18/02/2015

Morrer de saudades

Toda a minha vida os vi assim, dois namorados, de mão dada na rua, de beijos na boca à despedida e à chegada, a dançarem os discos deles, esquecidos do mundo, na sala da nossa casa. Parece que ainda os estou a ver, agarrados, abraçados, unidos naquela dança que era só um pretexto para se sentirem, e se saberem, tão bem, um ao outro. Um no outro. O quarto deles, a porta fechada à chave, noite após noite, trinta anos de amantes fieis e constantes.

Parece uma bonequinha, só apetece pegar-lhe ao colo.

Aquela senhora tirou-me as palavras da cabeça.
Boneca era o que o meu pai chamava à minha mãe.

Ela apagou-o do discurso. Não fala nele, nunca fala nele, não fala nele há anos. Há tantos quantos os que começou a perder a memória. Quando começou a esquecer-se de tudo, esqueceu-se dele.

Eu não vi a demência. Nunca recebi nenhum alerta, nem nas frases, nem nos silêncios, nem no olhar, nem na postura. Por mais que me mostrem, por A + B, que os sinais estão todos lá, não vejo nenhum. O pior cego é aquele que não quer. Eu não quero. Eu não vejo. Sou a pior cega, porque sei que não é isso. Preciso de outra explicação, mostrem-me lá outro caminho, para eu ter paz. E deixá-la ir ter com ele. 

A sua mãe não tem nada, tem muita idade.

Eu sei, eu sei, é isso que a cegueira me deixa ver.

E está a morrer de saudades do seu pai.

Uma caixa de bombons, devorada com sal do meu, enquanto escuto aquilo que já sei e só quero que alguém me diga outra vez, o que a estampa da bonequinha, a quem só apetece pegar ao colo, já me diz há tanto tempo.

Mas ela não fala nele há anos. Só outro dia. Perguntei-lhe com quem é que eu me pareço, e disse-me "Pareces-te com o teu pai". Até fiquei na dúvida se ela não me estaria a confundir com outra pessoa, e deu-me aquela resposta social, automática, para disfarçar a confusão.

Alguma vez a sua mãe deixou de a reconhecer?

Não. Acho que já esqueceu a maior parte das pessoas de que eu lhe falo, mas, a mim, nunca.

Porque você é o seu pai. Você leva-lhe o seu pai. Mata-lhe as saudades que ela tem dele.

Mato-lhe as saudades, mato nada. Tiro-lhe uma gota daquela imensidão do oceano das saudades dela. Não chega, não lhe chega, não chego, ainda assim. E ela está a deixar-se ir, vai ter com ele, para, finalmente, se reunirem naquela dança, pretexto para se sentirem e se saberem tão bem, um ao outro, um no outro, e fecharem, de uma vez por todas, a porta do quarto à chave, o resto da noite, para sempre.

36 comentários:

  1. Fecham-se num mundo onde mais ninguém entra. Sei-o.

    https://www.youtube.com/watch?v=p2pxJ5FmUOc

    Abraço apertado.

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    1. Completamente isto, Maria. Ao som desta música.

      Abraço, linda.

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  2. É um medo que me dá, quando leio a tua experiência com a tua mãe velhinha... e ao mesmo tempo uma alegria por te saber tão amiga dela...
    É só o que queremos. Ter o amor dos nossos filhos quando pouco mais temos para dar.
    Ser gostado na velhice é um dos maiores feitos do ser humano.
    A tua mãe conseguiu-o.
    Nem todas têm essa sorte.

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    1. Não tenhas medo, Uvinha. Todos os percursos são para ser feitos de mão dada, desde os tempos da barriga. Só temos que tentar fazê-los com a maior tranquilidade de que formos capazes, e percebendo-os. Eu estou a aprender com ela e de mão dada com ela que, ali à frente, teremos que soltar as mãos, e que há inevitáveis contra os quais é inútil lutar.
      As mães têm grandes lições para nos dar, sempre...

