14/08/2016

Aprende também a não ler todos os sinais que a vida te dá

A pessoa acorda cheia da pica para ir dançar. Está um nico menos de calor, a aula não estorva o trabalho (true, true), faltam muito poucos dias para rumar daqui para sul, tudo se conjuga. Aperalta-se, apruma-se, faz-se à estrada, ao leme de seu boi. Pelo caminho, depara-se com este anúncio, qual prenúncio, e confirma.


Chega ao ginásio e Não há aulas de dança em Agosto.
Mete-se no remo e rema, (sem) rumo.

13/08/2016

A minha vida dava um filme de David Lynch

Ainda me estou a ver, sentada numa cadeira de acrílico transparente. A sala tem uma estranha geometria, parece um U, parece um C, parece uma salsicha gigante. O cheiro é demasiado intenso, a comida requentada, ou pré-azedada. Diante de mim, a mulher continua sentada, atrás de um balcão branco, e ainda não tirou os olhos do computador. Nem mesmo quando ali pousei as mãos e me avisou, entre dentes, que o balcão é traiçoeiro. Percebi isso mesmo no momento em que, das mãos passei aos braços, e aquela porcaria se virou na minha direcção, tendo feito tombar uma vela grossa e seu castiçal metálico, redondo como uma bola, que se encontravam em cima da placa de contraplacado ordinário. E ela sem mexer uma pálpebra noutra direcção que não fosse a do monitor. Perguntei-lhe então o que é que tem para hoje?, ao que, à laia de resposta, me entregou uma pasta com algumas dezenas de folhas lá presas, cuja capa transparente deixava ver uma tabela, igual a um horário escolar hiper-preenchido, contendo os menus da semana toda e, eventualmente, de todas as semanas do ano. Tive que fazer cálculos mentais para me lembrar que estávamos em quinta-feira. Reclamei, num desperdiçado sorriso, que, de facto, uma tabela em que o menu se apresenta em letras tamanho 8, brancas, sobre fundo cinza claro, nem que eu fosse um lince seria capaz de lê-la. Ainda assim, não respondeu, não se mexeu nela um único fio dos cabelos pretos e sujos. E eu ganhei olhos de lince por segundos e li lasanha vegetariana. 
Ali sentada, inspeccionei a porta à minha direita, que deixava antever um pequeno corredor, ao fundo do qual se encontrava uma casa-de-banho semi-ocupada com balde, esfregona e talvez mais coisas. Havia ali também uma porta, que dava acesso à cozinha, que eu preferi não espreitar. Quando a porta se fechou, li-lhe "Área exclusiva do pessoal". O chão, numa imitação de madeira cinzenta, encontrava-se em péssimo estado, como se tivesse sido — e, provavelmente, foi — cenário de várias inundações e algumas limpezas com produtos impróprios.
Tinha acabado de fazer o meu pedido, após o qual a mulher levantou o rabo da cadeira — ou aquilo que deveria estar no lugar dele, pois que tinha a zona sacra totalmente achatada —, enfiou a cabeça por uma pequena janela de acesso à cozinha e gritou "Ó colega", procedendo à transmissão do meu pedido. Voltou a sentar-se, atendeu um telefonema e disse, por diversas vezes, a palavra "você".
Houve um décimo de segundo em que considerei a hipótese de entrar um anão que desatasse a dançar em chão de ziguezague, mas não: entrou o estafeta, com o saco da distribuição vazio, e pareceu-me que vinha de fraldas. Afinal, eram umas calças de fato de treino, justas ao longo da perna grossa, e bastante largas no rabo. Quando tirou o capacete, verifiquei que só tinha cabelo no alto da cabeça, tal e qual um manjerico, muito negro, muito farto, em perfeito pendant com as sobrancelhas, duas hirsutas cabeleiras pretas. Não me custou a crer que se tratasse da reencarnação de um lenhador que, à noite, se fizesse lobisomem.
A lasanha estava muito boa.


12/08/2016

positiva +

Apetece-me chamar-lhe Fernanda.
É muito raro, senão mesmo inédito, mudar os nomes às personas de quem falo aqui no blog.
Esta pessoa pode chamar-se Fernanda. Ou talvez não. Mas sim.
~
Encontrámo-nos por um daqueles acasos que a vida nos prega, como partidas de bom gosto no meio da desarrumação que ia na nossa vida. Estava, naquele dia, de serviço ocasional à UCI,
O meu lugar é na urgência de pediatria, lá é que é o meu lugar,
como se aquele lugar lhe pertencesse por direito de propriedade, escritura lavrada, e lá se sentisse em casa.
Eu sou seropositiva há doze anos, mas isso não me tira a vida,
e ai de quem não acreditasse.  Loira, daquele loiro amarelo do cabeleireiro de há dois meses, raízes escuras, olhos da transparência do âmbar, dentes muito brancos e tortos, linguagem corporal dentro de um corpo seco e bonito, constante, viva, ondulante.
Nunca toquei em drogas, mas foi uma loucura. Tenho trinta e um anos e há doze que sou seropositiva. 
Falou-nos dos filhos.
Um de cada pai.
E de como se dá bem com todos, os dois pais dos dois filhos, as duas namoradas dos dois pais dos dois filhos, os dois filhos — e ai de quem não acredite, tamanha é a luz e a febre boa que jorra a jorros daquela urgência de vida, cujo lugar é na urgência de pediatria. 
Já vi tanta coisa naquela urgência, há pais e pais, há pais tão maus, eu não quero pais assim para os meus filhos.
Nem quando fala nas sombras que a assombram, nem mesmo nessa altura, se ensombra. 
Eu viajo, eu gosto de viajar, se tenho que ir, vou, deixo os putos bem entregues e saio pelo mundo,
tudo cantado num sotaque algarvio cerrado.
Tudo espelhado num espelho de água de olhos que pertencem à urgência da pediatria e da vida, e que nunca se ensombram.
Nada me tira a vida,
deu-nos ela aquela lição, enquanto esperávamos por boas novas na UCI. 
Tem que acreditar.


11/08/2016

Paralelo

Como numa realidade alternativa, para onde a mente se transfere quando a que está se torna insuportável, vivo a impressão de que ainda me encontro dentro do pesadelo, de que esta foi a minha forma de fuga, por estar tudo tão perfeito que não pode ser, devo estar a sonhar que o pior já passou, daqui a pouco vou acordar e estarei mergulhada nas trevas.
Olho para ela, confirmo-a, revejo-a, quero ganhar certezas absolutas de que está mesmo ali e que é ela, forte, bonita, saudável, minha.
Tenho tanto medo de estar a sonhar, que não invento uma desculpa para a tocar. Simplesmente, aproveito o gozo bom de a ver assim.
Tenho tanto medo de a assustar com as minhas dúvidas descabidas, que ela me desapareça no ar como se fosse um sonho bom, que me mergulho inteira no silêncio e numa paz que nunca virá.
Eu sempre soube que as mães não têm remédio, como dizia a minha mãe.