30/11/2014

As mulheres partem-se

Não tem quem a visite no hospital. Está ali há cinco dias, que só não lhe parecem mais por estar tão baralhada. Eu entro e chama constantemente por mim. "Ó menina!". Quer que lhe tire os pulsos que a prendem à cama. Explico-lhe uma, duas, dez vezes por dia, que não trabalho ali e não posso soltá-la. "Ó donzela!", "Ó senhora, não me chame donzela, que eu não sou isso há muitos anos", "Olha lá, vamos lá a conversar as duas, vens aqui e tiras-me isto ou não?", "Olha lá, e agora tratas-me por tu porquê? Andámos juntas na tropa, não?", "Como é que te chamas?", "Isabel" - minto-lhe. Da vez seguinte posso dizer "Patrícia", depois "Vanda", que ela engole tudo. Vou começar a fazer o que faço no Starbucks ("Gisele Bundchen", "Priscila", "Paulão") -, "Isabel, tira-me isto", "Não tiro. Sossega".

Dou a mão à minha mãe. Arranjei-lhe as unhas e ficaram lindas. Aquelas mãos curaram pessoas e salvaram vidas. Agora estão sem carne, cheias de nódoas negras, mas, ainda assim, lindíssimas. Bem seguras nas minhas, não quero rezar, não quero, porque se começo a rezar é sinal que perdi toda a esperança e não quero, não rezo, mas ouço-me a pensar "Não ma leves. Não precisas dela para nada, tão velhinha". Sento-me ao lado dela e fico entre duas camas. A mão da outra estende-se na minha direcção e diz-me:

- Dá-me a mão.
- Não dou.
- Não dás porquê?
- Porque eu digo sempre que não a tudo.
- Porquê?
- Porque sim. - contradigo-me - Foi a minha primeira palavra. "Não".
- Dá-me a mão.
- Não.
- Porquê?
- Porque não quero ficar ligada a ti.
- Porquê?

Já não a podia ouvir e dei-lhe a mão. Fiquei com as duas mãos dentro das duas mãos das duas desgraças mais magras daquele piso. Dizem uma da outra: "Tão magra! Parece uma criança!". Diz o roto ao nu. Não posso ligar-me a mais ninguém ali dentro. Aprendi agora que a ortopedia dos hospitais está cheia de senhoras de idade. As mulheres partem-se, no final da vida. A nossa natureza é tão ingrata que, depois de darmos fruto, perdemos a razão de existir e desfazem-se-nos os ossos. No quarto ao lado esteve uma que gritava e se despia. Eu, como sou uma artista, achei que ela tinha um peito bonito. Não vi a velhice nem vi a demência. E nos dias seguintes, até ter alta, fui vê-la. Qualquer dia fico lá, e não quero. "Não".

Entra o auxiliar novinho que as trata a todas por "querida". Digo-lhe: "Pareço um Cristo". "Pois parece". Vá que não me tratou por querida. 

Errei, com toda a certeza, alguma porta nesta vida. Devia estar fechada todo o dia num convento, a rezar e a fazer o bem. Acabaria os meus dias beatificada, certamente. Podem não acreditar, mas eu acho que dava para santa. Até a figura se presta. Porém, deixam-me à solta. E dá nisto. Assim, não pratico a bondade nem me deixam ter sossego. 

Olha lá, ó lá de cima: eu disse boa. Boa. Boazona. Não disse boazinha. 


29/11/2014

E, no entanto, há o mar ☼

lá ao fundo. 


E há um sol, hoje, dentro de mim.

~

Aquela tristeza toda mata-me. Ontem levei-lhe perfume e perfumei-a. Foi a única vez que a vi sorrir, nas duas horas que estive com ela. Dei-lhe almoço, comeu o nada de sempre, e teve sempre os olhos cheios de lágrimas. Hoje levei-lhe flores. Ela gosta de flores. Não saio a ela, que eu não gosto de flores. Muito lindas, muito delicadas, muito cheirosas, muito paradas. Chatas. Nunca mais quero sentir o cheiro do velório do meu pai. Flores. Então não há anormais que não gostam de animais? Eu sou a anormal que não gosta de flores. Estive mais tempo com ela do que ontem e, se calhar por isso, arranquei-lhe dois sorrisos. Quando entrei e lhe mostrei as flores e quando a voltei a perfumar. Mais nenhum. Ficámo-nos a morrer, uma à frente da outra, ela naquela tristeza, eu sem mais nada que a fizesse sorrir. Já não sei que macacada inventar para a fazer sorrir só mais uma vez. Amanhã levo-lhe verniz e pinto-lhe as unhas. Já faço aquele percurso de trinta quilómetros de olhos fechados, só para ver os dela, nem que seja assim, cheios de lágrimas.

28/11/2014

Que lindo chapéu preto

Soube pela Uva, ontem, e agora já está em todo o lado. Meu Alentejo querido.

Alentejo. E vem-me à cabeça, sempre, e em primeiro lugar, o meu avô Francisco. Eu sou a única pessoa que conheço cujos avôs tinham nomes normais. Ninguém se chamava Apolinário. Ou Jacinto. O meu outro avô era Rodrigo. E ambos nasceram no século XIX.

O meu avô Francisco usava chapéu preto e essa memória põe-me sempre a cantar "Ai, que lindo chapéu preto, naquela cabeça vai, mas que lindo rapazinho para genro do meu pai". E, quando vejo um rapazinho mesmo bonito, digo: "Mas que lindo rapazinho, não para genro do meu pai, porque eu já tenho idade para ter juízo". O cantar alentejano é assim, em coro só de homens, de braços dados, de camisa branca e chapéu preto, um cantar morno e bem pausado. Compassado.

Em miúda, via o anúncio do Porto Sandeman, com o homem da capa negra, e achava que aquele era o meu avô. Só uma criança é que faz uma confusão imensa destas, porque o meu avô do Porto era o outro, que eu nunca conheci, mas que toda a vida me fez falta e andava estampado na tristeza dos olhos do meu pai, de cada vez que falava no pai dele. Mas, para as crianças, a geografia ainda é uma imensa incógnita e colocar a figura do avô alentejano num vinho do Porto do avô do Porto era o raciocínio mais lógico que só quem nunca foi criança é incapaz de entender.

O meu Alentejo é o Alentejo do frio assassino no Inverno e do calor insuportável no Verão. De não se sair da lareira num e de não se sair de casa no outro. A chapa do sol dá uma pancada na cabeça que se vê tudo prateado, quando está calor. No Alentejo, ainda vi muitas crianças descalças. Ainda vi crianças com sapatos abertos à frente a canivete, para servirem mais uns meses. Não são os alentejanos que são lentos. A vida, no Alentejo, corre com outro fuso horário. Morna e bem pausada, como o cantar. Compassada.

