21/09/2020

Eu sou só uma gota no oceano

Escrevo estas amargas palavrinhas ainda sob o efeito dos nervos.

Chego à estação dos Correios e tenho quatro pessoas à frente. Tranquilo: quatro, com três balcões abertos, é espectável que seja rápido. Ilusão de óptica, foram quarenta e três minutos. 

Tinham passado cinco minutos, saem duas funcionárias para ir ao parquímetro, cigarro e café. Eu vi. Dois minutos depois, sai mais uma. Então, começo a acentar horas no meu telemóvel, só naquela. E, entretanto, canso-me de esperar. Eu, e mais todas as pessoas que foram chegando, de entre as quais uma senhora com mais de oitenta e as perninhas ligadas com meias cirúrgicas (podia ser a minha mãe), e um casal, também nessa faixa, que se sentou no parapeito da montra, por óbvia dificuldade em esperar de pé (podiam ser os meus pais). Os minutos foram passando, as damas não voltavam da bica, e chegou mais uma senhora de idade. Perguntei-lhe, então, se tinha tirado senha prioritária. Que não, que não existe prioridade para a idade. Fui dentro da estação e perguntei pelas senhas da prioridade - ia tirar três seguidas, para distribuir -, mas ali, naquele local, deixaram de existir tais senhas. Respondi que estavam três pessoas de idade à espera lá fora, a pespineta diz-me que a idade não é prioridade, e eu passo-me. Explico que a lei determina que os maiores de sessenta e cinco anos e com manifesta impossibilidade de esperar pela sua vez têm que ser atendidos com prioridade sobre os restantes. Mas parecia que era uma louca a pregar no deserto. Vim cá fora e disse às senhoras que entrassem. Nessa altura, apanhei com uma estúpida, que tinha a senha imediatamente anterior à minha, que me disse para me calar, antes que se aborrecesse comigo. Sinceramente, era o catalisador que eu precisava para incendiar aquela m. toda. Até gargalhei na cara dela, se isto é possível. Perguntei-lhe se ia para nova - o que, claramente, não está a acontecer -, e que, caso tivesse dúvidas, chamasse a Polícia, que talvez os agentes lhe explicassem melhor a lei. E fui reunindo todas as minhas forças para a argumentação indoor. 

Uma das funcionárias chegou ao fim de vinte e quatro minutos; outra, ao fim de vinte e sete; da terceira, nem vi rasto enquanto estive fora da estação. Pode bem ter passado por mim invisível, ou eu já estava demasiado cega.

Quando chegou a minha vez, disse a uma das senhoras que entrasse, mas a autoridadetária que me atendeu não permitiu. Então, pedi o nome das três funcionárias que tinham saído para o café às 10:13 e que queria saber como é que, ali, aplicavam uma lei própria, em clara desobediência à lei geral, ou então à das pessoas sensíveis, em sentido estrito. Esta respondeu-me que fosse reclamar "com o Costa" e foi chamar uma das colegas que tinha ido para o laréu. Ela que ai, fui ao banco depositar cheques do Correio, até me vim embora porque estava muita gente [rolling eyes, como se eu acreditasse que elas não passam à frente de toda a gente no banco], e eu, ai, não perca tempo, que eu a vi sair, ir para o parquímetro, a fumar o seu cigarrinho, e depois ala para o café. O que é que diz o seu contrato de trabalho quanto a pausas da manhã?, ai, que são quinze minutos, ai, que demorou vinte e sete, que eu os contei. E vai-me dar o seu nome e o das suas colegas, ou não? E ai, não, que não deu. E eu já com o envelope da queixa nas unhas, rodei calcanhares e zumba, acho que até fiz um chassé mambo. 

A reter: pelo menos metade das quinze pessoas que estavam à espera quando saí, indiferentes à causa prioridade pela idade, a outra metade comigo, acredito que dois ou três contra mim (o pessoal dos sessentas é o pior: ainda não é completamente velho, já não é novo, quer ter um pé em cada lado, hom'essa, decidam-se!); para a próxima, chamo a Polícia e aquela estação come com uma multa de mil euros que até chucha; não me perdoo por não ter dado a minha vez a uma daquelas pessoas, mas parece que as boas ideias só me vêm à tola quando já vou longe (e mais calma); os olhos dos velhinhos, quando os chamei para a estação, depois quando lhes rejeitaram o atendimento, depois quando eu saí. Uma disse-me: "Obrigada", mas eu ia com os meus marejados de lágrimas, arranquei a máscara e deixei cair os braços, de tanta raiva.



20/09/2020

Diálogos à sombra # 30

Não hajam dúvidas de que o sentido de humor é genético. Contava-lhe os apertos - literalmente - em que me meto, pelo meu próprio pé - de novo, literalmente:

- Ontem resolvi calçar umas botas que a tua irmã tinha posto de parte para deixar no depósito. Mesmo giras, ficavam-me boas, achei boa ideia calçá-las para ir jantar. No meio da pressa e da preguiça, nem meias pus. Olha, os pés deram em inchar lá dentro, que estava a ver que tinha que viver o resto da vida com elas nos pés. A do esquerdo ainda saiu, já a do direito, meu Deus.

- Consideraste amputá-lo?

- Isso, por acaso, não. Mas recortar a bota a toda a volta do pé, ou então ir buscar uns forceps, como num parto difícil, isso, sim.


18/09/2020

Milu, a escrava do silêncio

Nunca tinha tido - ou sequer ouvido falar de - uma gata que não mia. Em quatro meses de vida, jamais o fez, donde se conclui que é muda. Comunicada esta espécie de preocupação - que, na verdade, constitui uma doce tranquilidade, uma casa onde o animal de estimação não emite qualquer som - à veterinária, recebi de volta um encolher de ombros, e a resposta "Normalmente, são as mães que ensinam os gatinhos a miar". Ora, esta mãe não ensinou a sua filha a miar, a abandónica. O máximo de sons que lhe ouvimos até hoje foi "iiiii" e "aaaa", muito baixinho. Não imagino como serão os cios desta m(i)udinha.

