20/03/2020

Hoje está a chover

O dia de ontem foi tão extenuante que nem pau para escrever tive. Esta noite dormi nove horas de seguida, coisa que não me sucedia desde que nasceu o meu mais novo, vai para décadas, assim no plural, não tarda. Tinha-me levantado, altas horas da madrugada, e feito uma aula de zumba, isto ainda antes de me lavar. Depois pareceu-me pouco e fui para a varanda dar no ferro, que é como quem diz, abdominais, braços, glúteos e alongamentos. Devo ter exagerado em alguma das coisas, que hoje sinto a excruciante. Deus me livre de tossir. Mais logo retomo a actividade física. Agora preciso de tratar do intelecto. Aguarda-me na box uma sessão de telelixo.
Entretanto, pintei o meu cabelo, era o que faltava deixá-lo encher-se daquelas nuances descoradas, mas agora sou a Elsa do Frozen, ou quê? 
À tarde fui à farmácia, mas tive o cuidado de escolher a mais longínqua do bairro relativamente ao lar, para poder desfrutar não sei de quê. Constato que os donos dos cães, que agora surgem do chão como cogumelos, são mais do que os próprios (donde se conclui que o mesmo cão é diariamente passeado, pelo menos, uma vez por cada elemento de uma casa), e também deixaram, definitivamente, de apanhar as poias dos seus animais, agora que "ninguém vê". Portanto, a mentalidade não mudou nada.
Em contrapartida, a rua cheira a rua. Cheira a árvores, a flores, a vento, a pedras agora molhadas, no lugar do aroma a combustível queimado, alcatrão e pneus. Ainda assim, não sei o que prefiro. Sou demasiado urbano-dependente para apreciar ambientes bucólicos por mais de três dias, ainda para mais a este preço.
Ao fim da tarde baldei-me a outra aula de dança* e fui caminhar (a minha companheira de corridas está desancada de um mau-jeito que deu no ballet) uns quilómetros largos, a aproveitar enquanto não me ferram em casa como se eu fosse uma criminosa. Apesar de tudo, isso ainda é menos deprimente do que sair e só ver gente mascarada e diabólica, e a fugir de se cruzar connosco como se fôssemos todos leprosos carregássemos a cruz que efectivamente carregamos. 

*@dianaxana7, não sei colocar links do Instagram, é procurarem. Esta menina merece o Mundo, está fechada em casa, a dar 4 aulas por dia em directo da sua varanda.


18/03/2020

Street

No Verão passado apareceram na minha rua dois pequenos gatos, talvez com quatro meses de vida. Nessa altura, ainda tinha a minha Mia viva, ou seja, tinha duas gatas em casa, pelo que não me passou nem de longe pela cabeça adoptar mais um, quanto mais, mais dois. De qualquer modo, achámos - porque nem sequer foi iniciativa minha - por bem deixar um pouco de alimento e água aos gatinhos, que, como todos os animais de rua, pareciam precisar. Os dias foram passando, depois as semanas, os meses, e nós sempre a deixar um bocadinho de ração, latinhas, pescada de sobras nossas (o que eles se pelam por peixe cozinhado!). Um dos gatos é preto com malhas brancas, desconheço se é um macho, mas recebeu o nome de Street, que dá para todos os sexos, enquanto o outro, tigrado com mais de duas cores, certamente uma fêmea, foi "baptizado" de Juliana (don't ask). De resto, Juliana tem vindo a engordar de tal forma que, ou muito me engano, ou qualquer dia dá frutos (Coisinha, Clavícula, Meu Óculos e Gil Prada, tudo nomes possíveis para a ninhada que se anuncia). 
É ao cair da noite, pelas 19:30, que desço à rua e vou deixar a refeição dos "meus" gatinhos. Esta era, até há pouco, uma hora sossegada, com menos gente e movimento de carros. Agora todas as horas são de um sossego inquieto, mas Street - que é muito mais fiel à refeição do que Juliana - não sabe nem sonha o que se passa no mundo, e é a essa hora que me espera, os olhos como duas lanternas acesas, metido debaixo de um carro, ali perto da caldeira da árvore onde costumo deixar-lhe o sustento. 
Espero que, sendo decretado o estado de emergência, abram excepções como em França: alguns trabalhos, compras básicas, assistência a idosos, passeio de animais e prática de desporto, desde que não em grupo. Porque eu, garantidamente, e pontualmente às 19:30, vou descer até à rua para alimentar meu Street, e, quem sabe, a sua companheira Juliana. Nem que tenha que vestir o traje desportivo, nem que tenha que alugar um cão. 