Foi no Alentejo que corri até bater com os calcanhares no rabo. Foi lá que me enfiei por um lago pantanoso, depois de uma dessas corridas, em que ia despindo o vestido à medida que corria. Vá que me descalcei. Largávamo-nos a correr, a outra e eu, e íamos ensurdecendo aos gritos de "Ó meninas!", à medida que corríamos. Sorte aquele pântano ter chão. Escorregadio, mas seguro. Senão, tinha-me lá enfiado, só de cuecas - era mesmo direitinha, despia tudo, mas deixava sempre as cuecas - e já não saía de lá, a não ser transformada numa estátua de barro. Também foi lá que aprendi a nunca comer azeitonas pretas que não estivessem retalhadas e temperadas com orégãos, a não provar de outro azeite que não aquele, a saber distinguir o que é açorda e o que são migas, a pôr hortelã na alface e a entender o cheiro do mosto como o de um perfume, onde mergulhava, primeiro as mãos, depois até aos cotovelos, e, quando iam dar comigo, já tinha os braços enfiados até aos ombros no alguidar com o tempero das azeitonas. E uma perna alçada para meter lá o resto do corpo.

Alentejo é Páscoa, por ser uma época mais importante que o Natal, são apelidos de alcunhas - Calhau Branco, Perna Seca, Vaquinhas, Borracho, Bonito -, são nomes bonitos - Mariana, Margarida, Artur, Bernardo, Manuel, e sempre, desde sempre, Francisco -, são oliveiras a perder de vista, é um padre que, em novo, se entusiasmava durante a homilia, corria pela nave e chorava - e um dia espetou o rabo nas lanças das grades de uma estátua. Eu a vê-lo recuar para orientar a manobra do andor, e as lanças mesmo no caminho do rabo dele, ele a recuar e ah, o senhor prior espetou-se nas lanças, e a cabra da criança, vestida de branco para a procissão, viu e não avisou, mas se não era muito mais engraçado ver o padre a sangrar do rabo do que evitar que ele o espetasse?, até parece que adivinhava que um dia ia ter um blog e ia lá contar o feito de ter ficado calada na hora H e ter, de alguma maneira, contribuído para que a missa chorada entrasse em modo de pausa por uns tempos.

Alentejo é também terra de gente triste e desiludida, vestida de preto e destituída de sonhos. Dizem os especialistas que a monotonia da paisagem não ajuda, a emigração dos jovens também não, mas eu acho que é coisa da alma, e eu, que só tenho doze das vinte e quatro costelas de lá, ainda assim consigo perceber essa tristeza que nos assalta e corrói de vez em quando, muito embora os meus pais tenham tido o cuidado de me conceber, fazer nascer e criar à beira mar.

Alentejo é mãe. Mãe. E tenho tanto medo de me perder dela outra vez que, cada vez que penso nisso, fico tão vestida de negro e tão destituída de sonhos como qualquer alentejano dos sete costados.


27/11/2014

LP também não mente






Hã?
Só xtaile, até de chinelinho. Cubanas *

* ninguém me paga para isto.



Parece fácil, não é? 
Não é.

Mg não mente # 2

Calma, mi crido. Quem é que te anda a chamar mentiroso? LP explica o que se passa nos bastidores deste abnegado estúdio.

De facto, eu consumo legumes como uma vaca. Já disse isso aqui vezes que cheguem. Qualquer dia, tenho que mudar o nome do meu buraco, só à custa da insistência no assunto. E gosto de pepinos, que posso fazer? E que culpa tenho do raio da forma deles, que parecem uma banana? As salsichas também parecem, hom'essa.

O escriba anda a desafiar-me. Subestima o facto de eu ser uma pessoa com muita idade e de hoje estar um dia péssimo para tirar retratos à porta da mercearia. O Avelino já não me pode ver, sempre lá metida, agarrada aos pepinos. Outro dia escolhi um que achei maneirinho e o técnico industrial da legumeira pegou nele, atirou-o para o lado e disse: 

- Este não, que está murcho.

Ora, isto não se faz. Ninguém melhor do que eu para saber escolher os meus pepinos. Aquilo, acreditem, é a fonte da eterna juventude. E não é só dessa maneira que as meninas conhecem - as rodelas em cima dos olhos, para descongestionar olheiras -, tem mesmo que ser comido. Vão à wikigaita e confirmem, que eu não sou vossa mãe e não posso fazer tudo. Mas a sério: o pepino, das duas, uma - ou atrasa o envelhecimento cutâneo, ou inibe a capacidade ocular, e as pessoas humanas do género feminino nem vêem o que se passa no espelho. Sei que, comigo, resulta. Mas vai a receita: comam todos os dias. Uma vez por semana, ou mesmo duas, não faz nada pela alegria das vossas peles.

Desta forma, venho aqui declarar, mais uma vez, que Mg não mente. Apenas procrastina, e tudo por minha culpa. Hoje estou demasiado pouco sensual para ir à mercearia, pelo que me limito a apresentar aqui um dos muitos exemplares que tenho em casa, como prova do que afirmo. Amanhã há reportagem. Hoje deixem-me cá andar a arrastar os chinelos por casa, que a PDI não perdoa.

Passou ali uma porca no momento em que eu ia tirar o retrato, mas o pepino vê-se bem.
E sim, os chinelos são as p. das Cubanas. Lindas. As p.

26/11/2014

Sabem o que vos digo?

Eu hoje não me apetece escrever. Já fiz rascunhos de posts, já escrevi uns e apaguei-os, outros amandei-os para o rascunho, só ainda não ferrei um granda coice no computa porque sou uma Porca e não uma mula. E burra, enfim, há dias. E hoje não é um.

Já escrevi sobre a senhora que conheci hoje, deitada numa cama de hospital, aos gritos com as enfermeiras, a bater em tudo o que apanhava - eu um dia, não quero, mas vou ser assim, ainda mais velha, e bato em quem me apetecer só com a desculpa de ser velha e estar meio avariada da marmita - a arrancar os tubinhos do nariz e, mal elas viraram costas, lançou mãos aos tubos da algália e gritou: "Socorro! Ó da guarda! Acudam-me!". Então eu agarrei-lhe a mão dos tubos da algália e pus-me a conversar com ela. Ao cabo de alguns minutos, pareceu-me ter acalmado. No entanto, ainda bateu na auxiliar que lhe foi dar almoço e lançou uma perna fora da cama para dar um pontapé na outra gaja que estava no quarto, de visita à mãe dela e que tem cara de má. A mim deu-me a mão. Depois passou o resto do tempo que lá estive a chamar por mim. E eu redigi mentalmente uma declaração, dirigida ao mundo, a implorar que não me deixem chegar àquele ponto. A sério. Abatam-me a tiros, mesmo que eu esteja de costas. E de rabo para o ar. A apanhar florzinhas. A fazer o bem. Zagalote.

