09/05/2016

Eu também sou daquelas benfiquistas privilegiadas

que ontem à noite ouviram na TVI 24 o senhor repórter dizer...

O avião encontra-se, neste momento, a fazer inversão de marcha.

 

Dizem 'alhos'

Ouvia-o atentamente — na medida do que me é possível —, em prelecção reunítica, quando lhe sai:
- Vocês sabem qual é a frase de esquilo?
Silêncio na sala.
- O filósofo...
O peso do silêncio. Até que a chata (sempre) de serviço, esclarece:
- Ésquilo.
E depois não ouvi a frase de Ésquilo, porque começou a tocar isto na minha cabeça-jukebox:


Notas mentais à segunda-feira. Quem sabe à terça estarão esquecidas

Nota 1 - Não voltarás a beber café na Nespresso quando vais comprar café.
——
Nota 2 - Não voltarás a tentar travar diálogos em nesprês.
- A senhora aceita tomar um café?
- Sim. Um descafeinado. 
[E, quase de cócoras para conseguir ler o menu, extremamente mal colocado em cima do balcão, verto, no meu melhor italiano, tal e qual Toto Cutugno — voz colocada e tudo:] 
- Um lungo, por favor. 
[Para a próxima, vai de português bem claro, e dedinho na boca, Um loooooongo...]
- Um Vivalto? 
-...
-...?
- Um azul.
——
Nota 3 - Não voltarás a aceitar nada que seja grátis. O grátis queima-te a boca toda, mesmo que fiques calada.
——
Nota 4 - Enviar para o Instituto Português de Cultura um novo ditado popular: 
Borlas, só no Carlos das Franjas — que não é cabeleireiro — e, mesmo essas, pagam-se.

08/05/2016

Julieta e Romeu (aquilo de as senhoras primeiro)

Queria chorar um mar inteiro, por nada de especial, mas porque sou tão portuguesa, tão fadeira, o dia esteve tão choroso e chorão, e eu tão fotossintética, tão sintética em tudo, menos na escrita, de tão prolixa, urgia-me assim uma boa choradeira para a noite. Ia para ver Romeu e Julieta, que melhor carnificina para me pôr qual menino do quadro, mais a queda da lágrima fácil?
Eu não sei viver em sociedade, e essa conclusão, por si só, devia ser bastante para me pôr a berrar em modo carpideira, mas é que não. Sentados à minha frente, um casal de meia idade (para aí a minha, mas em mais velho), ele num xitex com o smart novo, tirou os óculos para ficar mais giro (e daqui a três anos se autoconvencer de que três anos antes ainda não usava óculos), e pôs-se a tirar selfies onde muito bem enquadrou, por diversas vezes, ele, a mulher e... eu. Eu, lá no meio dos dois, parecíamos o triângulo das Bermudas, em que eu era a Bermuda, ou assim. Tive o cuidado de lhe esmerdar as fotos todas, porque já desisti há canos de ser sempre a boazinha de todas as sits, e então pus-me de olhos fechados numa, fiz o sorriso Monalisa noutra (sem lábios), fiquei de cabeça virada para trás noutra (aprendi em A morte fica-vos tão bem), 


e noutra com a cara da pata morta. (Inventei eu, quando era adolescente, e tem sido um sucesso ao longo da minha vida, mas agora tem uma variante juvenil muito em voga, chamada duck face, nem mais. Devia ter registado a patente.) 
Também tive um dos meus ataques de pernas inquietas, ou não tivesse a mania que posso ir às coisas como as pessoas crescidas. (Já uma vez passei por tarada sexual num cinema, porque estive a sessão toda a mexer as pernas de um lado para o outro, e deu para perceber que o senhor que calhou ao meu lado estava, se não incomodado, pelo menos entre o perplexo e o assustado. Vacilante, portanto.) Vá que, desta vez, não tinha ninguém do meu lado direito, pelo que deu para sapatear sem receio de julgamentos sociais precipitados.
Por acaso, achava que ia ver ballet, uma vez que o espectáculo era da Companhia Nacional de Bailado, mas não fui. Ainda por cima, como ia com a minha prima bailarina — que não é minha prima, mas é minha parente na mesma e fui eu que fiz —, mais me convenci, mas ela elucidou-me logo ao início, antes que eu fizesse birra:
- Não vais ver tutus nem pontas.
Está bem. 
Era um bailado com teatralização, que só porque respondia pelo título Romeu e Julieta é que deu para perceber que era a peça do William. Os dois protagonistas davam-se malíssimo, discutiam horrores e mandaram-se mesmo, ali uma ocasião, lá para o outro lado. Não penseis com isto que o espectáculo não vale o bilhete, porque CNB é sempre aquele assombro de boa dança, ritmo e coordenação que tomara o ballet russo — e não estou a exagerar. E não é lá porque não percebi muito bem em que momento é que o Romeu e a Julieta morreram (morreram?) que não gostei do que vi. 
Não deitei uma lágrima, é certo. Mas também não me ri nem um tiquinho, o que faz de mim uma pessoa quase adulta.