13/03/2016

You'll never walk alone

Disse-me que morreram dois adeptos do Borussia Dortmund em pleno jogo, de corações que não suportaram tanto amor por um clube.
E foram oitenta mil adeptos a cantarem you'll never walk alone, em coro, mãe.
A paixão pela música, que é, essencialmente, o hino do clube, foi imediata.


Deu-se este bocadinho no preciso momento em que trocava mensagens com um dos meus primos, acerca da recente morte do pai dele — meu tio de empréstimo que, na realidade, era meu primo direito.

You'll never walk alone, Primo.

Vernizes

Encontrei-a por acaso, numa rua da cidade onde moramos. Magra e tímida, ainda provinciana, mas já urbanizada, instrução básica cumprida, casada com o senhor doutor, todos os tiques da pequena cidade nortenha que lhe foi berço, num esforço constante por diluí-los aos seus próprios olhos. 
Conheci-a ainda os filhos eram pequenos, e ela uma fada do lar de corpo largo, justificado pelo parto de gémeos. Dias queimados ao ferro e ao fogão, costas dadas em sacrifício ao aspirador, braços entregues às limpezas, tudo em troca justa de cabeleireiro e roupa nova, e, se não boa vida, pelo menos uma vida boa. Trazia sempre as mãos encardidas pelos tachos, o verniz lascado — rosa-pérola —, num claro contraste com o todo que, quando trazia à rua, vinha tão arranjado. 
Depois voltei a vê-la, os filhos já crescidos e o senhor doutor enlouquecido de amores por outra, o corpo estreito, justificado pelo desgosto e pela cambalhota da vida. Os mesmos tiques, o mesmo sotaque, o mesmo pestanejar tremelicante a cada frase mais séria, as mesmas gargalhadinhas nervosas a cada pequena ironia. As mãos desencardidas, o verniz impecável — rosa-pérola, com brilhantinhos. 
Desta vez, disse-me
Nem lhe conto da minha vida.
Já percebi que voltou para ele,
respondi eu, que lhe adivinhei, nas mãos reencardidas pelos tachos, no verniz lascado — roxo —, o regresso ao lar do senhor doutor.
Aquilo foi um vaipe que lhe deu,
disse ela, o mesmo pestanejar tremelicante, 
O que interessa é que eu estou feliz com os meus filhos,
a mesma gargalhadinha nervosa.

Enquanto escrevo isto, observo as minhas próprias unhas, sempre cortadas muito curtas, o verniz sem lascas — vermelho-vivo —, dez pequenos fósforos incendiários. E pergunto-me quantas camadas de verniz me separam daquela mulher. 

12/03/2016

sábado


Those are the arms, beautiful when they hold me
Those are the words, poetry calls, it told me
I'm a willow, you can carve your name on me
We'll laugh about it at the bottom of the sea
These are the songs I'll never get to sing to you
Put them away, keep them until they ring true
I'm a fountain you can pure yourself in me
We'll laugh about it at the bottom of the sea


We drink the water
One day it hits the sand
We touch each other
One day we'll understand
We fall in love but we keep falling down, we
We fall right through a hundred million centuries


And that was the day you had me because I found you
These are the stars, perfect when they surround you
I'm a sparrow, can you hear my reverie
We'll laugh about it at the bottom of the sea


We drink the water
One day it hits the sand
We touch each other
One day we'll understand
We fall in love but we keep falling down, we
We fall right through a hundred million centuries

We drink the water
One day it hits the sand
We touch each other
One day we'll understand
We fall in love but we keep falling down, we
We fall right through a hundred million centuries


Cheese Pilates

É a segunda semana consecutiva que, mesmo chegando antes da hora, já não consigo tirar senha para a aula de Pilates. Em ambas as vezes, André teve que fazer uma enorme ginástica, não literal nem mental, mas estratégica e logística (não deixa de ser ginástica), para que as cinco ou seis pessoas sem senha ainda coubessem dentro da sala. Hoje já só conseguiu meter mais quatro pessoas, e eu era a quarta dos seis sem senha. 
Entrei, portanto, por uma unha negra. Porém, negras haviam de estar as unhas do meu companheiro de classe: foi sentar-me no colchão e teletransportar-me para uma fábrica de queijo flamengo. 
O ar condicionado virado para o quente — a sério que há quem tenha frio num ginásio? —, a porta fechada, e eu tinha que ir sentar-me, e depois deitar-me, precisamente ao pé — aí, sim, literalmente, pois a minha cabeça ficou a confinar com os pés dele — de um senhor que, para além de não ter lavado os pés nos últimos três anos, também não lavou as meias desde que as comprou, naquele saldo, há cinco anos.

Puseram-se-me, então, várias alternativas mentais:
1. Levantar-me e ir ocupar um dos dois colchões disponíveis no palco — não que me fizesse grande diferença ir para lá exibir-me, pois parece que isso já é um fado meu, simplesmente o outro colchão estava a ser ocupado por um senhor muito grisalho, e não me apeteceu criar-lhe constrangimentos por qualquer situação que pudesse assemelhar-se a isto:


2. Levantar-me e ir-me embora, com a desculpa de que me doía o nariz, do ar tão pesado;
3. Deixar-me ficar deitada e desatar a gemer que não aguentava mais o mau cheiro da minha cabeça;
4. Pedir uma mola de cabelo (piranha) emprestada e colocá-la no nariz;
5. Perguntar, para a geral, "Quem se peidou dos pés? Ponha o dedo do pé no ar!";
6. Dizer claramente ao senhor que tirasse as meias. E os pés. E os lançasse para longe.

Em vez de qualquer dessas hipóteses, aguentei firme e hirta como uma barra de ferro. E não chorei, como recomendava o arquitecto. Mas foi uma desconcentração, um cheese-cheese-cheese, que até acho que passei a aula toda a sorrir, convencida de que era a ordem para tirar o retrato.
Infelizmente, André esperou pelos três últimos minutos da aula, para nos dar um raspanete subordinado ao tema da higiene, que foi muito bem feito. Disse "odores", disse "pés", disse tudo, mas já disse tarde. Com isto quero dizer que não haverá uma próxima. Tenho ali guardada a mola de nariz da natação, que serve bem para nadar em seco, também.

(Ontem Lisboa foi invadida por trezentos camiões de suinicultores.)