Puxa, não posso pôr um pé na rua, que tenho logo que adoptar tudo o que é desgraça. Pareço a Nossa Senhora do Amparo, mas em gira. E boa-zinha.


Estão a ver? Isto, mas com um corpão e um manto mais féch. E uma expressão facial de santa, nada deste semblante hipnotizado.

Por falar nisso, também seleccionei uma data de fotografias, a ver se mudava a minha imagem de perfil. Ando farta daquela cigana a transpirar sensualidade. Um cheirete. Mas fico muito indecisa. A Venus do Botticelli não podia ser morena? Essa dava, não sei que raio tinha o senhor na cabeça para lhe ter pintado o cabelo daquela cor. Falta de tinta castanho avelã. Ou castanho cocó, também tinha servido.

Também podia vir aqui espetar com uma música e que se lixe a cena do post diário. Mas nem isso posso fazer. O que me anda agora na cabeça são só poias, tipo "Única mulher" do Anselmo Ralph, por isso nem me esforço a ir ao youtube copiar o link. Eu tenho uma imagem a defender.

Ou vir aqui pôr um mantra que inventei hoje, mas nem para esse tenho gás. É péssimo.

Estou farta de chuva.


25/11/2014

Já que tanto insistem...

Tenho que lhe dizer que mande a empregada lavar a varanda. Ela não merece este cenário urbano-depressivo.



Saborosos momentinhos

Como é que eu hei-de relatar isto sem que pareça que se passou comigo? Ah, já sei: relato na terceira pessoa. Querida terceira pessoa: és tão boa.

Ela foi ao hospital ver a mãe, muito velhinha. Ela própria é idosa, a mãe teve-a aos 40 anos, pelo que, somando esses 40 à idade dela, que é assim que se fazem as contas para se saber a idade da mãe, aquilo dá uma fortuna só em anos. Para piorar - ou melhorar, depende da perspectiva -, a mãe aparenta ter mais dez anos do que tem na realidade e ela menos uns oito, vá. Assim sendo, é normal que se gere confusão quanto ao número de gerações que as separam. 

Entra um voluntário giro no quarto e refere-se à mãe dela como "a sua avó". E ela, gentil, giríssima, mas habituada à confusão desde pequena *, esclarece: "Não é minha avó, é minha mãe. Teve-me muito tarde...". Ele pára o que está a fazer - a dar almoço a outra senhora, não é fofis? - e fica a olhar para ela, pasmado. Abre tudo - pelo menos o que está à mostra - olhos e boca, eventualmente a fazer contas e a tentar perceber se há umas décadas atrás já era possível uma mulher ter filhos aos 60. Não era, e ele sabe isso, mas percebe-se a incredulidade dele na expressão e na postura. Ficou estático. E ela ali, à espera que aquele momento acabe, mas, ao mesmo tempo, a saboreá-lo. E acabou da melhor maneira, quando ele se acercou do ouvido da mãe dela e disse, alto o suficiente para todas ouvirem: "Tem uma filha muita gira!".

Contou-me ela que hoje volta lá e leva o vestido de animal, inspirado na doce Gloria. Capaz de lhe pedir para tirar um retrato para pôr no blog, já agora.



Se esta história se tivesse passado comigo, ao menos agora podia terminar dizendo qualquer coisa do género: Linda Porca a espalhar charme vai para cima de décadas.
Assim, relato a vida das outras e já vou com sorte.

~

* esta história que sirva de referência às meninas que estão à espera dos 40 para terem filhos. Uma coisa é uma pessoa sentir que tem 20 anos, outra é tê-los.

24/11/2014

Preconceito de salto alto


A minha Preta é um mulherão enorme e lindo, que faz aulas de dança e, por ser enorme e linda, e por lhe correr nas veias aquele sangue do samba e, talvez há muitos séculos, africano também, é a melhor aluna de kizomba, o que faz dela uma pessoa incómoda. Ainda por cima, fez a desfaçatez de ficar com o rapaz mais bonito da turma, o que a há-de, muito justamente, ter transformado num alvo a abater. Assim, as outras discípulas da mesma matéria, com muito menos pinta mas, em compensação, muito mais perras, quando se referem a ela, chamam-lhe "a brasileira" e também vão dar o recado, a quem sabem que lho pode transmitir, que não percebem como é que ela aguenta uma aula inteira de salto alto. 

Aquele manancial de conhecimentos sobre a raça que ela é disse-me assim: "Eu já sofri preconceito por ser negra, já sofri preconceito por ser mãe solteira, já sofri preconceito por ser mulher, já sofri preconceito por ser estrangeira. Agora, por usar salto alto, é a primeira vez".

E eu fiquei a pensar que este povo só é fingido e faz de conta que não é preconceituoso, e está tão mal educado no sentido de ser moderno e evoluído a aceitar a diferença (como eles próprios dizem), e recalcou tanto os seus pré-conceitozinhos que agora, sempre que vê e se vê obrigado a conviver com uma pessoa de outra raça, de outra opção ou de outro país, arranja um mecanismo qualquer para sublimar a sua aversão e encontra defeitos que possam "justificar" a crítica sem que ninguém lhe aponte o dedo de racista, homofóbico, sexista ou xenófobo. Frustrados da merda. Os psiquiatras têm o consultório às moscas, à espera deles.

Também é este estilo de pessoas que pede em amizade o objecto das suas raivas no facebook. A minha Preta tem-nas lá todas penduradas, à espera.

Agora sei o que sente um totó e pelo que passa nas autoestradas desta vida

O meu carro teve um stroke na autoestrada de Cascais, à ida para lá. De repente, começou a desembraiar, a desmaiar, a morrer na estrada. Vá que não sou muito aventureira e ia na faixa do meio, a não muito mais que 120. Mas, com o carro a solavancar, a querer parar, o tablier a acender mil merdinhas (aquela encarnada que tem um sinal de exclamação no meio da bola e a outra que parece uma lâmpada mágica, fora os apitos, piiiii, piiiii), tive que me agarrar aos tomates (e ao volante) e pensar com força "Não quero morrer, pá!", desviar-me para a faixa da direita e ligar os 4 piscas. Parar é que não. O meu boi estava num ponto em que, baixando para quarta, abanava, para terceira, parecia uma centrifugadora, em segunda parecia um touro mecânico. Fui devagar, mas mantive a quarta, e fui atenta, a ver se ele não se lembrava de entrar em autocombustão, como aquelas pessoas. Cabrão do boi.