17/03/2020

Filhos sem Deus

Ainda tudo isto vai no início e já a tristeza a querer tomar conta de mim. 
(Tenho que, urgentemente, começar a fazer ginástica cá no lar. Sair à rua, neste momento, é mais angustiante do que ficar em casa.)
Nunca pensei viver estes dias, nunca imaginei o meu paraíso à beira-mar plantado devassado desta forma. O máximo que equacionei foi, remotamente, um terramoto na minha cidade. Uma guerra impossível. Um ataque terrorista improvável. Esta coisa de não sabermos para onde nos virarmos (se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come - como se diz no Brasil), por não haver um canto seguro e todos parecerem mais tenebrosos, nunca algum dia considerei. 
Ouvir que vamos ser milhares de infectados e não teremos ventiladores para todos; que a selecção se fará dos mais velhos para os mais novos - tenho medo, pessoas, tenho tanto medo. Sem motivos pessoais (porque, infelizmente, já me restam tão poucos velhinhos), mas por prever então uma espécie de eutanásia passiva. Depois dos mais velhos, quais se seguem? Os doentes crónicos? Os deficientes? Os gordos? Os pobres? Qual vai ser o critério, então?
Aqui há uns dias, que agora me parecem longínquos, num supermercado ainda sem contingentes, mas já com mais gente do que o normal para o dia e hora, passava por mim um jovem casal como outro qualquer, não fora o pormenor de serem ambos deficientes: ele empurrava um andarilho, a imperfeição das pernas desenhando um perfeito S, ela empurrava o carrinho das compras, e, a avaliar pela divergência do estrabismo e todo o semblante, muito provavelmente teria uma limitação cerebral. E foi quando ela o chamou para que desse opinião sobre um artigo, 
Oh, amor,
que senti o coração transbordante, agora num aperto doloroso. 
Porque não existe um deus capaz de seleccionar sem cometer injustiças atrozes, estou hoje a perguntar-me pelo destino deste amor, se a mão implacável, o dedo aleatório, tiver o capricho de - através daquela outra mão que dita quem vai e quem fica -, apontar na direcção de um destes dois seres humanos.

16/03/2020

A pessoa humana metida na bolha

Estou a fazer um esforço de reclusão. Qualquer dia imponho-me uma farda, um horário rigoroso de alvorada e recolhimento, autoflagelo-me caso prevarique (a mera chegada à porta do elevador, por exemplo) e crio mesmo uma solitária, para me castigar de atitudes mais rebeldes.
No entanto, anteontem fui correr para o Campo Grande (sim, eu era aquela gira dos calções pretos - comprei-os há dias e era urgente estreá-los, ainda que chovessem gatos e cães, como na Inglaterra). Ontem fui caminhar uns poucos quilómetros, dei uma volta ao Estádio Universitário (sim, eu era aquela gira) pelo perímetro mais alargado, tudo em nome do anti-ensandecimento. Não é que eu seja uma pessoa muito arruaceira, mas a ideia da clausura forçada desinquieta-me. Tenho planos para me entreter, alguns deles sem piada nenhuma a partir do dia em que dê carta de alforria à minha empregada (tipo amanhã) (é que acho que ela não pode trabalhar a partir de casa) e passe a ter que cumprir as tarefas domésticas quase todas, qual cigarra. Tenho a casa reduzida a quatro elementos (eu sou um deles), uma porque foi de Erasmus e não quer voltar agora (apesar de estar confinada a uma residência universitária e com a faculdade fechada; outra porque já foi fazer ninho para outras paragens), dois ainda a trabalhar, um a ter aulas online, isto à conclusão: quem é o sortudo do designated shopper, quem é? Ah, pois, então se posso encostar a barriga ao fogão e as ancas à vassoura, também posso ser eu a mula de carga vacuda que vai às compras, caso isto dê para o estado de emergência (que vai dar). 
De resto, tenho mantido as minhas rotinas higiénicas e estéticas, embora verifique que, ao terceiro dia, o povo já está a desmazelar-se, alinhando no fato de treino em alternativa ao pijaminha. Qualquer dia não se barbeiam nem se depilam. E não se lavam. Tipo Robinson Crusoe.
O ginásio fechou, portanto só me resta ir buscar o colchão à arrecadação, os alteres e as caneleiras e ir para a varanda gemer, isto assim que o tempo permita, que só me falta apanhar uma constipação só para chegar ao Verão fit-not-fat. Pronto, e se, por um absurdo que ainda não está fora de questão, este ano não puder pôr os dois pezinhos na areia, hei-de poder pôr na varanda. Nem que vá buscar a caixa de areia da gata, mas isto assim é que não fica. E tudo menos flácida.
Vá, pronto, também vou ler mais e ver mais filmes. Calma.