Por outro lado, aquela mãe desnaturada também não deve ter amamentado como deve ser a sua cria, pois, para além de nos ter chegado muito magrinha, come tudo o que vê à frente (ração da Molly incluída, que é para gato adulto esterilizado): todo e qualquer alimento humano lhe serve de refeição, desde sopa a frango, passando por carne picada, legumes cozidos (beterraba incluída!), massas, todo e qualquer peixe - ou não fosse um gato (?) -, fruta, queijo, fiambre, e o top-mais-que-tudo de todos, o meu iogurte, que é só a coisa mais amarga de sempre (embora eu seja considerada, cá no lar, "a pessoa sem paladar e que não distingue as cores", portanto, eu posso). Quanto a Milu, tem que ser fechada numa divisão da casa (que não seja a cozinha) à hora das nossas refeições, pois, caso contrário, salta para a mesa e agride-nos os pratos, recusando a própria comida - que é própria, passe o pleonasmo -, com aquele ar de Maria de Lurdes, "Estes querem que eu coma comida de gato porquê? Comam-na eles!". Vá que não nos agride a nós (se calhar, por enquanto). 

Tem com a Molly a mais surpreendente e quase pacífica relação que algum dia pudéssemos imaginar que teria. Meteu na cabeça que a cauda da outra é um brinquedo/ presa/ companhia, algo que urge conquistar, pelo que dedica horas a segui-la, a espreitar, a escolher o melhor ângulo, a saltar na direcção do seu objectivo, felizmente para as duas até hoje por atingir. Gradualmente, a Molly tem vindo a desistir de lhe rosnar e nunca a perseguiu para a agredir. O máximo que fez foi dar-lhe uma sacudidela com uma pata, mas isso, convenhamos, só lhe faz bem, visto que, efectivamente, a mãe não lhe deu a educação mais básica, como vimos acima.


Ainda acabam ´migas gatas. (Hah, piada alentejana!)


De resto, Miluzinha foi a melhor coisa que nos aconteceu em 2020, logo a seguir ao voo que trouxe uma das minhas crianças de um Erasmus que não chegou a ser - mas que ainda durou quatro meses -, numa altura em que não havia aviões no ar, de todo. (Houve aquele, apanhado a muitos quilómetros do ponto de partida, após escalas de três comboios. Aleluia, irmãos!)

Não tenho muito mais para dizer, a não ser que apareci na televisão outro dia, mas é assunto que guardo para quando for seguro falar nele. Posso apenas adiantar que, como é óbvio, foi um momento de grande intelectualidade e beleza. 

Para qualquer dia, uma lição de Português bonito, que há muito não forneço aqui. Mas andam-se-me a trocar as órbitas com coisas que vejo publicadas un peut partout, designadamente ao nível da pontuação dentro e fora dos parêntesis e das aspas, numa arbitrariedade a raiar o chavascal, que já não se aguenta sem ter uma apoplexia ou, em alternativa mais saudável, partir a loiça toda. 

Pronto, adeus. E miau.


11/09/2020

Superstições

Sabe-me supersticiosa, presa por crendices que não explico nem domino, nada com bruxas, galinhas ou sal grosso, tudo com as coincidências que a ironia da vida é capaz de enredar. Liga-me numa aflição, um sorriso de nervos na voz, insegura quanto ao que sente, “Olha, o ramo de flores em homenagem à miúda que morreu atropelada no Campo Grande está tombado, todo torto. Achas que dá azar se o endireitar? Pergunto porque, como sei que és supersticiosa, podias saber alguma coisa e que fosse melhor não mexer”. Eu, que já tinha visto que do ramo restava apenas um molho de flores secas, respondi-lhe que não, que a única coisa que poderia dar azar ali, seria passar indiferente ao ramo, vendo-o caído e abandonado, ou então aquilo mesmo: sentir a necessidade de prestar uma “homenagem”, por breve que seja, só de coração, mas perder a coragem a que mesmo as mais singelas obrigam. Louvei-lhe também a bondade, “Isso é tão bonito da tua parte”. 

Diz-me igualmente a minha superstição que ela anda por ali, na sua bicicleta, ou marcando pontos nas tabelas que foram a glória e a fonte de alegria da sua tão breve vida.


08/09/2020

Diz-me como é a tua máscara

1. Máscara lisa, colorida: és uma pessoa harmoniosa e pacífica. Ou então, apenas indecisa e insegura. Tens uma máscara de cada cor, para poderes combinar amarelo com amarelo e vermelho com vermelho. Mesmo assim, sofres quando vestes uma calça rosa cerise e só tens uma máscara rosa bebé;

2. Máscara preta: és um bandido, um artista plástico, um génio sonhador ou um chato. Mas também podes ser um alegre mix de todos eles;

3. Máscara pandan: além disso, tens um TOC com as molas da roupa, os rótulos dos frascos, o estacionamento nos riscos da emel e não suportas as roupas da Desigual, logo a começar pelo logotipo da marca;

4. Máscara florida: és alegre, vaidosa, gostas de ser vista, ou então és um tédio de aborrecimento e dizes à boca cheia e aberta que a idade está na cabeça e outras singularidades sem qualquer sentido;

5. Máscara geométrica: com bolas, riscas ou quadrados, a tua máscara revela-te uma pessoa organizada, metódica, tenaz, com um apurado sentido estético e artístico, ou então apenas que muito bocejas lá por trás, o que, como se sabe, é assaz contagioso;

6. Máscara animal: és uma pantera na mesa, uma leoa com as crias, uma zebra sem dúvidas de se é branca e preta ou preta e branca. Ou nada disto, podes ser só um gatinho manso ou um leão sem juba armado aos cucos;

7. Máscara de bonecada: és uma eterna criança, de bem com a vida e com os outros. Ou és só aquele adulto que se autodenomina Peter Pan e que faz revirar os olhos a todos os presentes, crianças incluídas;

8. Máscara com frases inspiradoras: ideal para a indirecta para a qual não tens coragem. “Querida, o vestido amarelo faz-te gorda.|Peter Steinbeck”, não vale. Mas é pores “Uma mulher com um copo de vodka na mão fica mais poderosa” [lido ainda ontem, @ instagram], e o mundo desaba a teus pés, seja lá o que isso for;

9. Máscara com um ícone estampado: queres dar a conhecer um lado bom teu. São muito giras, as da Frida Kahlo, as da Rapariga com o Brinco de Pérola, até as do Van Gogh, apesar de, enfim. Agora, clubes desportivos, a cara dos filhos, a do Cristiano, faz favor de tatuar isso no lombo, mas deixem-nos em paz com as vossas fés. Ou é fezes que se diz?