No regresso é que foi bom. Meti-me logo na faixa da direita e fiz o caminho todo a 80 km/hora. Assim uma coisa em bom. Por mim passaram carros de 1980, camionetes da treta que já deviam ter ido para a sucata há duzentos anos e carros de merda em geral. Só faltou mesmo um Dona Elvira. E uma Zundapp Famel, mas, para ver isso, talvez tivesse que ter bebido parte da gasolina do boi.

Irmãos em segundo grau

Tenho a certeza que já aqui falei vezes suficientes do Primo.

Tenho vários primos. Muitos, mesmo.

Mas tenho um, em particular, que não se conforma em ser só primo. Não sei se quer ser - ao invés, ou cumulativamente - sobrinho, filho, ou algo mais sério. 

Saltei fora do chat no dia em que me cansei de brincar aos pais e às mães, porque eu fazia sempre de mãe e ele de filho. Então, o Primo fez-me uma poesia.

(Sou uma besta. Não me façam poesias. Nem me dêem flores, que eu passo-me)

Gosto muito de flores. Gosto de gerberas. É porque não são frágeis, não têm um cheiro intenso como as rosas, nem são muito bonitas. Nem são feias, é aquilo e pronto. Parecem desenhadas por uma criança. Olho, pétala, pétala, pétala, todas iguais umas às outras. Mas não mas dêem. Isso irrita-me.

E poesias. Que nervos.

Apesar da sinalética que pus no chat, agora aparece-me o Primo a dizer que se vai divorciar.

Divorcia-te. Não chateies. Vai cagar à mata. Nós somos primos. Irmãos em segundo grau. Olha para mim e pensa: "Morta". Adeus.

23/11/2014

Mamma

Isto passou-se com outra pessoa, que eu sou uma cabra insensível e não sou capaz de sentir coisas bonitas para além dos momentos em que me olho ao espelho. Só está na primeira pessoa, que é para facilitar o discurso.

Entro no quarto sem saber o que vou encontrar, com o coração a saltar pela boca de medo-medo, que é aquele medo igual ao que sentimos quando somos pequenos e nos perdemos da mãe. Eu perdia-me constantemente da minha mãe, e não percebia qual das duas era a distraída, se ela, que me perdia, tão pequena, em todos os lugares onde íamos juntas, e que eram muitos, e muitas vezes, ou se era eu, que ficava a saltar à macaca nos ladrilhos que inventava na rua e nas alcatifas dos armazéns, ou simplesmente a pasmar por ter tido uma grande ideia a meio do zero, e me perdia dela. Aquilo provocava-me um medo tão grande que passei a segui-la à cão por todo o lado, agarrada à saia dela, uma vez até me meti dentro do provador com ela, distraí-me a mirar-me ao espelho e, quando me virei, já a tinha perdido outra vez, foi tão trágico, dei o primeiro grito que dava sempre, "Mããããããe!" e depois sentei-me no banquinho a asfixiar de tantas lágrimas, a sentir-me outra vez órfã e abandonada, mas que raio, devia ver filmes da Disney a mais. Punha-me a chorar, sentidíssima, "Perdi a minha mãe...", e chorava sem gritos, toda sufocada, "Não sei da minha mãe...", porque considerava aquela situação profundamente irremediável. Não sei explicar como, a minha mãe nunca perdeu a outra, só me perdia a mim, o que me leva a crer que a estabanada devia ser eu. E hoje lá fui, atravessada pelo pânico de a perder, a ouvir aquele grito tão familiar mas já tão longínquo, "Mããããããe!", "Perdi a minha mãe...", e ouço-a, num fio de voz velhinhíssima, "A minha filha! A minha filha adorada! A minha filha mais bonita!", no exacto momento em que já só me apetecia chorar a orfandade que já sinto há anos.


22/11/2014

Dormi muito, dancei mais

Acordei às 9:20, sendo que queria estar no ginásio às 9:30.

Estava estremunhada, o que não ajudou muito. Mas pensei assim: "Equipo-me em cinco minutos e ponho-me lá noutros cinco".

É que não aconteceu.

O raciocínio lógico é das coisas que me leva mais tempo a despertar e nunca sou grandemente inteligente nos primeiros minutos do dia. Depois é que desabrocha a sumidade do costume.

Ontem ainda fui meter-me numa aula chamada Total, sem saber ao que ia. Ia desgraçando o meu dia de anos, com a mania que sou jovem aventureira e destemida. Total é... total. Salta, corre, vira e dobra, tudo em segundos. Diz a doida para mim assim no final: "Gostei do teu sorriso a aula toda". Sabe lá ela que se me paralisaram os músculos da cara todos logo no início, e fiquei assim, como podia ter ficado de trombas. Calhou o sorriso. Valeu-me uma granda sushada a seguir, mas depois, está claro, arrochei no berço que deu gosto. Mentira, deitei-me tarde, daí ter acordado tarde.

Por isso, Pilates adiado para a aula das 11:30 e Dance às 12:30. Pilates com a monitora do soalho pélvico não me preenche. Saio com a sensação que não fiz nada. Prefiro o professor que me/nos põe em franguinho e abusa (só) da minha generosidade. Para a semana ponho despertador, e nem que vá para lá catar remelas, é à aula dele que vou e acabou-se. Deve ter ficado tão perdido hoje, coitadinho.

Dance é bom. As minhas bases são antigas, e depois tive aulas com o melhor bailarino-instrutor, senão desta cidade, senão do país, pelo menos do mundo: David Vilela, que eu amo. Se eu sei alguma coisa de dança, a ele o devo. Se não sei mais, falha minha. Ele é assim top.



Os vídeos não lhe fazem justiça, isto são meras noções de step e aeróbica. Ele é melhor do que isto.

21/11/2014

Hoje é o meu dia, genitais!



São 84 tão bem lançados, e, agora que penso nisso, acho que nunca fui disléxica. Cá bacalhau às meninas, abraço apertado aos meninos. Para todos, aqui fica a minha Casa dos Segredos, ou tudo aquilo que eu poderia levar lá para dentro e fazer de mim um mega sucesso de nível cósmico. Eu disse cósmico. Com S. Assim, como não me querem lá, ponho nos vossos ombros a responsabilidade de acartarem comigo e minhas confissões mais íntimas. Só hoje, que eu sou uma babe. O resto do ano, vou continuar a ser aquela antipática convencida, que não levanta o véu nem para beijar o noivo.

