05/06/2016

Foi tão blogger da minha parte # 5

Isto faz de mim uma intelectual de calibre 0,905 — que, conforme sabeis, é o calibre mais alto do mundo: fui à Feira do Livro e comprei livros. 


Encontrei esta colectânea quase ao preço da uva urinona, numa base de levas 3 e só pagas 2. Ou era ao contrário? Pois, não sei, mas sei que o difícil foi escolher, pois faltam-me quase todos e, se os quiser possuir, ou me apresso e aproveito quando eles se apreçam desta maneira, ou nunca os terei, porque parece que eles se publicam como as silvas, a uma velocidade que a minha carteira não acompanha, qual inflação desenfreada. 

Fui pela calada da noite, que é quando gosto mais da Feira. Evitam-se as multidões de carrinhos, famílias unidas que marcham compactas nos corredores, onde se inclui, invariavelmente, a pessoa que anda a passos de gueixa, os fumadores do cigarro quase rente a toda eu, e os abusadores que desconhecem o significado de perímetro mínimo.

Posso afirmar que fiz uma entrada mais ou menos triunfal na Feira, porque surgi pela floresta que a ladeia, tendo descido a rampa relvada, que é a pique, até ao passeio, sem um único deslize. Era tê-lo tido e já entrava de gatas na Feira, o que nada seria de estranhar em se tratando de mim, mas acontece que acho que já estou um bocadinho mais crescida. Aquela descida com a sandalete do meu coração teria sido para os anais. (Da História da Feira.) Deu-se que tive um ataque de inteligência antes de ir, reprimi quase a vergastadas a minha indómita vontade de estrear as super-sandálias-2016, e calcei a sabrina balalaica.

Mal havia entrado, apercebo-me da palestra de uma pessoa importante e conhecida, que eu não sei quem é, mas que proferia o seguinte discurso:

- Nós vivemos rodeados de influências, diariamente influímo-nos uns aos outros.

Fui querida, porque passei por ele e o meu Tourette exclamou: "influenciamo-nos". Vá que segui caminho, antes que o palestrante amostrasse o seu desagrado pela minha gentil correcção. 

Vou voltar à Feira, especialmente porque ainda não choveu. E diz a tradição que Feira do Livro sem chuva, não é Feira. Quero trazer mais livros da colecção de poesia que ilustrei acima. De qualquer forma, deixei lá, à minha espera, um livro sobre mamíferos a um preço de mamas, e também quero outro saco do Fernando Pessoa, que este ano é azul turquesa, e dá-me uma jeiteira quando vou aos brócolos. Aí, sim, atinjo o pináculo da intelectualidade, eu a sair da mercearia e a passar pelo Avelino com o meu saco do poeta, num enorme desassossego.


04/06/2016

O amor não tem olhos. Muito menos, nariz

Não sei se se lembram do homem que tem os pés podres. Eu cá lembro-me.
Hoje ia a chegar ao ginásio, e vinha ele e a esponja respectiva, de manitas dadas, passeio afora, a entrar lá no recinto, também eles. Cumprem o horário de Pilates, vão os dois, muito juntos, fazem a aula, saem juntos. Já tinha topado que se conhecem, porque os via trocar impressões, mas nunca os fiz casal. Aliás, nunca o fiz a pares com ninguém, por causa. Iam bonitos, tal como pombos, assim os pombos tivessem mãos para se darem. Ficaram à minha frente na fila para as senhas, e eu fiquei a observá-los, num enlevo de dar gosto ao dente, ou ao dedo, ou lá a que raio é que aquele clima entre eles dá gosto. 
Ele é um homenzinho atarracado, de corpo de linhas rectas — hélas, os homens também têm curvas. Mas aquele é um tronco —, cabelo negro, sobrancelhas fartas, cabeçorra pentagonal, braços curtos, expressão carrancuda.
E aquele cheiro dos pés.
É claro que o pivete melhorou desde que André Pilateiro correu com ele da classe, cheio de classe, aquando da segunda vez que lhe tomou de assalto a aula, ele, e seu cheiro nauseabundo. Talvez a partir daí tenha passado a lavar os pés. 
Há muito pouco naquele homem que possa ser atractivo para uma mulher. Ainda por cima, a cheirar dos pés daquela maneira.
Ela é uma mulher muito bonita, de cabelos compridos e lisos, e feições que se bastam, sem necessidade de correcções maquilhágicas nem maquiavélicas, sorriso fácil, inata simpatia.
Separaram-se as mãos quando foram para os respectivos balneários, e reencontraram-se quando saíram, equipados. Enlaçaram-se as cinturas e beijaram-se na boca. 
(Foi horrível.)
Como é evidente, segundo a lei das probabilidades, e do Murphy, e da bitch Karmen, naquele momento da aposição dos colchões no chão, eu tinha que ficar ao lado do homem. E só fiz uma aula menos tortuosa porque já tenho um bom treino, se não muscular nem pilato-respiratório, pelo menos ao nível da apneia. Podia bem bater um record qualquer de maior tempo sem respirar, tornar-me a nova Houdini cá do canto, ou abraçar a carreira de pescadora de pérolas. 
Depois, fui tomar uma bica. E avistei-o, lá fora, à espera dela, o banho por tomar e a mesmíssima roupa que levava vestida antes da aula. Ela saiu passados minutos, vinda do balneário, fresca de sabonete e roupa lavada, e foi ao encontro dele, as mãos a procurarem-se de novo, as bocas tal como as mãos.
Não consigo pôr a funcionar a minha visão poética das coisas da vida: chamar a Blue e pô-la a escrever esta mesma história com pinceladas de romance. 
(Horrível, o amor, quando quer.)

03/06/2016

Tenho mesmo que ir à Feira do Livro. O livro que ando a ler está a acabar.

Baby Blues Vol. 20
(Bizâncio)
SERVIDORA FORA DE SERVIÇO!
p. 94

Arranjei mais dois problemas

Fui à Open Night da Av. Guerra Junqueiro e Avenida de Roma (meu amor).
Entrei na Mercearia Criativa* e provei (e degustei, e degluti, e digeri — mais nada, que eu sou uma senhora e não faço essas coisas) os gelados de sabores rosas e eucalipto.
Rosas. Sim, essas — as flores.
Eucalipto. Sim, esse — a árvore.
Eu já não tinha problemas que me chegassem.

* ninguém me paga para isto, mas aceito parceria, desde que me paguem em géneros.