10. Máscara transparente: és uma pessoa transparente. Cristalina. Ou então, sofres de claustrofobia nasolabial. Ou de vaidade dentária. Ou antecipaste o que todos nós concluímos há meia-dúzia de meses: que a leitura labial faz parte da audição.

Próximo episódio: Diz-me onde pões a tua máscara.




24/08/2020

Ditaduras

Coitadas das crianças que caem nas mãos de adultos vestidos de cordeiro. 

Quatro - duas mães, claramente irmãs uma da outra - e sete crianças, seis com idades entre os dois anos e meio e os seis, e um bebé de dois meses, que poderia (e deveria, diz-me a lógica materna) estar ao peito, mas isso é que nem pensar. Todos Franciscas e Tomáses, muitos fatos de banho com folhos e lacinhos, muitas regras e travões a fundo, alguns até sem nexo, oportunidade à vista (“sente-se ali”, “saia daí”, “não vá ao mar”, “vá lavar as mãos”, tudo um horror de não-tu, que não é o mesmo que o tratamento por “você”), ou razão de ser perante meninos e meninas tão obedientes. Um dos pais muito empenhado, em exclusivo, com o bebé, o outro um pai/ tio porreiro, aquela acepção que lhe permite brincar com as crianças, falar mais alto que os restantes, olhar em volta em busca de aprovação (ou mera plateia), usar cordão grosso com crucifixo ao peito, tudo ainda muito recente, muita primeira água, “Benedita, o que é que você quer?”, ao invés de “Benedita, o que é que a Benedita quer?”, ou “o que é que quer?”, ou “o que é que a menina quer?”, mas não podes tirar a aldeia do rapaz. 

Chegada a hora da refeição, uma das duas generalas alinha as crianças, saca de seis caixinhas plásticas de cores diferentes e distribui por todas, um conteúdo que nenhuma rejeita, parece-me cenoura em pauzinhos e panadinhos de frango, nada mau para refeições de piquenique, não fora repetirem-se dia após dia. E comenta uma delas, vitoriosa: “Este ATL funciona lindamente!”, enquanto dá mais ordens, “Esteja quieto”, “limpe a boca”, “acabe a sua refeição”, num louvável automatismo repleto de impessoalidade, seis pessoas tratadas como um todo, e vejam bem que, neste caso, não me parece nada que esse todo seja meramente a soma das partes: há seis cabeças diferentes, seis personalidades únicas, ali tidas como um grupo acéfalo, mas quem sou eu?

Notei apenas que, naqueles dias, não ouvi nenhuma daquelas crianças rir daquela forma que só a infância permite - e que alguns adultos, felizmente, conservam -, um riso gutural, solto e livre, vindo das entranhas e projectado pelos ares, que os meus ouvidos ainda guardam na enorme caixinha das saudades que é o coração. 


07/08/2020

Chatos do nosso Portugal # 2

Putos irritantes que só porque estão assaz excitados por estarem de férias, desatam a chamar “papá” ao pai [indiferente] e “mamã” à mãe [chateada dos chifres], com uma insistência e para aí um decibel acima do aceitável, esfrangalhando os frágeis nervos (ópticos incluídos) de vulneráveis como eu.

(Também existem na versão acompanhados ao violino desafinado por pai porreiro e mãe fixe, “Vamos comer um gelado”.)

[Isto foram anos engasgado aqui na glote, perdoai. Hoje, sem outro assunto de momento, desentalei a gosma - sem máscara e tudo.]


28/07/2020

Chatos do nosso Portugal #1

Grupos de whatsapp com mais de cinco almas, em que todos são tão interventivos, que uma pessoa minimamente equilibrada dos chifres, ao cabo de horas, já está a bloquear as notificações (o coiso pergunta se por um dia, uma semana ou um ano - é claro que não fui de modas), só para não ofender alguma virgem e não sair do grupo a jacto. Eu cá aguentei-me num grupo desses hoje durante sete horas, exactamente 134 mensagens. E eu não tenho notificações sonoras, o que faria se tivesse. Mas não tive forças para mais. Cedi.


24/07/2020

Derrapagens

Vou na segunda máquina de costura desde que iniciei o meu pequeno negócio - tanto em volume de vendas, como em número de empregados (unipessoal, euzinha, capacho para toda a sola) - e, enfim, tamanho das peças que produzo. A primeira que tive não deve contar para o prejuízo, porque não foi um investimento da firma, era coisa que já possuía, e que ainda me ajudou a fazer todos os cortinados do lar e fatos de Carnaval para as minhas crianças. A segunda, já a comprei de propósito a um senhor que não a queria, uma vez que não lhe cosia os instrumentos musicais que produz, já não me lembro se pandeiretas ou gaitas de foles (ou seriam de beiços? Olhem, gaitas).
Porém, esta aqui também deixou de coser, que é basicamente para o que serve. Fui então pô-la a arranjar nas mãos de uma pessoa em quem confio rigorosamente zero, vírgula, zero, um. Mas é a cena dos monopólios, não há mais ninguém que arranje máquinas de costura no mundo inteiro, e, mesmo que houvesse, neste momento não posso propriamente meter o mono debaixo do braço e ir à China mandar arranjá-lo. Quer dizer, também não pesquisei, e tinha a meu desfavor a pressa, a tal inimiga da perfeição. 
O homem começou por me dizer que ia uma semana de férias, que regressava no dia 20, mas também não digo à senhora que lhe tenho a máquina pronta logo a 20 [pessoas que voltam cansadas de férias, cá beijinho mascarado], mas a 21 ou, no limite, a 22, está pronta. 
Hoje é dia 24.
Lá se foi o limite.
Notícias da minha máquina (telefonemas meus, que Senhor Doutor da Maquinaria Leve nem se digna): primeiro, foi uma porca que estava de tal maneira retorcida, que nem sei como é que ela [a máquina, julgo] não rebentou. Logo a mim, que tenho fobia de explosões desde que, ainda menina e moça, foi pelos ares (literalmente) um fogão em casa dos meus pais. (Ou também pode ser derivados à quantidade de balões de hélio que se me rebentaram aos ouvidos, era ainda igualmente petiza.) Porca retorcida, até me pareceu, se não um elogio, pelo menos uma ofensa. Agora, a última desculpa para a derrapagem do prazo (conceito que havia de ser elevado a património nacional), é a de que o carreto não roda, de maneira que o tecido não progride. Porca retorcida e passadinha dos carretos, eis o diagnóstico das maleitas da minha Belinda, a Escrava do Silêncio. 
Em suma, enquanto o homem derrapa no prazo, eu acumulo derrapagens nas encomendas que vou tendo. E trambolhões.
(Isto é como os mecânicos de automóveis, não é? Falam-nos de bielas e dos caprichos do alternador e nós papamos a papinha toda, de carinha alegre e toma lá euros às centenas, que de onde estes vieram há mais.)