Eu já...

alimentei um gatinho a biberon (de noite, também - duas, três da manhã, cinco da manhã, quando tem fome. E são muitas vezes) * cortei as unhas aos meus passarinhos e às minhas gatas (com corta-unhas) * parti a cabeça vezes sem conta, a última das quais já adulta (contra um sinal de trânsito - a andar no passeio. Não percebo como é que ainda articulo duas palavras seguidas sem me babar entre elas) * fiz festas para 30 (em casa, em que não cozinhei, e acabei o dia morta de cansaço) * cozinhei para 10 (e acabei a noite feliz e tranquila) * parti um braço (e fiquei feliz por me porem um gesso) * me atirei para uma piscina para salvar uma pessoa e íamos morrendo as duas (o pânico dela fê-la agarrar-me o pescoço - nunca bebi tanta água) * tive um acidente de carro (metida num Lancia Y 10, em que fiquei a dois dedos de testa de esborrachar a minha debaixo de uma DAF de 18 toneladas - e saí ilesa) * dei sangue (muito - quase meio litro de cada vez. Muitas vezes) * fechei os meus pais no quarto, à chave, e não abri nem passei a chave por baixo da porta (a ideia não foi minha, fui só cúmplice; a outra era pior do que eu) * fiz o funeral a um passarinho caído no passeio * fui operada vezes sem conta (e sou talvez a pessoa mais saudável que conheço - precisava de arranjo, todo o avião avaria) * fui abandonada e abandonei * não tenho nenhum dente do siso (chiu. Os outros 28 estão cá todos) * desisti (descrédito ao ditado Água mole em pedra dura... - não é verdade, a p. da pedra é dura e pronto, estúpido é quem Dá murros em pontas de facas) * tirei três pessoas do mar, duas de uma só vez (mas não conta para salvar uma vida - eram vidas que, se o mar mas levasse, teria que me engolir a mim também) * tive medo de seringas e passou-me; tive medo do quarto escuro e bati no homem que me fechou lá dentro; tive medo da doença numa pessoa querida e tratei de a tratar; tive medo de saltar de um mega-escorrega num aquaparque e atirei-me; tive medo da montanha russa e meti-me lá dentro * estive tão perto da morte que a febre me deu para dançar na sala de cirurgia, à volta da mesa de operações, "Estou tão bonita, tão bonita..." (vestiram-me uma bata linda e que me ficava a matar, o que é que esperavam?) * fui primeira namorada * fui primeiro beijo * fui primeiro amor * fui primeira morada, alimento, colo e abraços para sempre de uma multidão * menti descaradamente; menti subrepticiamente; menti sem querer * chorei no aeroporto * chorei por não estar no aeroporto * ri até perder o oxigénio todo na cabeça e quase perder os sentidos * ri até deixar de sentir as bochechas e até me doer a barriga e o peito * desmaiei nos braços de um médico giro * fiz uma pessoa desmaiar (por lhe ter rebentado uma borbulha) * ouvi piropos bonitos ("Abençoada a mãe que teve esta filha"), ciganos ("Levavas cá uma nalgada"), porcos (passo, vocês sabem. Os verbos fazer e meter conjugados no presente do indicativo e no pretérito imperfeito), confusos ("Que par!" - de...?), africanos ("Dá uma chance!"), idiotas ("Oi, garota, você é real?"), mais idiotas ainda ("Não é da televisão que a conheço?"), médicos ("Portou-se como nem muitos homens que aqui me aparecem"), e interesseiros ("Quer me conhecer melhor?" - à porta do arquivo de identificação, africano desesperado pela aquisição da nacionalidade) * chumbei, fui despedida, fui encornada, fui descartada, fui subestimada, fui insultada, fui mal interpretada, fui humilhada (mas caguei, mais tarde ou mais cedo) * caguei, literalmente, no Casino de Vilamoura (nem precisei de me sentar - estava num apartamento que tinha a sanita entupida há três dias. Façam a experiência)  * fiz chichi em pé, para perceber por que é que não dava (e molhei os soquetes e os sapatos) * bordei, fiz cortinados, fiz fatos de Carnaval, fiz casaquinhos de bebé, fiz o melhor almoço de Natal da minha vida * tive vontade de mandar tudo à merda * mandei tudo à merda * voltei atrás * bati com a porta da minha casa (literalmente) * gritei com uma pessoa dentro da casa dela (não batesse no miúdo daquela maneira, à minha frente) * espreitei a uma porta (e vi o que não queria ver) * andei de bicicleta sem travões, ravina abaixo, a velocidade descontrolada, e continuei a pedalar * me atirei para um pântano e enchi-me de lama até ao pescoço * corri na rua, só de cuecas * fumei cigarros atrás de cigarros até ao dia em que me fartei (e nunca mais, há 19 anos) * apanhei uma bezana tão grande que me deitei na cama a ver o quarto a girar (e chamei o gregório) * fui atacada por um tarado (duas vezes - não era o mesmo tarado, nem foi no mesmo lugar. E perdi a valentia, das duas vezes) * tirei o soutien a conduzir (as guidas pedem liberdade e eu dou-lha) * fui estúpida, bruta, despropositada, excessiva, injusta * pedi desculpas sinceramente; pedi desculpas só para não ter que me chatear * perdi dinheiro, perdi coisas boas, perdi oportunidades, perdi boas oportunidades para ficar calada * perdi a vergonha de pedir trabalho (sobretudo quando é para os outros) * perdi uma pessoa querida e achei que morria de desgosto no dia seguinte * perdi uma criança e achei que morria de tristeza no próprio momento * perdi a cabeça * morri de amores * me apaixonei estupidamente (pela pessoa errada, pela pessoa improvável, pela pessoa impossível) * chorei de prazer * amei sem ser amada (e isso dói mais que um corno espetado no cú - mas é bom, ao contrário do corno espetado no... pá, porque cresces, ´tás a ver?) * fiz danças latinas e africanas * cantei num palco * dancei num palco * dancei kuduro em público (com mais 50 pessoas, em flash mob  - todos certinhos, sem ensaio, nem termos combinado. Foi tão bonito) * ganhei um 5 no Totoloto e 4 números no Euromilhões (mas quero os 5 + 2) * insultei um homem no meio da rua, cara-a-cara com ele (ninguém o mandou tratar mal uma senhora à minha frente) * tive um pesadelo recorrente (que durou anos e anos, e que resolvi... realizando-o) * tive vergonha de pertencer à raça humana (de todas as vezes que estudo a História dos últimos cem anos e de cada vez que abro o Correio da Manhã) * fui vaca noutra encarnação (só isso explica a quantidade de vegetais que ingiro por dia - à mesa, pasto. Quem partilha uma refeição comigo, apascenta - mas não acredito na reencarnação) * fui sonâmbula (toda a infância - e não gostei. Mas também nunca me atirei de uma janela) * pedi aos céus com tanto fervor que adormeci de joelhos, de cabeça e braços pousados na cama * sonhei com uma coisa que aconteceu mesmo, logo na manhã seguinte (mas não acredito em premonições - coincidiu) * quis morrer no abraço de uma pessoa * dancei a valsa em cima dos pés do meu pai * entrei na igreja vestida de branco (duas vezes - espero que não haja terceira) * cortei o meu próprio cabelo, até fazer peladas (e não, não estava deprimida nem alienada - estava farta de um penteado ridículo e tinha 4 anos. E apanhei a sova da minha vida - assim espero) * fiz cirurgia plástica * fiz a espargata * cometi todas as gaffes que dez pessoas podem cometer ao longo de várias vidas * disse mal de uma pessoa a ela própria * abri a porta a um vizinho com o camiseiro desabotoado até à cintura e disse: "Desculpe, estava ali a treinar..." (estava a passar a ferro e tinha calor, tá? Quem manda tocarem-me à campainha quando lhes apetece?) * tive vontade de morrer, de forma extremamente dramática, embora nunca tenha decidido ao certo qual * corri à frente de um ladrão * fugi de um incêndio escada abaixo * fugi de casa numa idade em que ainda não chegava aos botões do elevador (e não me ocorreu ir pelas escadas) * fugi de casa numa idade em que o mais longe que consegui ir foi, numa corrida, até à praia * perdi a conta a quantos rapazes beijei na boca (esta é para aí a revelação mais sexual, fora as outras todas, desta lista - mas que quereis?, tive ali uma fase, em miúda, em que trocava de namorado com uma frequência avassaladora - era ainda mais gira do que sou hoje, não chegava para as encomendas, catano - e havia que beijá-los a todos) * fui tão magra quanto a Sara Sampaio (e detestei. Em vez de aparecer ao mundo em cuecas e soutien e ganhar dinheiro à custa disso, a inteligência não me chegou para tanto e preferi tornar-me empregada doméstica) * tive piolhos (tinha 39 anos) * catei uma cabeça (mais do que uma, vá) * deixei a meio (um livro, um filme, uma conversa, um relacionamento) * tive todas as doenças infantis possíveis e imaginárias, apesar de vacinada (difteria e toxoplasmose incluídas) * acabei um curso * levei fitas a benzer dancei num baile de finalistas * fui para a praia com o fato-de-banho do avesso (e andei assim todo o dia) * fui trabalhar com a etiqueta de papel pendurada, do lado de fora de um vestido novo (e andei assim todo o dia) * abanei um portão em sinal de protesto (e, quando a autoridade me pediu dados sobre a manifestante, descrevi-me, dizendo que ela já tinha fugido) * dei boleia a desconhecidos (de todas as vezes que houve greve dos transportes. Apanhei-os na rua e enchi o carro de gente) * apaguei um comentário no meu blog (don't ask) * fui madrinha de baptizado de uma criança * chorei a morte de uma figura pública (Lady Di - quando vi as flores dos filhos, e o cartão "Mom". Sei lá se foram as hormonas) * me meti num elevador tão cheio que ele desceu até bater na base (e gritei "Parem de me apalpar!" no escuro em que ficámos todos) * interrompi um trabalho intensivo, percorri os quilómetros que me separam do mar, mergulhei e voltei para o batente cheia de sal, areia e genica * fui apanhada a roubar moedas para ir comprar pastilhas (e, por isso,) * tive que dizer "Isto não é o que parece" * patinei até não sentir o rabo * fiz sku até não ter rabo (depois nasceu-me outro, que isto é como os dentes. Caluda) fui à Eurodisney * acreditei em Deus acreditei no Pai Natal, em fadas, em bruxas e no lobo mau acordei de manhã, olhei-me ao espelho, e pensei: "Tanta sorte numa só pessoa!" * acordei de manhã, olhei-me ao espelho, e pensei: "Ainda bem que não estão a filmar" * fiz listas bem mais absurdas do que esta.


