04/08/2017

Eu, que tenho a mania que sou original, e diferente, e única

chego ao pequeno-almoço comunitário, onde a oferta é tão variada que se pode começar o dia a beber ou comer quase tudo (champanhe, a sério?) (entremeada frita, mesmo?), escolho no primeiro dia um sumo de tomate, um iogurte de côco, um pão com sementes de papoila (antevendo verdejantes e rubros campos delas, florescendo, selvagens, no meu intestino), e, como se não bastasse a estrambólica escolha, que a mais ninguém vi em toda a sala, no dia seguinte há todos os sumos (cinco variedades), menos o de tomate, há todos os iogurtes (seis sabores), menos o de côco, há todos os pães (sete diferentes), menos o das minhas florinhas carmim. Tudo esgotado.
Serei uma líder, uma opinion maker, e desconheço-o?
Tenho que experimentar meter no tabuleiro um salpicão, com uma flute cheia até cá acima e uma taça de gojis com ovos mexidos.

03/08/2017

Laser para melhor lazer

Um altar a quem inventou a depilação a laser. Sinto necessidade de beijar pés, só por conta desta liberdade proporcionada não sei por quem. (Vá, e se eu não vou googlar, façam-me a fineza de também não o fazerem por mim.)
Nunca como agora me senti um homem, e está a ser bom: é vestir os trajes de banho e ala que se faz tarde para o charco, livre de preocupações menores (ou nem tanto) com pilosidades indesejadas. Longe vão os tempos de cavernícula, em que, à porta de casa ou já no areal, se me atravessava um pêlo no olhar - qual cisco, quase me fazendo chorar -, e isso era assunto bastante para dobrar as tormentas por horas, enquanto durasse a permanência, já que um único pêlo, esquecido/ignorado pela lâmina/máquina/pinça/cera, tresmalhado do grupo a que pertencia, escapado à morte a que condenara os irmãozinhos, era coisa para me arrasar os nervos e o dia de veraneio. Quanto mais vários pêlos. Um tufo. So-cor-ro, nem me quero lembrar. E depois, aquela sombra do pelinho nascituro, a saga do pêlo encravado, a frequência com que era preciso dedicar-me à transformação de mãe Eva em Gisele Bündchen, toda essa contratempice acabou, graças ao Senhor Laser.
No entanto, e por acaso, isto sem qualquer base científica - como tudo o que profiro para aqui -, acho que a depilação a laser só foi inventada no momento em que os homens começaram a arrancar os pêlos deles. Foi certamente em homenagem (não mulheragem, vêem?) a eles que surgiu o ditado 'A necessidade faz o engenho'. Isto que disse agora e o que vou dizer a seguir, enquadra-se no meu sector machista, ou sei lá se apenas controverso: nós, mulheres, somos dotadas de um espírito de sacrifício e abnegação, que nos levaria a suportar mais não sei quantos séculos de tortura depilatória, até, na melhor das hipóteses libertárias, criarmos um no shave qualquer e regressarmos à peluda origem. Aliás, não fora os homens terem começado a viver sozinhos e a sentir necessidade de preparar as suas refeições, e o micro-ondas estaria por inventar, e nós estaríamos de barrigas coladas a um fogão (a carvão.) (A pedras friccionadas.) Ou agarradas a um tanque de roupa. Ou a bater claras em castelo com um garfo. Tudo por causa do tal espírito.


02/08/2017

É preciso tão pouco para me fazer feliz # 9

Estar longe dela e, vá, no estrangeiro, e, mesmo assim, encontrar uma pequena referência que nem na própria algum dia vi à venda.


Apesar de, logo no dia seguinte, ir dar com isto, no exacto lugar onde pus os pés. (Que grande lata.)
Ainda diz a outra que "Não há coincidências".
Que las hay.
[Quando chegar a Lisboa, vou procurar uma lata de Lepe. Mas já me contento com uma de Huelva.]


01/08/2017

Estou nas miras

Há muitos anos, éramos nós duas petizas, e estávamos hospedadas num hotel com os nossos pais. Ali se encontrava também uma família, com uma constituição em tudo semelhante à nossa: pais e duas filhas. No entanto, eram espanhóis.
Não sei se é verdade que as crianças têm uma linguagem universal através da qual se entendem, mas sei que travámos amizade com as duas hermanas d'el pays hermano, mesmo sem pescarmos nada do que elas diziam, sequer um jaquinzinho. E elas devolviam-nos exactamente na mesma moeda, apesar de, na altura, usarem pesetas e nós escudos. E apesar de termos fronteiras.
Não sabendo sequer os nomes delas, mas tendo percebido que, ao mínimo chamamento de "Mira!", elas olhavam, assumimos então que Mira era o nome próprio das nossas amigas de Verão, ainda que fossem irmãs. Tão-pouco estranhámos o facto de elas se chamarem Mira uma à outra. E era "Mira!" para trás e "Mira!" para a frente, com sucesso garantido.
Até que um dia, ao avisarmos o nosso pai de que íamos brincar com "as miras", e questionadas por ele sobre qual era o nome das meninas, foi diante das nossas respostas - "Mira"; "E Mira" -, que ficámos a saber que apenas tínhamos aprendido, e estado todos aqueles dias a usar e abusar do imperativo do verbo olhar.
Pergunto-me se as espanholitas não disseram aos pais que nós nos chamávamos "Olha e Olha". Mas nunca mais deixei de referir-me às mulheres espanholas como "as miras".