20/07/2020

Na senda de "Sou só eu?" # 20

a quem o servidor de internet, de há dois meses para cá, assim do nada, como quem não quer o dinheiro a coisa, me manda uma mensagem a avisar de que os meus dados se encontram perto do fim, e que (mais ou menos por estas palavras, que eu não sou muito boa a não acrescentar um ponto quando conto um conto), se quiser continuar a navegar - deixando-me assim, perdida, no mar alto - devo pagar ora 5 ora 10 euros por um carregamento de não sei quantos gigas, isto logo a mim, que nem sei os litros de gasóleo que meto em Rosinha, quanto muito sei o que lá deixo em euros?
Vamos lá a ver se a gente se entende, Senhora Dona NOS: o vosso serviço é só péssimo. Tenho zonas da casa em que de todo não possuo net, em que basta deslocar-me para lá, que desapareço do radar. Se tiver - como toda a gente não adolescente - os dados ligados, o coiso desata a gastar-mos sem sequer me avisar, sequer uma notinha “Passou para o modo dados móveis”, como quando pomos o pé do lado de lá e ele nos dá as boas vindas ao Orange, ou outro citrino qualquer. Não se faz. Era agradável, mas compreendo que não o façam. Uma como eu zarpava logo da cozinha para a sala e, de lá, recta ao quarto, que é onde nettinha (e sonhos bons) é melhorzinha. 
Compreendo que terão tido um pequeno prejuízo com a quarentena, o povo ligado 24/24 ao preço de 12/24 (pelas vossas contas, erradas, como veremos). Quem tem um blog sabe que há muito mais visualizações aos dias de semana e em horas de expediente do que nos dias e horas não laborais. E as empresas prestadoras de internet viram-se, de repente, durante sessenta dias, na contingência de ter que dar o dobro por aquilo que consideram ser o mesmo preço. Errado, este raciocínio: nós, pessoas ligadas, pagamos 24/24, a vossa resposta é que é esta deficiência lamentável. E pior ainda é fazer recair sobre o cliente o prejuízo da empresa. Ganhai mas é juízo, prejuízos todos tivemos.
(E não, mudar de servidor não é solução, só mudam as moscas.)


19/07/2020

Então e tu, LB, o que carregas tu rumo ao mar?

Olhem, o Mundo.
O meu saco de praia é belo e tive o cuidado de adquirir um de boa marca, assaz dispendioso, para que aguentasse todo o peso que carrega. Cansei das ofertas dos perfumes e das revistas, que levavam a minha carga durante cerca de duas idas à praia, logo se rasgando como papel molhado. Este, ao menos, está para durar, e já vai no terceiro Verão.
Lá dentro:
1. A inevitável toalha, muito, muito fininha e levezinha, que fica irremediavelmente encharcada ao primeiro banho, mas ao menos não me contribui para a marreca;
2. Uma almofada deliciosamente macia, leve e impermeável. A pessoa humana precisa de recostar a cervical sem ter que fazer montinhos na areia como se fosse a criança que se sente, mas que não é;
3. Uma bolsa com protectores solares para a cara, para o corpo (ambos factor 50, porque já não tenho 30 anos e, se calhar, também já não 15), para o cabelo;
4. Ainda uma enorme bolsa, com várias outras bolsas dentro: para os óculos de sol, que uso exclusivamente à chegada e à saída do areal (por questões de anti-bronzeado da neve), outra para a máscara (que levo por precaução, ele é uma ida ao bar, ele é uma abordagem à casinha), outra para o mp-3 (muito útil quando nos enfadamos do beca-beca da vizinhança) e telemóvel, outra para os documentos e cartões, um porta-moedas, e, à solta, na maior, chaves de casa, do carro, bâton protector (os meus lábios bronzeiam de uma forma absurda), espelho (porque partículas me invadem os olhos amiúde) e montanhas de elásticos, fitas e ganchos para o cabelo (que não uso, mas temo precisar e não ter ali à mão); 
5. A minha garrafa de água, que é de longe a garrafa mais bonita do mundo (azul com malmequeres), mas pesa os cornos. Tem capacidade para 750 mililitros, e, cheia, pesa 1,250 quilos, ora fazei as matemáticas ao objecto;
6. Uma coisa qualquer para mastigar, geralmente um pão de sementes com queijo e tomate, que é para me fazer as vezes de almoço e poder ranger os dentes com muita propriedade cada vez que passa por mim (de dois em dois minutos) um vendedor de bolas de Berlim;
7. Um António qualquer dos meus. Ontem acabei o “Segundo livro de crónicas”, hoje comecei “Aquela que está sentada no escuro à minha espera”;
8. Um jornal de papel, designadamente para fazer sudoku;
Alombo igualmente (estes já com ajudas):
9. Um guarda-sol, que os colmos estão pela hora da morte e estão espetados a uma tal distância do mar que me obrigariam a decidir entre queimar as plantas ou calçar o chinelo (sim, porque a hipótese de correr entre corpos descascados arrebataria a réstia da minha dignidade);
10. Uma cadeirinha tão pequenina, para quando quero ler de barriga para cima, mas que me vejo e desejo para me levantar dela, sei lá porquê. Há para ali uma luta entre mim e a gravidade, em que saio sempre vencida, quase tendo que me adernar para o lado, ou gritar por ajuda ao nadador, “Salvador! Salve a tia, que se enterra!”.


