27/10/2018

Agora que já cortei as unhas dos pés

lavei o cabelo, arranjei e pintei de vermelho as unhas das mãos, a depilação está em dia (sempre, graças àquela clínica que abre portas porta-sim-porta-não, como as p. em Olhão), personalizei a minha t-shirt (estavam à disposição números do xxs ao xxl, vesti o xs, que era enorme, mas trouxe o S, para ir folgadinha, e cortei-lhe parte das mangas e o fundilho. Porém, desta vez, não recortei o decote. Vai assim mesmo, púdica, quase gola-alta), falta-me apenas dormir uma noite inteira, tomar um banho para acordar a beleza — toda aquela que há em mim, desde o interior até ao infinito e mais além, aquecer bem os tornozelos e os joelhos (não com saquinhos de água quente, mas uma coisa deste género, embora não tão levada à risca, pois não terei oportunidade — nem quero, já que tenho uma imagem a defender e isto não é o da Joana — de fazer grandes agachamentos na zona de partida, menos ainda de me virar de rabo para Meca, hossana nas alturas), colocar o chip no téni (na organização disseram-me que é dentro do sapato, qual pedra, debaixo da palmilha — devem querer-me a coxear, as maganas —, mas o manual de instruções manda pôr debaixo dos atacadores e é onde eu vou botá-lo. Note to self: no pé esquerdo, que o direito é mais pesado, e, assim, contrabalança), maquilhar-me um mínimo (olhos, olhos, olhos, muita pestana, para a autoestima, senão já sei que desmoralizo e paro antes da meta), e só não digo que pretendo percorrer os cinco quilómetros da corrida qual Flo-Jo, porque salvo seja três vezes, lagarto, lagarto. 
Entretanto, neste último mês, não treinei nada, corri só uma ou duas vezes, dancei muito mais do que é costume, não cuidei especialmente da minha alimentação nem me proporcionei hábitos mais saudáveis, mas acho, ainda assim, que vai correr bem — literalmente. 


26/10/2018

Mãos de ladrão

Não sei se foi da esquina onde ele me abordou - onde já outro, em tempos, me havia vendido uma pulseira de plástico "para ajudar as crianças... [e a mãe parva que me habita não ouve mais nada, hipnotiza no termo "crianças", numa aflição sem reflexão para encontrar no porta-moedas a nota verde]" -, e, portanto, terei, mental e automaticamente, riscado aquele passeio do meu mapa de compaixão, ao descobrir, pouco depois, que a pulseira era apenas uma pulseira, sem valor estimável sequer naquela república popular asiática; não sei se foi do tempo que ele falou, que me deu tempo a mim de o observar com olhos de ver; não sei se encontrei, mesmo sem procurar, algumas incoerências em todo o discurso; não sei se é o meu coração que está a endurecer à medida que a carne amolece. Não sei do que foi, mas, desta vez - apesar de por pouco -, não caí na astúcia de quem me interpelou, "Boa tarde", e, não satisfeito com a devolução do voto, "Estamos aqui a fazer um inquérito às pessoas, não demora nada, é só um minuto, e muito obrigado por me estar a escutar". À minha resposta "Tenho pressa, por favor, não demore", sai a afirmação que pode ter sido a fatalidade no propósito dele: "Estamos a pedir às pessoas uma ajuda para as crianças [terá a ver com a minha cara?] com autismo". Ali fiquei um ou dois segundos, debatendo-me com a minha incapacidade de compreender a relação entre um inquérito e um peditório. "A senhora conhece alguma criança com autismo?" [e quem não?], mas foram as mãos dele que me disseram do logro: magras, descarnadas, ossudas, um pequeno e já envelhecido jornal numa delas, emparelhado com uma revista publicitária ainda embalada, a outra mão num tremor ansioso, branca, lisa, embora limpa, mãos de ladrão, pensou o meu coração empedernido. "A senhora tanto pode ajudar comprando a nossa revista, como ajudar com qualquer coisa". "E quanto custa?", a pedra a tentar entender a dimensão da audácia, "São cinco euros", já eu tinha desviado o olhar das indubitáveis mãos para os olhos, encovados nas órbitas proeminentes, cristalinos de um mar de Verão, azuis como as águas traiçoeiras do Pacífico, mas só quando lhe pedi a identificação como voluntário e ele respondeu "Nós somos voluntários da paróquia, não trazemos identificação", é que me caíram definitivamente as ilusões, fazendo-se em mil cacos aos meus pés e atingindo os dele. Devolvendo a todo aquele azul dois tições, afiancei, apenas: "Não."