Eu nunca...

aprendi nada com as minhas perdas * salvei uma vida (e isso frustra-me) * saltei de pára-quedas (mas é a primeira coisa que faço no dia em que o médico me diga que tenho 3 meses de vida) * fiz bungee jumping (idem) * estive em coma (mas já me pareceu impossível acordar de uma anestesia geral - e não foi bom) * comentei como anónima num blog * movi uma palha para prejudicar alguém * pesei mais que 69 quilos (mas não era só eu a contar na balança) * pesei menos que 3,200 quilos * saí da Europa (e nem sei se quero) * quis ser bailarina (quase todas as meninas querem um bocadinho, algum dia na vida...?) * plantei uma árvore (a que plantei, não nasceu - os cães fazem demasiado cocó no canteiro onde pus a semente: de diospireiro, pois se era para pedir, que fosse em grande) * escrevi um livro (o que escrevi não conta - guardei-o numa gaveta, nem as traças se interessam por ele: é acerca das minhas 69 - o número anda atrás de mim? Xô, que isto é um buraco digno, de família, p'ra casar, decente! - aulas de condução. Leram bem) * conduzi um camião (mas queria, um daqueles a sério, os maiores autorizados pela UE, com 40 toneladas - nem que fosse em linha recta, num autódromo... outra mania que vou ter que resolver no dia em que o médico me venha com o renhonhó) * fiz Lisboa-Caparica e Caparica-Lisboa em primeira (é certo que, nesse dia, odo uma caixa de velocidades - mas realizo esta fantasia, de ir assim, devagarinho, a esticar a primeira, a irritar dezenas, quiçá centenas de pessoas, em calhando as mesmas que me irritam a mim diariamente) * bebi até cair (foi aquela de o tecto se transformar em carrossel, mas só caí na cama) * fiz chichi de tanto rir * li o diário de ninguém (e há uma pessoa que mo confia para eu o guardar - sem chave) * fui roubada * roubei (mas tentei - e fui apanhada. Mas era só cúmplice, como sempre. As outras duas eram piores do que eu. Só queríamos pastilhas, santo Deus, qual é o mal? Pastilhas, pá... tamãe...) * caguei na mata * fui mal educada com um professor * fui à bruxa * fui ao psiquiatra (nem ao psicólogo - nota-se muito?) * consegui ler o livro, ver o filme ou contar a história d' O meu pé de laranja lima sem chorar * fui loira (só uma vez é que o processo químico correu mal e a praia ajudou à desgraça) * fui gorda * fui madrinha de um casamento (não me querem para madrinha - não sabem o que perdem) * senti inveja de ninguém (e até gostava, só para saber como é que é, mas, nestas condições, não é possível) * praxei ninguém * fiz parte de uma tuna * fiz mal a uma mosca (só melgas) * fui vítima de bullying * fiz bullying a ninguém (só ao Carlinhos Salsicha, mas éramos tão amigos que não conta) * me quis matar * fumei à frente dos meus pais * fumei em jejum * andei a cavalo * votei "em consciência" * me droguei (duas brocas não contam) * me apeteceu outra mulher * me peidei fora da casa-de-banho (desde os 10 ou 11 anos. Assumam: eu sou uma senhora - eu nunca me peidei e acabou-se a merda da conversa já aqui) * tive prisão de ventre nem caganeira copiosa (mau. O que é que eu disse? Mas é verdade, e eu hoje estou aqui para esventrar a verdade até só saírem secreções) * bati em alguém sem ter apanhado primeiro * me esqueci de nada realmente importante * fiz uma tatuagem * percebi as regras do baseball (não percam tempo a tentar, mas gradjicida, viu?) * percebi o truque de serrar a mulher ao meio e ela não morrer em palco (então se os pés mexem naquela caixa e a cabeça mexe na outra... mas, mas...) desejei a morte a alguém * adoptei uma criança (mas vou) * morei à beira-mar (mas vou) * atravessei o Canal da Mancha (mas vou) * aprendi sapateado (mas vou) * aprendi italiano (mas vou) * consegui distinguir muito bem algumas cores (o azul e o preto, por exemplo - mas sei que os meus olhos não são azuis. E sei que o azul é a minha cor - quando tenho dificuldades, pergunto nas lojas: "Qual é a saia azul? É que eu quero levar a azul". Ou leio na etiqueta "blue". Simples) * surfei uma onda (é sempre no ano que vem - para o ano é mesmo, tem que ser antes dos 90) * fiz topless * fui ao cinema sozinha * fiz filhoses * fiz pezinhos de coentrada :P * dormi uma noite a fio * andei de ambulância * gostei do meu curso * decidi se fico com aquele Deus * deixei, verdadeiramente, de acreditar no Pai Natal (vocês é que não sabem nada e depois a maluca sou eu) * acreditei em horóscopos (sei que sou Escorpião - e sinto-me Escorpião. E isso é perturbador) * me arrependi dos disparates que fiz * me vou perdoar não ter visto aquela criança nascer * me vou perdoar não me ter despedido do meu pai * me vou esquecer do abraço dele * fiz uma viagem de avião que durasse mais que três horas (é que sofro de aerodromofobia e entro em euforia - não queiram viajar comigo. É muito animado, mas não é bonito) * deixei de enjoar de carro (melhorou quando passei para a frente, melhorou mais quando passei a conduzir, mas até a conduzir enjoo, se o caminho tiver mais curvas que eu) * pensei que fosse possível uma mãe... * fiz uma lista tão comprida e inútil.