17/07/2020

Havia de fazer disto negócio

Desloquei-me ao dentista dos olhos bonitos com (boa) vista a fazer aquilo que científica e tecnicamente responde pelo nome de destartarização. Na verdade, fui arrancar as rochas que jaziam nesta praia, todo um pontão detonado a eito, quanto mais não seja para arranjar espaço (sei lá, para comida, cuspo, perdigotos, ar e apitos ciciosos). O médico já me arrancou o aparelho o ano passado (aliás, eu sou a pessoa, das que conheço, que teve aparelho por menos tempo - uns escassos dezasseis meses -, o que por vezes me faz questionar da necessidade dele), e agora parece que estava em altura de abordar a pedreira que habitava o meu habitáculo oral. Ele e Sónia, a assistente que, ao longo dos anos, tem vindo a desistir de me assassinar (nomeadamente encostando o aspirador às minhas amígdalas), porém, está tão empenhada em proteger-se do vírus que usa duas máscaras e uma viseira por cima dos próprios óculos, o que leva a que não se entenda basicamente nada do que diz. Real, eu de boca aberta e cheia daquelas brocas e instrumentos todos, tenho uma dicção mais clara, quanto mais não seja nas vogais abertas e nas interjeições monossilábicas. Então, nem contei quantos espaços interdentais possuo, mas garantidamente que o dentista me arrancou - algumas delas, esfarelando - dezenas de rochas, sob o olhar penetrante de Sónia, que, por trás de dois vidros e duas camadas de TNT, me perguntou (se é que percebi bem): “Está a sofrer? Não?”. Ora, só à pedrada. Respondi que não, mas que o ruído estava a incomodar-me deveras, e que, portanto, para a próxima levava uns headphones. Solidário, o meu dentista anuiu, que sim, que o ruído também lhe fazia impressão, mas eu ripostei que tudo se passa dentro da minha cabeça, como diriam os psicólogos estrangeiros acerca de quase tudo: “Tout, tout, tout se passe dans la tête”. Bom, o que importa é que agora, por meses, não terei cá pedras, embora ainda esteja convencida que todas as que saíram davam para construir um monumento de homenagem à minha pessoa, a uma escala de 1/100, uma pequena musa de 1,68 centímetros.


14/07/2020

And that awkward moment # 59

(Isto para chegar à conclusão que a estupidez se contagia, muito mais do que lá o vírus.)

Está a pessoa humana a proceder ao pagamento de uma vaidosice, coisa pouca e pequena, que responde pelo pomposo de top coat, tipo sobretudo, ou melhor, gabardine, mas aplicável às garras, que esta nova mania de alcoolizar as mãos a cada esquina tira todo o brilho e glamour ao verniz, opacando-o implacavelmente como se lhe houvesse caído uma nuvem de desistência e fim de festa em cima, e deu-se que o valor a liquidar era um desses a que sói chamar-se “preço psicológico” - quatro euros e noventa e nove cêntimos -, o que até pode ter sido determinante para o que ocorreu a seguir. Vou de estender uma pobre nota de dez euros e a caixeirita dá de me questionar a seguinte aleivosia:
- A senhora, por acaso...
[por acaso, por coincidência, por sorte] (façamos já um rolling eyes comunitário antes que isto descambe mais)
- ... não tem os 99 cêntimos?
A senhora em questão muito obtusa, 99 cêntimos... 99 cêntimos...? Mas para que é que ela quer 99 cêntimos?
Sinceramente, o cerne do problema deu-se quando aqui a desvairada desatou a procurar cascalho no porta-moedas, ao invés de perguntar à outra que genitais de troco é que pretendia efectuar com o raio dos 99 cêntimos. Mas é sempre isto, nunca perdendo a fé na Humanidade, cheia de boa-fé (passe o pleonasmo), a boa vontade, a boa índole, depois de muito somar lá nos fundilhos do mealheiro, anunciei, regozijada:
- Tenho 98 cêntimos. Ou então, um euro.
E ela hesitante, repuxando pelas pontas de um qualquer raciocínio esdrúxulo:
- 98 cêntimos não dá. Um euro...
E eu exangue, alarvemente curiosa:
- O que é que está a tentar fazer?
Ela de boneca parada, pôs finalmente a máquina a fazer a (inalcançável!) conta, e entregou-me uma nota de cinco euros e uma moeda de um cêntimo.
Depois perdi a fé. A boa e a má.





09/07/2020

Milu

Milu chegou às nossas vidas há quatro dias, e já no-las revolucionou de alto a baixo e de ponta a ponta. Na verdade, chegou no dia em que nasceu, pois da casa onde se deu o grande evento que foi a pequena coisa ver a luz, recebemos notícias e reportagem fotográfica com a frequência provável com que se processam todas as adopções felizes. Assim, veio da Figueira da Foz, sob um calor abrasador, e recebi-a com os meus enormes braços, que creio ainda terem crescido em comprimento naquele momento, tamanha é a pequenez da figurinha. Tem basicamente o comprimento de uma embalagem de champô. O nome já lhe foi posto algumas horas depois de se ter tornado residente cá do lar, mas até calhou bem começar por M, como são os de todas as fêmeas desta barraca, felídeas incluídas. (Lembro que, e por ordem cronológica, Mia - minha saudade querida -, Mel - ainda hoje dói de tanto que falta -, Molly, meu terror, minha boneca.) Ainda alvitrei Chica (Maria Francisca nas horas de mau comportamento), Benta (porque tem uma risca ao meio à Paulo Bento), Belém (por ter um olho à Belenenses), mas isto parece que é uma democracia musculada em que eu basicamente não mando nada, e Milu venceu, o que dá um jeito atroz para quando tiver que lhe ralhar, faço um nico de catarse e tudo, vai de Maria de Lurdes, que era o nome da minha professora primária, da qual, ao contrário de todos os (ex) meninos que conheço, que adoraram de paixão a sua primeira professora, o que também acontecia com os outros meninos da turma, eu sinceramente desgostava da senhora, que Deus tenha lá em descanso por muitos anos e bons, sem mim e sem os meus. Mas olhem, eu devia ser torta, ainda passei o primeiro período quase todo com cinco anos, a megera era uma anciã com voz tabaqueira e sinais pretos na cara, deve ter-me dado o medo (por na época ainda acreditar em bruxas, sei lá), ainda hoje me arrepio de me lembrar, mesmo agora, ao escrever estas linhas, toda eu sou fremências e tremeliques, o que é certo é que quando pulei para o liceu ela nunca mais me viu nem os dentes nem sequer a cor dos olhos nem nada. Fui, Marilu. (Ela também não gostava de mim, demasiado pequena, demasiado tímida, demasiado etérea lá para os vagares das dinâmicas do movimento da Escola Moderna.)
Mas pronto, venho hoje aqui apresentar Dona Milu, Maria de Lurdes nas horas de tropelia. 


