27/06/2026

Forasteiro

Descia a rua em curva no carro que já é um elemento da família, meu querido boi, quando vejo, no sentido contrário, surgir um homem pequenino, mochila de entregas às costas, numa bicicleta hesitante, aos zigues e aos zagues em plena curva, justamente na subida, uma roda a falhar, o homem a transformar-se num S com a bicicleta, sempre agarrado a ela, depois a fazer-se uma espiral com ela, nunca a deixando fugir, até que caíram os dois como se um corpo só. Na bicicleta, não percebi o que é que aconteceu — pneus carecas, chuvinha molha-todos, óleo na estrada, cansaço do pequeno homem —, nele vi um cotovelo bater na estrada e, como sempre, não pensei. Travão de mão, motor desligado, porta aberta e lá fui, empurrada não sei por que forças, pois que não sou médica, nem enfermeira, nem bombeira, nem sequer sei prestar segundos socorros, já que dos primeiros tenho uma ideia vaga. "Ajuda, ajuda, ajuda", acerquei-me dele para o levantar do chão, um homem antecipou-se, eu "O braço, o cotovelo, eu vi...", mas o pequeno homem não falava uma única palavra de Português — certamente também não de Inglês —, só dizia "No, no, no", enquanto abanava a cabecita em negação e depois juntava as mãos em oração e a inclinava para a frente. Quis ver o braço dele, articulei-o, não estava partido, mas o casaco que o abrigava era um mar de buraquinhos no cotovelo, não sei se daquela, se de outras quedas. "Não lhe dói?", ele com as pequenas mãos juntas, agradecido, eu a perceber que sim, que doía, mas não o braço, somente a miséria da imigração ilegal, de mais aquela queda, da impossibilidade de ir a um hospital se necessitasse, de eu ter visto os buraquinhos do casaco dele. Montou a estafada bicicleta e continuou o caminho incerto, interrompido ali.