, como a nenhum) e mergulhei de cabeça — salvo seja — [não abram o link se não estiverem preparados, meus maricas] nestas fotografias tiradas em pré, durante, e imediatamente pós parto.
E insurgi-me.
Vêem-se mulheres a dar à luz dentro de água, no carro, nas escadas, de gatas, de cócoras, a fazer o arado e o pino [isto já não, mas eu tinha que exagerar], vêem-se as cabeças das crianças a saírem dos sítios mais incríveis de suas mães [tipo esse], vêem-se pais com a mão na barriga, a mão nas costas, a mão por todos os lados (ele há homens com várias mãos), vêem-se crianças pequenas a assistir ao parto (o que é uma péssima ideia, principalmente se der merda), vêem-se outras mulheres, manifestamente não parteiras, a colaborar no evento (a curiosa, a mãe da mãe, a companheira da mãe). São 59 fotografias, mais ou menos bem conseguidas, mais ou menos comoventes, mais ou menos mais-ou-menos e também mais e menos. De todas, apenas uma é uma fotografia de um parto por cesariana. 
Desculpem. Eu só queria perceber se o nascimento por cesariana não é um nascimento digno de registo e depois destaque. Se é preciso sofrer, respirar, hiperventilar e a seguir parir para se dar o processo completo de se pôr uma pessoa no mundo. Eu pus quatro, todas por cesariana. (Por isso é que não pus cinco ou seis, e não se tratou nunca de uma questão religiosa ou financeira, mas apenas um assunto de amor.) Não tive direito a contracções, a dores pré, a corpo suado, a cabelo empapado. Não houve pai na sala de cirurgia, por opção dele, mas também fui bem compensada por uma enorme equipa. (Nós, cesariadas, temos direito a quatro médicos — cirurgião, segundo cirurgião, anestesista e neonatologista — e duas enfermeiras — parteira e pediátrica. É muita gente.) Mas tive direito às mesmas (ou melhores) dores logo a seguir. E, sobretudo, tive aquele mesmo momento mágico, em que o relógio efectivamente pára, e todos os presentes fazem um silêncio berçal, até que alguém pergunta as horas, para registar. Tive direito à pele com pele, ao cheiro animal, às lágrimas roucas, aos risos de alívio e amor eterno.
Quatro pessoas. Respect, hã?



06/03/2017

Da minha incapacidade para estar em velórios

Por contingências que a vida tece, e a morte também, pois que dizem que essa faz parte da outra, mas eu só acho que se estão nos antípodas reciprocamente, calhou-me em má sorte a presença em dois velórios no espaço de uma semana. Há muito que assumi que não sei estar em velórios: nunca vou tranquila embora séria, não sei o que me espera e isso inquieta-me, não sei dizer aquelas coisas "meus pêsames", "força", "agora tens que...", "faz parte da vida", ou ficar a ouvir o relato de "como é que foi", como se como é que foi explicasse aqueles dois segundos sucessivos em que a pessoa passou de viva para morta. Levo comigo o receio de ter um desaire dos meus, de me esquecer de onde estou e desatar a rir por qualquer razão, ou de encontrar uma cena que me desmanche toda, para o bem e para o mal. Creio que estou tão concentrada por não querer chorar que instintivamente procuro qualquer coisa que me alegre, ou, pelo menos, que me arranque daquela tristeza que é o ambiente de um velório, mesmo que ele seja de uma pessoa com duzentos anos. 
Foi assim que assisti ao diálogo entre uma senhora de muita idade e uma menina de vinte e um anos, com cara de quinze, magrinha, voz de criança:
- Filha, em que ano estás?
- Eu estou no quarto ano... 
O espanto, o movimento na cadeira, toda a linguagem corporal da senhora que, sendo professora, e apesar da avançada idade, está actualizada nas designações dos anos de escolaridade, e, por isso, não pode ter confundido quarto ano com o antigo quarto ano dos liceus. Sabe perfeitamente que quarto ano é a antiga quarta classe, e daí a sua incredulidade: 
- No quarto ano, filha? — Olhando e remirando a miúda. Por mais infantis que fossem os seus traços, vendo-lhe um tamanho de mulher, embora pequena, tentava perceber como é que alguém tão grande podia estar no quarto ano. — No quarto ano?
- De Medicina... — Esclareceu ela.
E eu para ali fiquei, agora sim, concentrada, os dedos a segurar a parte superior do nariz, lacrimejando discretamente. 

05/03/2017

Se não tivesse gatos, tinha cães

E tinha uma casa grande, na pradaria, para os ter.

 

(Parecendo que não) a propósito do oitavo aniversário da minha Mia. Está uma senhora. Oito anos.


04/03/2017

Mais vale rainha por cinco segundos do que princesa por cinco minutos

Chego à festa e tento reconhecer algumas pessoas que não via há vinte ou mais anos. Não quero cometer nenhuma gaffe, porque é nestas circunstâncias que sempre me acontecem e elas são, com o passar dos anos, cada vez menos perdoáveis. 
Vejo chegar o irmão mais novo da minha amiga, talvez uns três anos menos do que ela. Conhecemo-nos já éramos mulheres, embora muito jovens, ele seria um homem feito, mais jovem ainda. Diz-me, Eu sou o Francisco, respondo, Eu sei, e ele persiste: Ah, mas eu era muito pequenino. 
De repente, eu era Queen Elisabeth II, diante de um desastrado presidente que, velho, se quis fazer jovem à custa da comparação com uma senhora. 
Sem a presença de espírito da rainha, talvez por não ter trono, coroa ou ceptro sequer de miss, ao invés de confirmar Tenho a certeza que eras, limitei-me a um Eu já era assim, enooorme
Não doeu nada, sobretudo porque se seguiu o momento em que fiquei a vê-lo afastar-se. Continua pequenino, e agora acresce que está (definitivamente) careca. E gordo. 
E eu não.