03/07/2020

Os jovens

No jardim público, um grupo de idosos, naquela faixa etária que ainda não merece ocupar a categoria de velhinhos, mas que já são velhotes. Aqueles mesmos que ainda se sentem aí bons para as curvas (geralmente não para as das respectivas esponjas), os que calçam o téni e vestem o calção e se sentem imediatamente uns rapazes. Estavam todos devidamente afastados uns dos outros, recebendo aquilo que me pareceu ser uma aula de, vá, ginástica. E digo vá, porque enfim, o exercício constituía em colocar as mãos na cintura e, pelo menos naquele momento, rodar as ancas - ora para a direita, ora para a esquerda. Ginástica respiratória, é isso. Imagino a pequena fortuna que o instrutor - também ele um ancião, mas claramente com um ascendente qualquer sobre a pequena multidão (Diz que é coacher? Pilateiro? Tai Chi português?) - pede aos incautos que o seguem naquela filosofia de vida. Então, vou a passar, não que o atalho me fique em caminho, mas porque a minha vida não pode ser uma linha recta, com aquele ar de “Desculpem lá interromper a lição, só cá vim saber se têm um apagador a mais”, e ouço o mestre dizer o seguinte: “A mamória RAM...”. E era ter imaginado que havia ouvido mal, mas o homenzinho corrigiu-se de imediato, continuando a prelecção dele num sentido que deixou de me interessar assim que os meus pés me afastaram dali: “A memória RAM concentra-se toda aqui...” - não olhei para verificar em que parte do corpo considera a criatura que se concentra a RAM - “... é a memória que se plasma no tampo da secretária”. 
Olha que bem visto. Olha que dinheiro tão bem gasto. Olha tanta Polícia distraída de charlatanices.
Por acaso - porque tenho um TOC, acho eu - até contei as cabeças. E não eram treze?
Ai, os jovens, que se juntam em grupos de mais de dez, a ver se enchem isto tudo de covid! (Pronto, numa acepção muitíssimo alargada da noção de jovem.)

24/06/2020

As minhas [quase invisíveis] pegadas

Parece que, afinal, Street é uma fêmea. Já desconfiávamos, devido ao tamanho do corpito, à delicadeza de gesto e modo, ao susto por qualquer movimento por perto quando vinha saciar a fome na taça diária que lhe deixamos, faz agora um ano. Provavelmente, Juliana será um macho, apesar de ser também um animal pequeno: muito mais atrevida, muito menos dependente da ração diária, umas vezes aparece, outras, quase todas, não. A novidade é agora isso mesmo: Street faz-se acompanhar por um gatinho aí com oito semanas de vida. Comem da mesma malga, serão com certeza parentes. Não me apercebi de a ter visto prenhe, eu que a vejo todas as noites, para confirmar que se alimenta. Não falhou um só dia a taça, desconheço se pariu algures e veio, mesmo assim, alimentar-se no pós-parto, para poder amamentar a sua cria com alguma qualidade. E também não é muito vulgar uma gata dar à luz apenas um gatinho. Prefiro pensar que o adoptou, ou que o resto da ninhada encontrou outro poiso, ou então que ainda é demasiado frágil para se aventurar a percorrer as ruas com a mãe, à noite, até onde sabem que encontram alimento. É uma cria toda preta, apetece-me chamar-lhe Night, para manter uma certa coesão anglo-saxónica nos nomes familiares, e também alguma assexualidade facilmente adaptável a ambos os géneros.
- Eu bem vos avisei [que vocês iam acabar a alimentar uma família de gatos]. - Diz-nos ele, com aqueles olhos cheios de verdade e amor, depois de ter visto o gatinho pela primeira vez. 
Tenho que pensar numa solução para o tipo de ração que lhes passo a deixar: a mãe não pode comer comida de bebé, a cria não pode comer comida de adulto. De resto, temos igualmente um pombo a alimentar-se da taça, todos os dias o mesmo, que baptizámos de Anastácio. Faz a sua vida de pombo durante todo o dia, mas espera com manifesta impaciência pela refeição quando a tarde se aproxima do fim (provavelmente, as minhocas estão em dieta), e, por isso, é sempre o primeiro a inaugurar a taça. É estranho pensar que um pombo come comida de gato, que, por sua vez, se alimenta de aves, atum, salmão, frango, e todos os eteceteras escritos na embalagem. Depois de debicar uns quantos croquetes de ração felina, volta a ser pombo até ao dia seguinte.
Entretanto, Dona Molly vigia todas estas démarches, derramada no parapeito da janela, curiosa e sobranceira, exigindo, no final, ração nova da sua, ainda que tenha a taça cheia. Ou há democracia ou... E ela prefere a segunda hipótese.
Ontem tinha um besouro na casa-de-banho, preso por encandeio numa das lâmpadas do tecto. Fomos buscar um banco para lá chegar, um copo e um papel, recolhemos o bicho para dentro do copo, o papel a fazer de tampa até à janela, onde lhe devolvemos a liberdade. 
Talvez a incapacidade crescente para tirar uma vida, acompanhada da necessidade de criar mais vida correspondam à justa medida em que a minha própria estimativa perde dimensão. Seja qual for a explicação para o fazer, a verdade é que me dá um gozo imenso pensar que contribuí para que um curso natural não tenha sido interrompido. 
Como quando vou correr, que tenho o máximo cuidado para não pisar as formigas que atravessam, indiferentes, inocentes, inconscientes, a pista.


