13/02/2015

Vou meter-me férias

Acabei o terceiro trabalho, em três semanas, com três fins-de-semana trabalhosos.
Sou patroa de mim mesma e sou minha empregada.
Mando sempre os trabalhos para mim, por mail, quando acabo um, numa cena um bocado autista, e já recebi o mail da tonta da minha chefe, com o título "fim! :)". A gaja é parva. Vê-se mesmo que se limita a inspeccionar o que a coitada da trabalhadora faz.
Vou-me dar umas merecidas férias.
Vou pintar as unhas, que isto está, desde ontem, uma lástima. Não que tenham lascado, mas tive que as cortar, senão furava as teclas. Já uma vez furei uma tecla - a do A - por causa das unhas estarem maiores. Compridas é que não, que eu sou preconceituosa e também porque é uma falta de higiene. Mas este verniz que uso, apesar de ser ordinário, dura até já não o poder ver, que é nunca. As coisas ordinárias têm uma louvável durabilidade. Acho que foi fabricado segundo os parâmetros das tintas para automóvel, ou segundo o lema das lapas: agarra-se e não deslarga-se.
Vou também limpar o pó à minha casa, que, após três semanas de ausência do meu pano, até a cor dos móveis mudou, toda patinée. Eu gostava muito de ser alérgica ao pó, sempre tinha uma desculpa para não ter que o limpar. 
Vou ler os livros que me esperam (cheios de paciência e desespero), na mesa-de-cabeceira, inundando-me de BDs, que eu sou demasiado retardada para ler livros de letras sem bonecos e demasiado estúpida para perceber intelectualidades que envolvam sombras sexuais, ainda mais à dezena, ou meia centena, ou lá o que é aquilo.
Vou comer sushi até morrer. E eu quero morrer de sushi. Aquilo tem omega 3, que é o que me mantém a rir como se isto fosse tudo a maior paródia da História. Vou experimentar novas portas, recomendadas por quem percebe da poda. 
Vou fazer mais ginástica, preciso de desemperrar isto tudo, que tenho o rabo quase chato de aqui estar sentada, e, para chatos, já chegam os meus pés.
Vou dormir mais horas. As cinco por noite das últimas três semanas arrasaram-me a frescura que já se foi e transformaram-me, definitivamente, num guaxinim. 
Vou tentar escrever textos no meu buraco que não dêem a entender que sou meio anormal e tenho uma visão do mundo ou distorcida ou oblíqua. Uma espécie de lavagem da imagem, sem ter que tomar banho. Mas já sei que não vou ser capaz. Se calhar, esta salto. Vou escrever, pronto.
Vou passar uma semana do caraças. E a minha chefe que se dane para ali sozinha, que eu fechei o estaminé dela, para balancé.

Velhas máximas sobre os homens que nunca ninguém me ouvirá dizer # 2

Um homem também chora

Não chora nada, chiu, caluda, não queremos berreiros, vão lá ser maricas para outro lado, preferencialmente nas nossas costas - porra, fazem coisas tão bem feitas nas nossas costas, façam só mais essa -, que ninguém atura uma Desdémona, uma Pierrette, mais um filho, ou um filho para quem os não tem, sempre pendurado do nosso ombro, magro e frágil, ou gordo e frágil, a enchê-lo de ranho e gemideiras. Deixem-se de merdas.

Uma vez tive que lidar com um chorão que só não era maior seca porque tinha a cara sempre molhada. Comovia-se. Por dá cá aquela palha, emocionava-se. Ou ficava triste. Ou frustrado. Ou chocado. Ou desiludido. Ou contente. E chorava sempre. Ou vinham-lhe as lágrimas aos olhos. Era impossível trabalhar com uma pessoa assim. A excitar-se perante novos desafios e a perturbar-se diante deles. A fazer check lists de merdas e a alterar-se todo com o que ainda estava por fazer. E a marejarem-se-lhe os olhos. Ou a caírem-lhe duas gotas, uma de cada olho. Parecia um devoto, sempre em transe. Ou um peregrino, saciado de cumprimento, quando lhe dava a carpideira plena.