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    2. Mas às vezes perdemos a cabeça e gritamos, porque a vida não nos parece justa, não pedimos nada daquilo e só queríamos a vidinha tranquila de outra pessoa qualquer. Gritamos e dizemos o que não queremos, assim mesmo, de propósito, só para magoar no sítio certo. Quando a verdade é que queríamos gritar connosco mesmo por não sermos as pessoas boas e pacientes que as nossas mães mereciam.

      À velhice é uma gaita. A velhice dos nossos pais é uma grandessissima merda.

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    3. Mas faz tão, tão parte da vida, da nossa vida, de nós...
      Um dia pedi à vida que não voltasse a pregar-me aquela partida de tão mau gosto, que foi levar-me o meu pai sem me dar tempo para me despedir dele.
      Aqui tenho a resposta.
      A velhice não é bonita e pode ser muito trágica. Cabe-nos a nós embelezá-la.

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  3. Sabes percebo tão bem do que falas LP que não consigo deixar de comentar :(( Já tive nessa situação dois familiares muito próximos, recentemente o pai que partiu há uns meses.... e, quando acordo com saudades da presença fisica dele , dá-me coragem perceber que afinal ele tinha desistido de VIVER há uns anos, pois só o coração batia de facto, a cabeça, essa, tinha ficado lá atrás com a coragem e com a força de VIDA que não o faziam considerar-se velho, até então!...


    Aqui vai um abracinho apertado de carinho e solidariedadade que dê Paz ao teu coração.

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    1. Comenta sempre, querida.
      Abracinho muito recebido, muito retribuído, pelo teu pai, pela minha mãe, pelos nossos velhinhos todos, que eu não percebo como é que nunca nenhum artista se lembrou de os pintar como anjos.
      As saudades esmagam-nos ("nos" - a nós e a eles).

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  4. Sê linda mesmo e deixa-A ir...
    Um beijinho muito quentinho*

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    1. A vida não me está a apresentar grandes alternativas...
      Outro para Ti(l).

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  5. Olha eu já te segui e já deixei de o fazer.Acho que fiz bem mal...Este teu texto conquistou-me,arrebatou-me,eu sei lá...Tão bonito!!!Parabéns:)

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    1. Decide lá isso de uma vez, que eu estou sempre aqui.
      Obrigada :)

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  6. Vim aqui ter pela mão da Til e fiquei muito comovida com o teu escrito. És uma filha e uma mulher de sorte por teres vivenciado e testemunhado na primeira pessoa um amor verdadeiro e bonito, o dos teus pais. Olha que é uma raridade encontrarmos dois seres que se casam todos os dias por uma vida:))
    Acompanha a tua mãe da melhor forma que te for possível e acredita que a saudade quando decorre de uma perda imensa e irreversível vai matando mesmo, aos bocadinhos. E no dia em que ela for ter com ele, da-lhe a mão, um sorriso e manda por ela um beijo teu e da tua irmã ao teu pai.
    Agora deixo te um beijo e um abraço apertado.
    Gostei muito de ter lido.

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    1. Obrigada, Sandra.
      Sou mesmo, muito privilegiada. Durante muitos anos, convenci-me que o casamento era aquilo. Passei a infância a achar que os contos de fadas eram tão mais pobres do que o que se passava dentro da minha casa. E eles, que nem por um padre passaram para se casarem, nem repetiram "até que a morte nos separe", ou talvez por isso, a morte nunca os separou.
      Ela vai ter tudo, até me largar a mão.
      Abraço e beijo recebidos e retribuídos.
      Obrigada, outra vez.

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  7. Se não fosse já seguidora, passaria a sê-lo com este texto. Tocou-me como outros que já li aqui e acho incrível como escreves tão bem, sobre sentimentos, e em outros textos com tanto sentido de humor.
    um beijinho e força.
    Gábi

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    1. O óptimo era mesmo não ter que os escrever, Gábi. Isso é que era tão bom.
      Os outros não, esses quero escrever sempre :)
      Obrigada, minha querida.
      Beijinhos para ti.

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  8. sabes quando ficas sem palavras, sem saber o que dizer? e darias um abraço porque dirias tudo sem abrir a boca?

    beijo doce.