22/06/2020

The girl next door # 17

Cá na barraca de betão armado, que alberga trinta e sete casas e não menos que setenta almas despenadas, tudo normal. O de baixo chega a casa e despe-se na varanda, à qual tem acesso, julgo que apenas por dentro da casa dele. Seja o que for que traz agarrado à roupa, vindo da rua, fica ali a arejar e o vento leva, como lá no "E tudo o". O de cima continua a vender saúde, apesar da miudinha que grita dias inteiros, envelhecendo-lhe a mulher dia após dia. Grisalha, despenteada, enrugada, disse-me outro dia, do fundilho dos fundos olhos azuis, que saiu todos os dias, mesmo durante a quarentena, para não ficar louca. Entretanto, parece-me novamente grávida. Sendo assim, desejo-lhe uma criança com uma caixa de velocidades torácica menos potente do que a que esta tem.
No andar de cima mora há pouco tempo um casal de rapazes. Um deles assusta-se com uma facilidade assustadora. Outro dia ouvi miados aos brados fora da minha porta, confirmei que tinha a gata dentro de casa e fui verificar o que se passava. Estava uma gata nas escadas entre o meu andar e o deles, subi os degraus que me distanciavam da bicha, mas ela deu em dar corda às garras e marinhou por ali acima à minha frente. A porta do apartamento deles estava aberta, o assustadiço assomou-se e a gata deu um pulo vertical daqueles mesmo à gato, escarranchou-se-lhe nos ombros, ele gritou "Ai, valha-me Deus", mas não sei se teve sorte, que o animal continuou em voo, desta vez picado, porta dentro. Percebi então a que casa pertencia a gata: à das três doidas - mãe e duas filhas - que moram ao fundo do hall dos elevadores. O sentido de orientação dos gatos permite-lhes saber qual a porta das seis de cada andar é a sua, mas não conseguem raciocinar que subiram ou desceram um lance ou dois.  Lá veio a filha que também arrasta os pés mas ao menos não resfolega buscar o bicho e fim.
Creio que, se Deus chegou a valer ao rapaz naquele momento, não valeu com certeza dias mais tarde, pois, enclausurado no elevador, tomou-se de pânico e destruiu a máquina por completo, de modo que só o arranjo do dito ascensor ascende a cinco mil euros, passe o pleonasmo. E agora andamos os cerca de setenta escadas abaixo e escadas acima, quando perdemos o elevador sobejante e a paciência para esperar por ele. Parece que se discute agora quem paga o arranjo. Cá por mim, pode ficar como está, faz parte do meu novo normal: menos umas aulas de step a que me deslocarei e mais uma poupança para o gordo do condomínio.
A velhota que tem porta em frente do elevador, viúva há vinte anos, substituiu o saco do El Corte Inglès com que andava desde que o marido morreu - e que me sugeria mil e tantas possibilidades quanto ao seu conteúdo, até que um dia a apanhei desprevenida na paragem do autocarro, fui espreitar e eram apenas... jornais -, por vários sacos transparentes com que forra as mãos para sair à rua. Depois deixa sacos caídos nas escadas, nem imagina o patim que aquilo é se alguém lhe põe um pé em cima. Também não a tenho em grande conta mental, pois aqui há uns anos acercou-se da janela e chamou parvo ao meu filho porque ele andava de skate na rua e a filha dela (uma calmeirona, já na altura com trinta e tal anos, e que nem sequer morava aqui) precisava de descansar, em plena tarde.
De resto, tudo normal, já disse?


19/06/2020

E o que eu estou a dar-me de bem com o novo normal?

Desconfinando-me alegremente, encontrando vantagens em toda esta nova realidade. 
1. Já não preciso de fazer ziguezagues no passeio quando vejo surgir alguém com quem não quero cruzar-me, simplesmente passo ao largo, à maior distância e velocidade que consigo atingir;
2. Da mesma forma, quando vou correr, posso contornar as pessoas o mais longe que consigo e de forma acintosa, pois se ficarem ofendidas, tanto melhor. Quem vai a expelir partículas sou eu, até deviam agradecer-me (sou quase santa). Um caldo e alguns kudos para esses casalecos que vão passear o bebé para as ciclovias e ficam assaz ansiosos de cada vez que se cruzam com alguém, tipo de dois em dois minutos;
3. Nas filas dou prioridade a quem bem entendo, não há cá criança de colo com dez anos (verdadinha, caia eu já aqui dura e seca se não ocorreu à frente das minhas vistas ainda outro dia) nem pessoa acima dos 65 com melhores pernas do que eu. Cumpro a lei à risca, agradeço que me copiem;
4. Óbvio que abordei a praia, ainda Maio não se finara. Um luxo, todos distantes uns dos outros, um areal a perder de vista (o mar assim colaborou), também por não haver colmos nem aquelas paneleirices de concessionários que só estorvam a Natureza que é de todos. Fiquei a saber que o nosso andar provoca um curioso ruído no areal, um chiar que era inaudível antes, mas agora, com toda esta nova acústica, parece música para tímpanos como os meus. Por falar nisso, também apreciei o facto de poder estar tranquila sem ouvir a conversa da família que faz muita questão em acampar ao meu lado, assim como avistei muito menos quilos (litros?) de celulite e metros de tatuagens. Felizmente, a minha visão ao longe já não é o que era;
5. Óbvio que abordei o shopping, logo no primeiro dia de abertura. Outro luxo: o povo todo afastado uns dos outros, circulação pela direita (um beijinho solidário a todos os canhotos do planeta), os brutamontes a avisarem quase aos berros que nos mantenhamos à direita, o altifalante a avisar do afastamento, eu por mim vivia assim o resto dos meus dias. À porta da loja, uma menina a derreter de simpatias, a chamar a colega depois de me alcoolizar as manitas, a colega toda ela préstimos e mesuras, até dei por mim a abusar da sorte e a levar três séculos a encontrar o vestido que queria no site da loja, ela impávida e serena, sempre a sorrir atrás da máscara, isto noutros tempos era coice na certa que havia de desembocar numa luta na lama;
6. Óbvio que abordei o restaurante logo assim que ele abriu. Se, por um lado, é estranho entrar mascarada, sentar e tirar a máscara, se quiser ir lavar as mãos, volta a pôr a "cueca", tira outra vez para comer, volta a pôr para sair dali para fora, por outro lado, quem me tira a conversa da mesa ao lado, dá-me anos de vida, e principalmente porque também não captam a minha eloquência. Tenho (tinha!) um bocado de problemas com isso, pois ficava sempre com a sensação que o Mundo parava para me escutar, tipo Greta, quando me sentava a uma mesa num desses sítios públicos. Coisas de vedeta, desenervem-me;
7. Óbvio que abordei o ginásio. Tudo extremamente limpo e desinfectado, gel e máscaras para todos, corredores de circulação com sentido único, aulas com lugares marcados e ninguém sai do seu quadradinho, nem que lhe apeteça subitamente fazer um grand jeté;
8. Já que não as posso vencer, adquiri as máscaras mais bonitas, confortáveis e fashionerer que existem no mercado, e que, ainda por cima, são certificadas. Aqui (NMPPI);
9. Não ter que andar de elevador com os vizinhos/ frequentadores dos mesmos edifícios, por razões de segurança, hallelujah irmãos! Na verdade, a maior parte das vezes vou pelas escadas. Mas quando não, agora posso recusar veementemente companhia no habitáculo ascensor e descensor sem que ninguém me possa acusar de mete-nojo (olhem, que sou);
10. Não respirar o bafo dos outros, apenas o meu!
Oh, gente, estou no céu!


