07/08/2021

Fim de tarde com o morto

Então, estou a chegar ao areal para cumprir o segundo turno do dia, e verifico que, no colmo destinado às pessoas com mobilidade reduzida, precisamente ao lado daquele que me calhou na rifa — e durante a manhã ocupado por três adultos e um bebé plus carrinho —, se encontra deitado um homem jovem, estático, tapado com uma toalha de praia, e com os óculos de sol colocados. Por constatação através de auto-análise e também por mo dizerem, sei que os meus raciocínios vão invariavelmente pelos caminhos mais abstrôncios, mas também tenho a declarar em minha defesa que — e repito — o senhor estava deitado à sombra do colmo destinado a pessoas com deficiência/ dificuldades várias. Por isso, o que é que eu pensei?

1. É paraplégico. [O homem não se mexia.]

2. É invisual. [Por causa dos óculos.]

3. É paraplégico e invisual. [Mas quem raio veio largar uma pessoa com este grau de deficiência à sombra de uma palhota com este calor?]

4. Está morto. 

5. Morreu agora mesmo?

6. Chamo o Salvadooooor, ou não merece a pena?

7. Morreu há horas e daqui a bocadinho cheira mal.

8. Chamo a Polícia Marítima ou deixo estar?

9. Trouxeram-no já morto e depositaram-no aqui.

10. Chamo a Polícia Judiciária?

Subitamente, ele moveu-se: um dedo de um dos pés denunciou-o vivo. Uma sereia cheia de pernas acercou-se dele e chamou-lhe “luz dos meus olhos”, oferecendo-lhe uma bola de Berlim e afagos vários, consolando-o de

ter sido

vacinado 

contra o vírus.

E estar dói-dói.

Reenfiei-me dentro do meu António, que há um ano carrego dentro do saco da praia — mais de um quilo de papel e penas —, e cuja leitura estou mesmo, mesmo a terminar (faltam umas penosas oitenta páginas, vá) — o que é bom, pois está a deprimir-me um nico, senão a tornar-me uma pessoa humana algo tétrica.

01/08/2021

Afinal, mudei de ideias: quero ir para o céu

Agosto, dia 1, no supermercado mais populoso de toda a zona Sul, depois de ter passado as passinhas da região onde me encontro — milhares de pessoas, corredores exíguos, desordem e desarrumação por todos os lados — para comprar meia dúzia de urgências (papel higiénico e pensos rápidos incluídos, que o pé aqui da princesa não se dá com areias grossas e já tem dói-dói), vejo um senhor que enfrentou a multidão de gentes de chinelos, besuntada e tatuada, “va avec maman!”, a massa humana rastejante e confusa, e até — last but not least — o vírus, para comprar…

…

…

… um pepino.

Um dia, quero ser assim. Até lá, sou apenas parte da tal massa — apesar de incomodada, deslocada, e até, que vergonha, com minúsculas lágrimas de raiva e pânico a encimar a máscara — de que tão longe me sinto.

30/07/2021

And that awkward moment # 63

em que, após ter feito a encomenda das lentes de contacto para as crias (que, em quatro, só uma saiu à mãezinha nojolhos, que coisa tão matematicamente — e economicamente também — mal distribuída), e porque as ditas demoravam a chegar ao lar, contactei o site, entabulei conversações com o responsável via telemóvel, que me explicou que uma das caixas (para astigmatismo) estava a atrasar a encomenda toda por motivos de ruptura de stock. Sugeriu-me, então, que aceitasse a substituição daquelas por outra marca, igualmente boas, eventualmente até de melhor qualidade, e eu ai que sim — após ter exposto o problema à criança — mande lá as outras. Impôs-se-me então a premente questão:

- Ó Sr. Fernando, por favor diga-me se há alguma coisa a pagar pela diferença de preço entre as novas lentes para astigmatismo e as que eu tinha encomendado.

- Ó Sra. D. [Linda], a senhora fique descansada com isso, não se preocupe, que estas que lhe enviei agora até são um bocadinho mais baratas do que as outras. 



28/07/2021

Chatos do nosso Portugal # 3

(Não sabia muito bem que título pôr a isto, então pus aquele. Mas pode ser outro qualquer, aceitam-se sugestões.)