Percebam isto, de uma vez por todas: as frágeis somos nós, as que tudo aguentam caladas e firmes, as que choram a rir e riem a chorar, as que ralham a dar beijos e batem com os pés no chão quando percebem que já não são meninas e o mundo não vai perdoar as nossas falhas, nem nós vamos aguentar as inevitabilidades do mundo, somos nós. Nós é que precisamos dos ombros todos que nos possam oferecer, dois por cada homem, porque temos o colo ocupado. E está muito ocupado, o nosso colo. Não se sentem nele. Leiam o rótulo: ocupado.

Tão estranhas as mulheres: ausentam-se permanecendo, regressam partindo (António Lobo Antunes, in Dulcinha).




12/02/2015

É isso. A tia de Cascais sou eu, mas os outros é que têm empresas evocativas do rego.


Cosmos, continuas a querer dizer-me algo que me escapa?
(e sim, a foto é de hoje, e este céu é o de Lisboa, 10:30)

Uns por baixo, outros por cima

Anda tudo para aí num grande afã, a ver quem se peida mais, melhor e mais alto. Quem dá os peidos mais mal cheirosos, os que movimentam mais ar, ou mais gás metano. Fazem-se descrições cómicas, trágicas, históricas, épicas e de longa metragem.
Eu não.
Eu arroto.
Sempre juntei ar na barriga, em sinal de ansiedade, que é ânsia. Qualquer ansiedade me servia e me serve para me encher de ar, como um balão. A mesma que me fazia correr até bater com os calcanhares no rabo, faz-me hoje sentar aqui à tecla, a martelar, cheia de ideias de nada. Aquela que me partiu a cabeça tantas vezes, em todas as esquinas da vida que eu tinha em excesso, é a que me faz hoje malhar o corpo em busca de uma perfeição que não pretendo. Foi também a ânsia que me baloiçou uma vez até chegar ao limite da volta de trezentos e sessenta graus, não tivessem as mãos da minha mãe segurado o baloiço no momento exacto da volta completa. Hoje pergunto-me quantas voltas de trezentos e sessenta graus não me terão aquelas mãos evitado, e quantas poderiam ainda evitar se a vida não nos estivesse a preparar uma inevitabilidade. 
Uma vez queixei-me a um médico de clínica geral da minha enorme barriga e ele disse que era ar, não sem antes me auscultar muito bem. Não sei se perceberam, mas eu queria que, através da prescrição dele, o SNS me pagasse uma lipoaspiração à barriga. É que eu pago impostos e achei justo. Mas ele (fingiu que) não percebeu que se tratava de um caso de barriga ou de morte, não me passou a prescrição, e eu continuei cheia de ar cá dentro.
Quando andava na faculdade, tinha que fazer exames orais, o que era uma grande angústia. Ser avaliada em quinze, trinta ou quarenta minutos, por um ano inteiro de estudo, custava-me os cornos, já mais que marrados. Mas lá ia, magra, branca, não convalescente de tanto vomitório. E cheia de ar. A matéria saía-me às golfadas de ar, a voz gutural, o arroto a arder no peito, como um amor trágico ou uma saudade louca.
Há pouco conheci um velho - notem que disse velho. Não disse velhinho, nem velhote. Velho - enorme e de voz possante, chamado Rui - e a um homem cheio de idades, enorme e de voz possante, chamado Rui, não se chama velhinho nem velhote - que, sentado à mesa do refeitório do lar aonde vive, gritava, a plenos pulmões, 

Ai, que bem que me sabia agora um arroto!

Pergunto-me se eu não serei um dia assim: um velho enorme, de voz possante, chamado Rui, sentada à mesa do refeitório do lar aonde vivo, aos berros, a plenos pulmões,

Ai, que bem que me sabia agora um arroto!

Cheia de ânsia, já sem ter onde a gastar.