15/06/2020

Stalker

Ando há semanas, senão meses, a ganhar dedos para inaugurar aqui neste micro-espaço uma nova rubrica e escrever sobre pessoas que perderam totalmente as noções das conveniências, do espaço vital de cada um, do verdadeiro significado do não, do ridículo, enfim, uma sem-nocite penosa.
Começava, talvez, pelos stalkers, e tenho aqui mesmo à mão, para me ajudar, a boa da wikiseca que, embora fale um Português da América do Sul, dá esta achega:

Stalking (também conhecido por perseguição persistenteé um termo inglês que designa uma forma de violência na qual o sujeito ou sujeitos ativos invadem repetidamente a esfera de privacidade da vítima, empregando táticas de perseguição e meios diversos, tais como ligações telefônicas, envio de mensagens pelo SMS ou por correio eletrônico, publicação de fatos ou boatos em sites da Internet (cyberstalking)[1]e depois vai por ali afora com exemplos que não interessam para aqui agora.

Como não percebi bem o termo erotomania, a não ser na sua etimologia, lá indaguei na mesma fonte:

Erotomania consiste na convicção delirante de uma pessoa que acredita que outra pessoa, geralmente de uma classe social mais elevada, está secretamente apaixonada por ela. A erotomania, também conhecida como síndrome de Clérambault, ganhou esse nome após um estudo publicado pelo psiquiatra francês Gaëtan Gatian de Clérambault (18721934) sobre o assunto (Les Psychoses Passionelles1921)[1].

(Que nós, pessoas com ar de malucas mas com cabeças minimamente sãs, estamos rodeados de loucos com ar de saudáveis, já não me restam quaisquer dúvidas.)
Penso - não sei, só ouvi dizer - que estas pessoas desconhecem o quão aborrecidas são e, mesmo que alguém lhes faça ver isso, estão de tal modo convencidas do contrário que não desistem, apenas insistem no seu comportamento perseguidor, ao invés de fazerem algo pelo bem da Humanidade, tipo irem tratar-se. Imagino que são pessoas que estão tão fora da realidade que acreditam que quando as suas mensagens chegam ao destino (vulgo, atingem o alvo), o destinatário (vítima) fica todo embevecido a lê-las. E nunca lhes ocorre o quanto maçam e irritam.
Pronto, e como vivemos num país de brandos costumes, muito haverá quem - porque não lhe toca na pele - desculpará o comportamento de um stalker porque “coitado, está apaixonado”. É precisamente essa desculpa que serve que nem uma luva a casos como este. Um dia sentem-se rejeitados e não aguentam. “Coitados.”





02/06/2020

Distracção

E eis a América (do Norte, claro) a distrair o Mundo dos seus 1.137.340 infectados - eu repito, por extenso: um milhão, cento e trinta e sete mil, trezentos e quarenta infectados - e 106.927 mortos - cento e seis mil, novecentos e vinte e sete mortos, com a bandeira do racismo (que sobrevive pacificamente? desde que aquela nação é nação), a propósito da morte de um homem negro às mãos de um polícia branco. Apesar do abuso de autoridade e cometimento de um crime de sangue, parece que o único factor relevante em toda a história é o da cor da pele dos intervenientes nela. 
Não se conclua que não lamento a morte daquela pessoa. 
(Máximo cuidado com as palavras, LB, nunca sabes que olhos te vêem as letras.)
Lamento, sim, assim como me repugna, espanta, desilude da raça, deprime, até. Tenho filhos, tenho medo que, um dia, sejam apanhados numa situação daquelas. Porém, também já cheguei a uma idade em que não embarco em manobras de diversão - distracção, melhor dizendo -, em reality shows que me alienem de uma outra realidade muito maior, para a qual, de repente, todos cegaram milagrosamente. 
É que também lamento, me repugna, espanta e desilude da raça que há uns meses tenha acontecido - isto, só para exemplo imediato - a morte de um jovem no meu país, só porque ia ali a passar "no local errado e à hora errada" [a culpa sempre a morrer solteira, e, vai-se a ver, virgem], (repito: tenho filhos, tenho medo que, um dia, sejam apanhados numa situação daquelas), e, nessa altura, não tenha havido uma terça-feira (ou quarta, ou quinta, tanto faria, de nada adiantaria) negra (ou por que não branca?) de luto por ele. Não me lembro de uma única voz ter sido levantada, içando a bandeira da cor da pele, nessa altura. Porque ser racista é subjugar uma única raça, a negra. O contrário já não se considera como tal. 
Dois pesos e duas medidas não consigo entender - nem o dicionário me explica - e, talvez por isso, é assunto para me irritar para lá do suportável.