Querida gata:
Escrevo-te esta carta sabendo que nunca a lerás, pela circunstância de seres analfabeta e, previsivelmente, assim permaneceres até todo o teu sempre. Mas preciso de dizer-te algumas coisas e dá-se, do meu lado, a contingência de não saber falar a tua língua, embora já vá entendendo a tua linguagem. Por esses dois motivos, espero que percebas, pelo menos, uma pequena parte do tanto que tenho para te dizer.
Não começo como deveria, perguntando-te como estás, por ser esta uma pergunta retórica, e por, cobardemente, não querer ouvir uma resposta vinda de ti. Eu bem sei como estás, se calhar melhor do que ninguém. Não é fácil envelhecer, nem tanto por vermos o nosso corpo a mudar - o que a ti, como gata, nada deve importar -, mas por nos sentirmos, a pouco e pouco - e uns dias mais do que outros -, a perder a vontade, o viço, o brilho, e, com ele, o brio.
Bem queria dizer-te, 'Nós por cá, todos bem', mas não consigo. Falo por mim, que não estou nada bem, desde que foste operada. Vejo-te mais magrinha, mais quieta, mais triste todos os dias. Não percebo como é que envelheceste tanto em tão pouco tempo. Eras tão pequenina quando nos chegaste, e agora continuas pequenina, mas de outra maneira. Sabes, já assisti a esse "processo" em pessoas, mais recentemente na pessoa que me deu a vida e a luz, e continuo sem perceber como é que os dias passam mais cruelmente para uns do que para outros. Sei que sou tola e ridícula se te disser que já vi esse mesmo olhar perdido e desistido, mas vi, e reconheço-o a uma grande distância, precisamente por não me estar assim tão longínquo.
Como sabes, as idas ao veterinário têm sido repartidas pela família toda, já que somos tantos, e, assim, vamos aos dois e dois. De alguma maneira, não somos muito diferentes daquele casal cigano que, outro dia, na loja dos animais, se queixava que a sua tartaruga tinha uma coisa branca nos olhos e, diante da solução, que passava por lhe colocar um colírio todos os dias, a mulher gritou, "Aaaaaai, a tartaruga está cegaaaaaa!". Nós somos assim, vamos contigo e parecemos ciganos aflitos com a sua tartaruga. Ou pais recém brindados, ansiosos no pediatra.
Tirámos-te o vestidinho que te impedia de ser gato hoje de manhã, e receio - para além de todos os meus outros receios -, que tenha posto demasiadas esperanças nessa mudança. A outra tola, jovem e anafada, mal sentiu o cheiro dele (que é o teu), pôs-se a bufar. Haja paciência para quem já criou quatro pessoas, ainda ter que equilibrar forças, territórios e ciúmes entre gatos. Mas, para além de te ter visto ires comer as minhas flores - três vasos raquíticos no parapeito da janela da cozinha, que as flores não se dão comigo - e teres saltado para a janela do quarto das meninas - onde ficas a mirar os carros, as pessoas, os pássaros, não sei se por esta ordem -, não te vi fazer mais nada que me diga que estás a recuperar e que me sossegue o coração.
Quero que melhores, e rápido. Já te dei demasiados dias para começares a arrebitar. Isto não é só um desejo, não é mais uma ordem daquelas minhas ("Ai, ai, ai, não me comas as flores!"), é um imperativo categórico. Melhora primeiro, e eu depois explico-te o significado disto. Logo a seguir, podes voltar a ser brava e soberana, indiferente e não-me-chateiem. Eu deixo. E quero.
Recebe um abraço não muito apertado, para não magoar esses ossinhos todos. (Agora até parece que são mais do que eram antes.) E um beijo nessa barriguinha rapada.
Da tua, permite-me, mas algo de muito parecido com
(Segunda) "Mãe".
Não começo como deveria, perguntando-te como estás, por ser esta uma pergunta retórica, e por, cobardemente, não querer ouvir uma resposta vinda de ti. Eu bem sei como estás, se calhar melhor do que ninguém. Não é fácil envelhecer, nem tanto por vermos o nosso corpo a mudar - o que a ti, como gata, nada deve importar -, mas por nos sentirmos, a pouco e pouco - e uns dias mais do que outros -, a perder a vontade, o viço, o brilho, e, com ele, o brio.
Bem queria dizer-te, 'Nós por cá, todos bem', mas não consigo. Falo por mim, que não estou nada bem, desde que foste operada. Vejo-te mais magrinha, mais quieta, mais triste todos os dias. Não percebo como é que envelheceste tanto em tão pouco tempo. Eras tão pequenina quando nos chegaste, e agora continuas pequenina, mas de outra maneira. Sabes, já assisti a esse "processo" em pessoas, mais recentemente na pessoa que me deu a vida e a luz, e continuo sem perceber como é que os dias passam mais cruelmente para uns do que para outros. Sei que sou tola e ridícula se te disser que já vi esse mesmo olhar perdido e desistido, mas vi, e reconheço-o a uma grande distância, precisamente por não me estar assim tão longínquo.
Como sabes, as idas ao veterinário têm sido repartidas pela família toda, já que somos tantos, e, assim, vamos aos dois e dois. De alguma maneira, não somos muito diferentes daquele casal cigano que, outro dia, na loja dos animais, se queixava que a sua tartaruga tinha uma coisa branca nos olhos e, diante da solução, que passava por lhe colocar um colírio todos os dias, a mulher gritou, "Aaaaaai, a tartaruga está cegaaaaaa!". Nós somos assim, vamos contigo e parecemos ciganos aflitos com a sua tartaruga. Ou pais recém brindados, ansiosos no pediatra.
Tirámos-te o vestidinho que te impedia de ser gato hoje de manhã, e receio - para além de todos os meus outros receios -, que tenha posto demasiadas esperanças nessa mudança. A outra tola, jovem e anafada, mal sentiu o cheiro dele (que é o teu), pôs-se a bufar. Haja paciência para quem já criou quatro pessoas, ainda ter que equilibrar forças, territórios e ciúmes entre gatos. Mas, para além de te ter visto ires comer as minhas flores - três vasos raquíticos no parapeito da janela da cozinha, que as flores não se dão comigo - e teres saltado para a janela do quarto das meninas - onde ficas a mirar os carros, as pessoas, os pássaros, não sei se por esta ordem -, não te vi fazer mais nada que me diga que estás a recuperar e que me sossegue o coração.
Quero que melhores, e rápido. Já te dei demasiados dias para começares a arrebitar. Isto não é só um desejo, não é mais uma ordem daquelas minhas ("Ai, ai, ai, não me comas as flores!"), é um imperativo categórico. Melhora primeiro, e eu depois explico-te o significado disto. Logo a seguir, podes voltar a ser brava e soberana, indiferente e não-me-chateiem. Eu deixo. E quero.
Recebe um abraço não muito apertado, para não magoar esses ossinhos todos. (Agora até parece que são mais do que eram antes.) E um beijo nessa barriguinha rapada.
Da tua, permite-me, mas algo de muito parecido com
(Segunda) "Mãe".