Eu não disse já que não me levem ao supermercado?

Se é para me deparar com coisas destas,



e ficar a pensar, mais vale não ir. Não queimo o neurónio sobrevivo.

(Já agora, não concordo. Se me calhasse este saquinho na sorte, riscava a palavra "não")

Mensagens subliminares em sacos para ofertas de Natal?

Então, também sugiro estas:

Numa subliminar alusão à posição de missionário (só explico esta, mas já me cansei. A partir de agora, estão por vossa conta. Eu não posso fazer tudo)



Vejam lá se se lembram de mais algumas, que a porra do Natalinho, ou passa a ser uma caturreira animada até ao ano novo, ou então é a pasmaceira do costume.

19/11/2014

Ponham-se no meu lugar. Eu estou em constantes encruzilhadas.

A minha Preta querida quer oferecer-me, por ocasião do meu aniversário, extensões de pestanas. É um procedimento caro e chato, que exige paciência, para o qual eu não estou preparada, nem para enfrentar as sessões de manutenção que se seguem. Anos houve em que fazia unhas de gel, e só o meu cardiologista conhece a fundo as consequências daquelas duas horas, de três em três semanas, lima a unha, pinta a unha, põe a mão no forno, espera, lima a outra. Depois, felizmente, unha de gel e gaja de Chelas passaram a sinónimos no dicionário da língua portuguesa, o que me resolveu o assunto garras.
Agora, pestanas? [suspirei profundamente]

Eu tenho boas pestanas. Nem outra coisa seria de esperar de mim. Tudo em bom.

E não quero pôr extensões nas minhas. 

Não quero ficar parecida com a traveca de Almada, com pestanas até ao cú.



O que é que eu faço? Por uma vez na vida, sede-me sinceros:

1. Aceito a oferta e corto as pestanas em casa;

2. Aceito a oferta, mas tenho um ataque de nervos antes de mas colarem, de maneira a assustar a técnica, para ela desistir de mas colocar?

3. Aceito a oferta e ando semanas de óculos escuros, até mesmo em casa, até mesmo a dormir?

4. Aceito a oferta e pico cebola. E choro, choro, choro, até aquilo cair tudo?

5. Aceito a oferta e cago nisso, ando umas semanas com cara de traveca, para variar?

6. Aceito a oferta, não cago nisso, aquilo fica-me maravilhosamente bem - é que equaciono fácil e seriamente esta hipótese -, ando com aquilo enquanto durar e não chateio mais?

7. Não aceito a oferta e ela fica triste - isso eu não quero, que esta minha minha bondade estende-se ao interior e o meu espírito de abnegação não conhece limites?


18/11/2014

Eu também expilo mantras, ó qu' é que pensam?

Criticada que fui - que fui -, por ter um (diz que é tasco) buraco a resvalar para o desinteressante,  e uma vez que de bola quase só sei que dava o corpo às pedras pelo meu Benfica e que o Artur me inspira vontade de lhe dar tau-tau - mas parece que temos mais em comum do que sermos ambos belos, que é não pescarmos um boi daquilo -, e porque de política, actualidades e cenas que interessam a toda a gente, não pretendo maçar-vos, resolvi inaugurar uma secção subordinada ao tema "Os meus mantras", que mais não é senão o refluxo - nem tanto o reflexo - de frases soltas, normalmente deslargadas por mim aos sete ventos, aos sete véus, à sétima onda, mas nem sempre ao sétimo dia. Falece, desta forma, o coiso cujos títulos eram "Deslarguei esta frase #", que eu já não sei onde é que enfiei, mas de que os mais antigos deste prazeroso lugar se devem lembrar. Se não, não se ralem, que eu também não. O importante é que os meus mantras são, não só de superior qualidade, porque contêm imagens absolutamente palmadas da nety, misturadas com frases originais, arrancadas dos meus intestinos (não quis pôr entranhas, mas saiu giro, não saiu?), mas também verdadeiras inspirações para o dia-a-dia de cada um. Cada um, escusas de agradecer. Inspira(-te) e cuidado ao expirares. Nem todo o ar sai por cima, e a blogosfera está farta dessa conversa.

Portanto, para hoje:


Hã?

Já vos arrumei.

De nada, pá. Eu sou assim.

