- Senhor doutor... quer por ordem alfabética, cronológica, arbitrária, ou qual?
[Aquela cara a que já me habituei, que diz tanto e quase nada, que-pena-podia-ser-tão-inteligente, sempre acompanhada por um sorriso (espasmo?), que pode significar surpresa, medo, divertimento, tuditudo. E um silêncio, à laia de resposta.]
- Está bem. Vou pela cronológica, que é o atalho mais fácil: aos seis, adenóides; aos dezanove, dentes do siso; aos vinte e sete, primeira de quatro cesarianas...
- As outras três foram com epidural?
[E a vontade parva de responder "Não, foram a frio, muáháháhá".]
roubei da né
Acabada a extensa lista, aproxima um nariz de borracha do meu e diz: "Isto é oxigénio, para respirar melhor."
Ainda está para chegar o dia em que terei tempo de responder: "Então não acabei de lhe revelar todo o meu extenso currículo em matéria de anestesias gerais? Eu já não caio nessa do oxigénio, essa máscara é a indução à anestesiiiiiaaaazzzzzzzzz".
O título diz zero acerca do filme. Parece coisa de polícia (por associação de ideias com "Ficheiros secretos"), ou tudo menos o que verdadeiramente é: o melhor filme (excluindo os de animação infantil, incomparáveis com cinema para pessoas crescidas) que vi nas últimas décadas, que até já são algumas. O título original, Hidden Figures, faz-lhe melhor justiça, embora não possa ser traduzido à letra: figuras escondidas, nem tanto, Pessoas Invisíveis seria o título certo. Se este filme não ganhar os Oscars todos (guarda-roupa incluído!), eu própria me encarregarei pessoalmente de despedir a Academia em peso. É tão, mas tão bom, aborda tantos temas que me tocam tão profundamente, que posso revê-lo metida numa tina de gelo em pleno Inverno, que me aquecerá o coração na mesma. São duas horas e sete minutos de vale a pena, sem bocejos. (Aquelas três. E o Kevin Costner.) (Vá, agora calo-me, porque a partir de agora já é spoiler.)
Mas, antes do filme
Uma daquelas pastilhas rijas e dispensáveis, um filmeco de publicidade que se conta nestes quatro actos:
1 - A menina, com cerca de 12 anos, acorda num quarto branco, lindo e luminoso, onde apenas consta um colchão no chão. É o pai, simpático e carinhoso, que a vai acordar, dizendo, "Querida, o pequeno-almoço está pronto", ao que a bruta petiza responde, ainda a esfregar os olhos e sem se levantar da cama, "Pai, já tinhas uma mesa, não?". E o parvo querido come e cala;
(Violência doméstica, meus caros, pode ser praticada pelos filhos em relação aos pais, e tem uma vertente psicológica nunca subestimável.)
2 - A malcriada chega à mesa de pequeno-almoço que o palerma lhe preparou e exclama: "Torradas? Ó pai, mas a mãe faz-me sempre panquecas!". E o tonto faz um sorriso triste, em vez de lhe retribuir a patada com outra patada;
(Violência gera violência, ah pois é. Mas uma resposta assertiva no momento exacto trava muita mais violência do que se possa imaginar.)
3 - O bom do parvo está a fazer panquecas com material Pingo Doce;
(Pode ser um síndrome de Estocolmo, aquele de que sofre o senhor.)
4 - O bondoso vai novamente acordar a cavala, anunciando que já pode acordar, e que tem ali as panquecas à espera. Ela acerca-se da mesa, começa a comer uma panqueca em silêncio (ao menos não fala de boca cheia...), diante do olhar comovido e expectante do homenzinho, que, não aguentando mais a ansiedade, pergunta: "O que é que foi? Não estão boas, as panquecas?".
(Nesta altura, a assistência e eu contamos com algo do género, à laia de resposta: "Não, gosto mais das da mãe. Faz-me torresmos.")
Mas diz a arrependida, cabisbaixa: "Ó pai, tenho uma coisa para te confessar".
(E nós Ai meu Deus, é agora que levas uma chapada, desembucha lá isso.)
"É que a mãe nunca me fez panquecas".
(E a nossa ambivalência a chiar Ai as cabras, tal mãe tal filha, pobre homem.)
"Eu sabia, filha", diz-lhe assim o ternurento, com uma festinha na tola.
E a conclusão Pingo Doce: "Pingo Doce, a fazer das mesas portuguesas mesas mais felizes", ou qualquer regurgitação do género.
~
Apneia, senhores, apneia, era o que se sentia na sala inteira quando acabou este filminho de terror.
(oh. Parece que foi a primeira vez que utilizei um palavralhão num título. Vá, não doeu.)
que te desaparecem do alcance visual e, por consequência, do alcance manual, sem saberes muito bem como, tu procuras nos locais mais prováveis, depois nos mais improváveis, a certa altura até nos impossíveis, nos inimagináveis, nos recônditos, nos inóspitos, nos insuspeitos, nos Infernos, ainda repuxas pelas pontas da tua memória (e persistes em chamar memória a isso que achas que também tens), e a merdinha não aparece?
Sabes quando é que vai aparecer?
1. Quando já não precisares dela;
2. Quando te vires obrigada a ir comprar outra;
3. Quando andares à procura de outra merdinha sem importância, que não encontrarás igualmente, e que perdeste não sabes aonde, nem como, nem porquê;
4. Nunca, porque a perdeste. Ponto;
5. Nunca, porque ela está debaixo dos teus olhos;
6. Nunca, porque és louca e a merdinha nunca existiu.
[Agora a sério, as casas têm buracos? As coisas ganham pernas? Asas?]