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    1. Sei, sim. Mas olha, senti-o aqui, e soube-me tão bem.
      Beijo xxl, doce és tu.

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  9. Que lindo. Sofre por dentro, mima-a muito :)

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    1. Pois mimo :)
      Ela não me tem visto chorar vez nenhuma.
      Quando acontece não aguentar, abraço-a e derramo para as costas dela.
      (valentia da treta :)

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  10. Linda, um abraço grande. Estas tuas palavras fizeram-me soltar um lágrima e ter uma grande vontade de te abraçar, abraçar muito e muito apertado.

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    1. Aceito, menina, aceito sim. Beijinho nos teus olhos bons.

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  11. Há quem tenha sentimentos. Tu tens, e frazes bem.
    Be and let be happy.

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    1. Toda a gente tem, há é quem tenha mais facilidade em descrevê-los.

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    2. Errata: fazes bem e não 'frazes bem'. Gralha ó gralha :-(

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    3. Estás a chamar-me gralha? :)
      Olha, mas frazes era um neologismo engraçado (fases, fazes, frases).

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    4. Sou alérgico a neologismos.
      Não pá, a ti nunca chamaria gralha. Há outros adjectivos que te ficam melhor eheheh

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    5. Eu não :)
      Com uma língua tão bonita quanto a nossa, ainda com esta elasticidade da criação...
      Tais como pega? :P
      Vá, eu ajudo :)
      (Palácio Nacional de Sintra)

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  12. Aproveita todos os dias. Beijinhos :)

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    1. Todos, companheira. Todos.
      Beijinhos :)

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  13. Tão depressa me fazes rir, como a seguir me deixas emocionada e sem palavras. O que não é descabido nesta situação, já que muito provavelmente todas as que eu pudesse dizer soariam ocas, sem poder para mudar ou aliviar o que estás a passar.
    Por isso desculpa a estranheza, sei que sou uma desconhecida e tal, mas agora dava-te mesmo era um abraço apertado.

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    1. És tão desconhecida como quase todas as pessoas que aqui vêm. Mas isso não te retira a qualidade, que é teres sentimentos e seres carinhosa.
      Obrigada, querida. Recebido agora, repartido contigo.

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  14. Este texto...ai...faz-me sentir coisas tão diferentes. Por um lado o amor...estou fartinha de pedir a Deus que me leve primeiro...serei incapaz de suportar a dor de perder MorMeu....e ...se Ele não tratar disso trato eu...aqui sozinha sem ele é que eu não fico....
    Depois ser mãe e ser filha...quanto a ser mãe estou tranquila, a minha mais novinha disse-me no outro dia que cuidava de mim até pr'aí aos 80 (anos)...o que para ela é uma fartura:)
    Quanto a ser filha...tenho "inbeja" do amor que te une à tua mãe...gostava de sentir um amor assim:)

    Deus te abençõe minha Linda (sem beatices)

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    1. Todo o amor é uma obra de construção. O nosso, meu e da minha mãe, já conheceu barreiras, paredes, fossos intransponíveis, entraves e pedras. Mas foi sempre maior, e, à nossa maneira, soubemos construir portas, pontes, passagens de luz. Faz parte da obra permitir que um dos dois saia dela, porque, na verdade, o amor não acaba nunca. Lembro-me sempre do que disse uma pessoa, uma vez, na televisão, acerca da morte da irmã: O amor não vai com a morte. Fica aí, no ar...
      Mas também te digo que, para mim, a morte mais irresolúvel é a de um filho. Para as outras, uma pessoa prepara-se, melhor ou pior.

      Obrigada, minha Suri, linda és tu.

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  15. Vim cá ter por causa da Til. Tinha uma janela aberta para este canto :)
    Fiquei realmente comovida depois de ler as tuas palavras. O amor nunca desaparece, fica nas lembranças que arrumamos na gaveta do nosso coração.
    Deixo apenas um beijo e um abraço :)

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    1. Nunca. Nunca vai, nem com a morte, como disse a outra senhora.
      Obrigada.
      Um beijo também, abraço retribuído :)

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