A propósito de comidas fálicas

:P 
post escrito a pedido.
(e um pouco sob ameaça)
(mas não patrocinado)

Ontem passei à porta de um sítio onde trabalhei. Estive mesmo para lá ir dar um beijinho à minha ex-chefe. 

Também vi o carro dela no estacionamento. Estive mesmo para agarrar na chave de casa e personalizar-lho.

Estúpida.

Mas que falta de sentido de humor. Acho que foi isso que me sufocou naquele lugar. Foi um alívio quando ela correu comigo.

Uma vez levei uma banana para o meu almoço. A banana desapareceu da copa e eu perguntei para a geral (que era só de mulheres - o que também me sufocava -, daí o feminino na pergunta):

- Quem foi a macaca que comeu a minha banana?

Então esta frase ofende alguém? Até é um bocadinho sexual e tudo... 

O putedo riu todo muito. 

Pois, a besta sai lá da toca dela e rosna: "Fui eu! Queres que te compre um cacho?"

Totalmente parva.

- Não. Basta que fixes que me ficaste a dever uma banana.

Pá, não sei porquê, acho que foi a partir desse dia - em que, repito, a minha chefe comeu a minha banana - que ela nunca mais gostou de mim. Eu vivo crivada pela espada da injustiça.

17/11/2014

A Baixa não é lisboeta

Já ontem tive esta sensação: uma pessoa desagua na Baixa e deixa de se sentir em Lisboa. Não há local mais heterogéneo, em toda a cidade, do que aquele. Nacionalidades, raças, etnias, credos, culturas, só não tanto idades. Há poucas crianças - quase só as dos turistas - e adolescentes. Quando se faz um percurso a pé, desde os Restauradores até quase ao fim da rua Augusta, passa-se por centenas de pessoas, desde as que estão paradas sem fazer nenhum - há muitos pedintes e também desocupados, ou aquilo não fosse downtown  - até às que andam para ali, sei lá a fazer o quê. 

Trabalhei ali durante uns anos, e acabei habituando-me àquele registo. Mas agora, mais de um ano volvido sobre o virar dessa página, encaro a Baixa com o mesmo distanciamento com que encarava antes de trabalhar ali. E é curiosa (preconceituosa, maníaca ou tão só realista) a sensação, uma, duas, cinco vezes repetida, naqueles 700 metros para lá, e depois nos outros 700 para cá, de estar a ser seguida, umas vezes mais de longe, outras de tão perto que, se parar o passo de repente, me cai a pessoa em cima das cavalitas.

E o pensamento recorrente:

"Queres-me a mim ou queres-me a mala?" (claro que vocês leram isto depressa, seus destravados. E depois a Porca sou eu).


Da série "Só a mim não me saem empregos destes"

José Gabriel Quaresma, TVI 24

"Morreu a bebé, que lutava contra a vida no Dubai"

"A Geni e o Gui, que são os pais..."

(Notícias, 09:00 h, 16.11.2014)

Tudo na mesma notícia, com segundos de intervalo uma da outra.

Vou-me abster de comentar a notícia propriamente dita. Mas o esclarecimento de um pormenor é importante: o peso médio do bebé, às 25 semanas de gestação, são 650 a 870 gramas. A Gui nasceu com 380. Muito lutou ela. Grande Guerreira.

Tenho a cabeça vazia

Não consigo pensar em intelectualices. Só me saem destas. Ontem parti em busca desta saia da H&M:



Já a tinha visto em preto, embora no site já só apareça a vermelha, mas eram todas L e XL. Mesmo olhando para a L, pensei que a M me deveria estar grande, e não me enganei. Fui confirmar numa das H&M da Baixa que, embora me vestisse, o M ia-me sempre bailar na cintura. Fui descobrir a vermelha, tamanho S, noutra loja, e a preta, em XS. Trouxe a preta. E agora lamento não ter trazido a vermelha.

Como sempre, em todas as minhas indecisões, entre a hipótese A e a B, fico com A e B e decido em casa de qual gosto mais. Naturalmente, vou gostar sempre das duas. Vou buscar a vermelha hoje. Minha menina, está mesmo a pedir pela mamã.

Prova do M. Está largo, creiam na minha palavra.

15/11/2014

As outras fazem listas do que querem para o Natal

Já eu, faço do que quero para os meus anos. 

Está quase.

Só tenho um problema estratégico, que é o seguinte: quem me compra não é quem me lê. Não sei, portanto, como fazer-lhes chegar a minha lista.

Na verdade, a minha lista compõe-se, apenas e tão só, por estas boazonas:



Ou estas:


Ou estas:


Ou então, estas, prontoS:


Todas Cubanas, todas lindas, todas caras, as p. E quaisquer umas vão fazer fariam de mim a gaja mais potente da minha rua, que só tem três prédios. Em dias bons, do bairro inteiro. 

E, no fundo, eu sinto que tenho um dever cívico de fazer os meus vizinhos felizes.

Encontrei os vossos comentários desaparecidos

O blogger guardou-mos - môr lindo, cá abracinho apertado. Ai, espera, não tanto... deslarga... porco!
(abusador do caneco. Dá-lhe a gente uma mão - olha aí a cacofonia - e ele já a agarrar-nos pelas orelhas)

Bom, já publiquei tudo. E continuo o meu percurso para atingir o nível do génio informático.

14/11/2014

KUrdash invadiu meu chat

Linda Porca
mas ao pé do da Kardash, [o meu] é um rabo normal




Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
ao pé da Kardash é pequeno....



Linda Porca
é traumaticamente diferente
caiu um dos meus pilares quando vi aquilo
afinal os cus não são todos iguais


Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
pois não...


Linda Porca
eh pá, mas eu achava...



Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
tu és uma Bambia


Linda Porca
será que Kardash tem medo?



Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
medo?
de quê?

Linda Porca
quem tem cu...



Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
lolol
ela deve viver aterrorizada



Linda Porca
podes crer
a paranóica


Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
a maluca



Linda Porca
cheia de fobias




Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
por aí



Linda Porca
ainda assim, eu acho que se:
1. Eu pusesse silicone, como ela
2. Me photoshopassem o traseiro, como fizeram ao dela
                 3. Eu besuntasse o meu com óleo Johnson’s, como ela fez...
                 ficávamos parecidas



Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
porra
tu ficavas mais gira
que ela é feia



Linda Porca
:)
não estou a falar de caras, mas de cus



Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
não sei é se ela siliconou a peida

honestamente, não sei



Linda Porca
ela tem cara de cu, na verdade
tu estás a dar-me um post de mão beijada




Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
eu sou assim
uma mãos largas...



Linda Porca
antes as mãos que o cu




Milene, contabilista (sou a que faz a caixa lá no salão)
Lol



Linda Porca

:D