As minhas idas àquela estação de Correios deviam ser filmadas (julgo que, por questões de segurança, efectivamente são, a questão é que eliminam os filmes — os meus filmes! — ao fim de pouco tempo, como se não se tivesse passado nada ali dentro). 

Entro, retiro a senha 146, e verifico que está a ser atendida a dona da senha 143, sendo que estão dois balcões a funcionar. Pacífico. Tenho quinze minutos para despender ali dentro, imagino ingenuamente que nem a tanto chegarei. Não posso esperar a minha vez na rua, pois está uma ventania de vários quilómetros por hora e estou com um vestido cuja saia roda como a da Rosa arredonda a saia.

A senhora da 143 — idosa e obesa — está a pagar, quando a funcionária lhe pergunta se quer uma Raspadinha. Diz que não, e, quando recebe o troco, deixa cair uma moeda de um cêntimo para o chão. Não é capaz de se baixar para a apanhar, nem acocorando, nem dobrando as costas, de maneira que se inclina para a frente e abre as pernas até ao limite, algo que considero no momento que tem boas hipóteses de evoluir para uma razoável cabeçada no solo. (Noutros tempos, a menina bem educada que me habita iria apanhar a moeda para a entregar à sua proprietária, mas é que nem me passou pelo juízo que alguém movesse uma palha por um cêntimo.) Apanha a moeda e, quando levanta a cabeça, está tão escarlate — hão-de os seis (ou talvez sete) litros ter-lhe ido todos para as orelhas — e perturbada, que penso que ainda vou assistir a uma filoxera. Mas afinal não. Não sei se do esforço, se da passagem sanguínea pelas ideias, se meramente exausta de ouvir a funcionária, muda de ideias e compra a Raspadinha. No entanto, não sabe raspar o coisinho da dita e pede ajuda à outra, que, entretanto, já lhe contou metade da história da vida dela (ou a história de metade da vida dela): que encontrou uma Raspadinha há uns dias, deitada para o chão da rua, mas que afinal tinha dez euros, e zzzzzzz. 

Eu, obviamente, já nervosa.

Nisto, entra uma terceira funcionária, de gelado Perna de Pau em punho, já meio mordido, e sem a máscara nos beiços. Ainda por cima, vinha a fazer piadas, acho que lascivas, sobre o facto de vir a chupar gelado, sorte dela que 1: o Perna de Pau era o vermelho, o original; 2: eu não ouvi o que a criatura disse. Mas lá pôr-se atrás do balcão a despachar serviço é que nicles, pois havia de estar na sagrada quinquagésima oitava pausa da tarde.

Nos entrementes, a do outro balcão atendeu duas pessoas, apesar de o número no visor se manter inalterado no 143, e vamos que eu assumi serem elas o 144 e o 145. Mal esta última saiu, avanço eu, visto que a do balcão ao lado continuava a raspar avidamente a Raspadinha da senhora obesa, enquanto lhe relatava a parte 2 da história da sua vida. E diz-me esta que havia de me atender, cheia de prosápia e soberba: "A senhora tem que aguardar a sua vez, que eu ainda não a chamei". 

Isto só para me situar a mim: mas que raio fiz eu à mulherzinha para que me tratasse assim à pedrada, só de olhar para mim? Magoei, ofendi, deprimi. 

É que esta coisa acontece-me com uma frequência tal, que começo a equacionar se não serei eu que pareço arrogante e elas sentem-se encolher derivados a isso. Estou ali, à espera da minha vez, faço o melhor que sei a minha poker face — com alguns discretos, imperceptíveis! suspiros e rolling eyes —, e depois, quando vou para ser atendida, pumba, batem-me.

Não me chamou a mim, assim como não chamou nenhuma das duas últimas pessoas que atendeu. Esta senhora é o 143, já atendeu o 144 e o 145, portanto, está na minha vez.

Furiosa, atendeu-me. Eu levei os cerca de noventa segundos da praxe — entre pagar e debitar o NIF — e movi-me dali para fora, não fossem as ventas bufar-me cinzas, ou destilar fel, ou borbulhar espuma, sei lá, para cima do vestido rodado.