24/10/2018

Vá, cosmos, diz lá o que é que queres dizer-me

Era uma vez eu, que, num gesto de profundo narcisismo e amor próprio, adquiri uma pequena medalha alegórica ao meu signo do zodíaco, que é, como não poderia deixar de ser, Escorpião. Lá no meio, muito bem colada, estava uma pedra azul, nem de propósito. Fora amor ao primeiro clique, voara para a loja na ânsia de a possuir, dera o coiro e o cabelo por ela (e mais me pedissem, que também teria dado), pendurei-a da carótida, colada à jugular, há dois meses, e nunca mais a despendurei. Passámos sessenta e tal dias a dormir juntas, a tomar banho juntas, a mergulhar no mar e na piscina juntas, a suar juntas, todo um romance que até enjoava. E, se calhar por isso mesmo, ou apesar disso, a pedra da medalha soltou-se e desapareceu sem deixar rasto.
Entristecida, porém munida do certificado de garantia, fui reclamar ao mercador que ma vendera. Que sim, que me punham pedra nova, porém talvez tivesse que a pagar, e beca-beca. Então está bem, eu ainda vou procurar a pedra, respondi sem convicção, pois que a dita tinha o exacto tamanho da cabeça de um alfinete e já havia desaparecido há quase vinte e quatro horas, tendo eu atravessado montanhas e vales nos entrementes. 
Chego a casa, ponho-me assim nos meus pensamentos, estática, de pé, "por onde é que vou começar?", olho para o chão e 
(oh, pá, ninguém vai acreditar...)
(que se lixe, arrisco.)
lá estava ela.

Pergunto-me-vos, então:
1. Essa cena da agulha num palheiro é para meninos, pois é?
2. Tenho uma vaca do genital? Muuuu.
3. Tenho olhos de lince?
4. A pedra tem o tamanho de uma rocha, eu é que vejo mal e não sei, afinal tropecei nela e estou para aqui com coisas?
5. A probabilidade de isto voltar a acontecer é para aí de uma num milhão, não? E convenhamos que não devo sequer ter um milhão de dias pela frente.
6. Será que isto invalida probabilidades quanto a ganhar o Euromilhões?
7. O ditado "Quem procura acha" não estará desactualizado, em se tratando de pessoas como eu?
8. Devia tornar-me mística? Medium? Cartomante? Investigadora criminal?
9. O facto de ser Escorpião tem alguma coisa a ver com isto?
10. O facto de a pedra ser azul determinou todo este desfecho?

22/10/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 16

Que me dou ao trabalho de consultar o mapa das lojas nos shoppings desta vida, por me considerar incapaz de decorar o lugar de todas as lojas de todas as grandes superfícies, e, ainda assim, me desoriento?


Horrível. O coisinho diz "Você está aqui", e não consigo perceber onde estou (menos ainda quem sou eu, para onde vou, o que faço aqui, etecetera). Olho e reolho, miro e remiro os desenhos das lojas que me envolvem, estudo discreta, porém minuciosamente, a área envolvente (tanto no desenho como na realidade, aparentemente virtual, em que me encontro), e não atino onde exactamente estou eu. Suponhamos, e isto sem quaisquer intenções publicitárias, mas a mero título de exemplo, que vejo a Zara à esquerda na realidade, mas ela está à minha direita no mapa. Já experimentei pôr-me de costas para ele, precisamente para "colocar" a loja mais próxima do lado que acho que é o correcto, mas é que nem assim. Para já, deixei de ver o croquis, e só isso já me baralhou um nico. Logo a seguir, a loja "real" continuou no mesmo lugar, a do desenho também, e eu toda torta, perdendo a lateralidade, o ponto de referência, a direcção e as estribeiras. Já equacionei socorrer-me da aplicação do Google maps, mas tenho um medo que me pelo daquela senhora que começa quase todos os textos por "Seguir para oeste". Ora, como não possuo uma bússola incorporada, não sei para que lado é oeste, e, mesmo que me digam que a loja fica a jusante, só quero chegar à porra da perfumaria, que, eventualmente, estará a montante. Então, acho que só pode ser para trás, embora o boneco diga que é para a frente. Lá sigo o meu destino, que é perder-me, lá constato que me enganei no rumo que tomei, ou alguém fez de propósito para me enganar, lá volto para trás, ou para a frente, tudo depende do ponto de vista/de partida/cardeal, e aquela que procurava encontra-se exactamente no extremo oposto ao que dizia o mapa, ou me dizia a minha cabeça, ou não dizia em lado nenhum. Isto se, entretanto, enquanto eu percorria o corredor todo, não se tiver mudado de armas e bagagens para o outro lado. Ou simplesmente desaparecido, como outro dia com a Partyland. Puf, eclipse total do mapa. E do radar.