12/08/2021

And that awkward moment # 64

em que adquires um vestido numa loja online — silêncio. É lindo. Vai ficar-me épica, estúpida e estonteantemente a matar e vai fazer de mim a mulher mais enigmática do meu bairro da minha rua do meu prédio do mundo em que eu existo —, entras em negociações com quem está do lado de lá do ciberespaço acerca do tamanho, a saia do vestido é acima do joelho, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, também não queres tudo à vela que nem possas sentar-te à frente de pessoas em paz, qualquer centímetro conta em se tratando da altura de uma saia, sempre a dúvida existencial entre o S e o M, então envias as tuas medidas, e de lá profeciam-te o S, mas tu ai que não, veja lá se não fica demasiado curto, eu meço 1,68 metros do cucuruto até às plantas, e diz quem responde às tuas angústias:

Não fica demasiado curto, a modelo tem 1,64 m.

Quatro

centímetros

na altura

de uma saia.

...

Quarenta milímetros. 

...

Mandei vir o M.



11/08/2021

Esta praia tem ursos *


Imagina o que será estares na praia e aparecer lá um urso. Polar. Ao menos que fosse pardo. Ou panda, por Deus.

Já assisti, nesta longa e surpreendente vida que já vivi, a fenómenos vários, desde o dar à costa do cadáver de uma tartaruga gigante, até à passagem de três golfinhos, em que a parte melhor do inesperado “espectáculo” foi mesmo ver milhares de pessoas porem-se de pé, e, em uníssono, deslargarmos um “oooooh”, parecia um flash mob, ou uma cena do Sequim  d’Ouro. Também assisti uma vez ao desmaio de uma senhora que resolveu ir espreitar um corpo que tinha dado à costa após uma semana de desaparecimento. [Rolling eyes para ela, de cada vez que penso nisso.]

Agora, um urso, foi a primeira vez.

Assim desconfiada — não posso dizer que a medo —, já que o bicho se movia discretamente de vez em quando, primeiro a uma distância segura — não fosse encrençar comigo e sei lá —, assomei-me, e imagina, numa praia relativamente apinhada de gentes, então não é que o teddy dá em acenar-me? Foi o início de uma profícua, porém breve, amizade. Aproximei-me, confiançuda, e diz-me o animal assim: “Queres tirar uma fotografia comigo?”, eu ai é claro, vai de colocar-me diante dele, os dois de braços abertos, e clic.

A seguir, de forma dramaticamente inesperada, a nossa tenra amizade derivou para o campo do oportunismo, quando ele me diz assim: “Agora vai buscar um euro para me dares”.  Pronto. Mais uma relação sem futuro destruída. Eu a afastar-me, acenando adeusinho, ele, “um euro, um euro, um euro”, parecia o outro maluco.

* inspirado aqui.

09/08/2021

Um membro da família

A primeira vez que a vi, apercebi-me de que algo se passava — ou não — com as patas de trás, misturadas numa confusão inerte com a cauda. Depois confirmei, quando a vi deslocar-se com a força das patas dianteiras, arrastando as traseiras e a cauda como se de um trio de serpentes mortas se tratasse. 

De resto, tudo normal: rosnando quando se sente ameaçada — vão lá entender-se os critérios dos gatos —, miando quando a intenção é comunicar com humanos. 

Conheci-lhe a dona uma destas manhãs, que se acercou, atenta à minha atenção, e me contou a história do pouco que sabe que aconteceu, num Português fluente cheio de sotaque do Leste da nossa Europa: foi à terra dela para ser sujeita a uma cirurgia, a gata desapareceu durante uns dias e o marido foi encontrá-la quase morta, provavelmente atropelada. O veterinário queria eutanasiar, ela não permitiu. Revelou-me, olhos e boca de cantos a resvalarem para mais uma de outras lágrimas que já terá deixado cair, a opção, que percebi muito criticada: "Fica sendo o meu bebezinho de colo". E, afinal, nem tem sido bem assim, o animal desloca-se à mesma velocidade a que o faria se tivesse as quatro patas vivas. A convivência com os outros dois gatos da casa — uma criança vivaça e viçosa e um macho sobranceiro e soberano — é pacífica, não tem consciência da sua diferença, eventualmente não guarda memória do acidente, anulou a limitação por instinto e necessidade. Com toda a certeza, não vive de um passado que já não volta, nem se angustia com um futuro menos promissor. (A racionalidade pode ser o maior entrave para a felicidade.) É amada, está cuidada, o pelo brilha de saúde e até de alegria. Disse-lhe, "Ela é tão bonita", e agradeceu como se lhe tivesse elogiado uma filha. "É um membro da família". (Se é, só quem nunca amou um animal é que não entende o que disse esta mulher.)

É verdade que, quanto mais conheço as pessoas, mais gosto de animais. Não fui eu que inventei esta frase. Desta vez, também é verdade que, quanto mais conheço os animais, mais gosto das pessoas.




07/08/2021

Fim de tarde com o morto

Então, estou a chegar ao areal para cumprir o segundo turno do dia, e verifico que, no colmo destinado às pessoas com mobilidade reduzida, precisamente ao lado daquele que me calhou na rifa — e durante a manhã ocupado por três adultos e um bebé plus carrinho —, se encontra deitado um homem jovem, estático, tapado com uma toalha de praia, e com os óculos de sol colocados. Por constatação através de auto-análise e também por mo dizerem, sei que os meus raciocínios vão invariavelmente pelos caminhos mais abstrôncios, mas também tenho a declarar em minha defesa que — e repito — o senhor estava deitado à sombra do colmo destinado a pessoas com deficiência/ dificuldades várias. Por isso, o que é que eu pensei?

1. É paraplégico. [O homem não se mexia.]

2. É invisual. [Por causa dos óculos.]

3. É paraplégico e invisual. [Mas quem raio veio largar uma pessoa com este grau de deficiência à sombra de uma palhota com este calor?]

4. Está morto. 

5. Morreu agora mesmo?

6. Chamo o Salvadooooor, ou não merece a pena?

7. Morreu há horas e daqui a bocadinho cheira mal.

8. Chamo a Polícia Marítima ou deixo estar?

9. Trouxeram-no já morto e depositaram-no aqui.

10. Chamo a Polícia Judiciária?

Subitamente, ele moveu-se: um dedo de um dos pés denunciou-o vivo. Uma sereia cheia de pernas acercou-se dele e chamou-lhe “luz dos meus olhos”, oferecendo-lhe uma bola de Berlim e afagos vários, consolando-o de

ter sido

vacinado 

contra o vírus.

E estar dói-dói.

Reenfiei-me dentro do meu António, que há um ano carrego dentro do saco da praia — mais de um quilo de papel e penas —, e cuja leitura estou mesmo, mesmo a terminar (faltam umas penosas oitenta páginas, vá) — o que é bom, pois está a deprimir-me um nico, senão a tornar-me uma pessoa humana algo tétrica.