24/09/2026

Expulsa

Éramos duas pessoas rigorosamente iguais, ali à porta do ginásio, eu ainda com a cabeça a dançar e o corpo a ouvir música, ele não sei, mas nos gesticulares habituais, comichão na orelha direita coça com a mão esquerda, passando o braço sobre a cabeça, os óculos sempre a escorrer nariz abaixo, um frenesi de sobrancelhas, olhos, narinas e boca, mas é o André, que nasceu muito tempo antes do tempo, diz a mãe que cabia na palma da mão dela, fez-se médica para o salvar da vida que lá vinha e salvou, ficaram só estas manifestações e uma descoordenação nas coreografias, mas que importa, se, naquele momento, falávamos da nossa Carminho, amarrada a uma cama de hospital, a última das senhoras à face da Terra depois da minha mãe, eu não quero que ela vá, mas não há meio de ter alta, levo-lhe flores e chocolates, levo-lhe ananás fresquinho porque ela não come nada, amanhã levo-lhe manga. E a palavra “metástases” em todos os exames, uma agonia, estamos a falar de uma senhora quase nos setenta, pequena e magrinha como só uma dama consegue ser, cabelo platinado e olhos daquele azul que só ela tem, a boca muito rosada, põe bâton do cieiro enquanto conversamos por ter absolutamente que estar sempre impecável, no cabelo às ondas um lencinho de pendentes. Digo ao André que, se a nossa amiga tiver que fazer quimioterapia, não há-de ser nada, a pior parte é o cabelo, eu a querer (não) recordar.

- Como é que te sentiste?

- Uma pessoa expulsa da humanidade, todos iguais e eu diferente. E, de certo modo, nunca mais voltei a sentir-me um deles, percebes?

- Percebo.