E não vos digo "Decidam vocês", porque vou decidir eu.
Também não vos pergunto se se lembram desta, porque fui eu que a inventei, e é óbvio que não se podem lembrar de uma coisa que saiu da minha cabeça. (E não é caspa, eu lá sou disso). Hoje vou poupar-vos ao quão espectacular é o meu cabelo e quão maravilhosa é quase toda a minha produção intelectual, uma vez que me encontro em dia de retiro espiritual, alguma contenção ao nível de uns quantos pecados capitais, com vista a dar largas a outros, e, pasme-se, alguma modéstia. Que isto de ser isto é um fardo tão pesado que, soubesse eu o que sei hoje e era menina para ter suplicado, de joelhos, ao criador (olha aí a imagem mental, genitais!), que me fizesse feia e gorda, estúpida e bruta no gesto e modo, pois seria, de certeza, esse o meu ponto de encontro com a paz de espírito, a minha viagem ao Tibete, o meu Taj Mahal.
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Então, vamos lá:
Era uma vez um furúnculo nojento, instalado numa nalga.
Era uma vez um furúnculo nojento, instalado numa nalga.
(Para o caso de alguém ainda não ter percebido, eu nunca saí da fase anal. Foi a minha mãe que disse, e as mães sabem tudo.)
O furúnculo era assim verde por dentro, carregadinho de um pus ora espesso, ora quase líquido, sofria (ou gozava) de um odor nauseabundo e tinha uma cabeça gigante e escura, sempre a ameaçar rebentar a qualquer momento.
Cada vez que olhava para o furúnculo, sabia que ia ter uma náusea. Mas olhava sempre.
(Há qualquer coisa de irresistível no que nos causa repulsa. Puxa-nos e empurra-nos. Bate e sopra.)
E voltava a olhar.
Isso, e só isso, explicava a quantidade de vezes que o furúnculo era olhado a cada dia.
A nalga que o carregava era a única que não conhecia o porquê de tanta atenção.
A nalga que o carregava era a única que não conhecia o porquê de tanta atenção.
- Fim -


